Miguel de Unamuno perguntou: a Verdade é para ser compreendida ou vivida?

Anos depois, José Ortega y Gasset respondeu: para ser compreendida com a vida.

E assim nascia a razão vital, conceito fundamental da filosofia orteguiana e que significa uma superação do dualismo realismo/idealismo. Ao invés de recorrer a um dos dois sistemas existentes para explicar a atividade cognoscente – seus limites, características e possibilidades – o autor das Meditações do Quixote criou um novo sistema filosófico; nele, todo abstracionismo dava lugar ao sentimento vital. Experiente era quem “pensava com os pés” e mundo era tudo aquilo que fazia parte da minha vida.

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Aquilo que não enxergamos

Então existe o ser e não o nada. Lá fora, aqui dentro, lados de uma mesma moeda: uma presença magna, ubíqua e permanente está em todas as coisas e além delas, e de alguma maneira sempre o soubemos. Nenhum dos homens contou verdadeiramente com a possibilidade contrária. A experiência do vazio existencial ou a incerteza sobre um logos que tudo signifique e a tudo dê coesão, não deixam de ser sofrimentos a posteriori: se deles temos padecido é porque estamos num mesmo dramático palco de luz e sombras – eu e o poeta português suicida, você e aquela antiga camponesa de tempos idos. Todos que ja perguntamos ou não pela existência e seus contornos, seus segredos ou aldrabices, existimos; mais: sentimos, mesmo quando resistentes, que não deve haver aniquilação daquilo que julgamos ser. É inconcebível para o eu, diria Julián Marías, a sua extinção pós-morte. Disso decorre o meu ponto de partida neste argumento: a pergunta pelo ser ou pelo sentido de ser é, em palavras diretas, um tipo de canalhice. Só pergunta aquele que é. Descartes estava sentado numa cadeira, provavelmente vestido e alimentado, quando duvidou de um fundamento comum e irrestrito que não fosse ele mesmo.

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