Miguel de Unamuno perguntou: a Verdade é para ser compreendida ou vivida?

Anos depois, José Ortega y Gasset respondeu: para ser compreendida com a vida.

E assim nascia a razão vital, conceito fundamental da filosofia orteguiana e que significa uma superação do dualismo realismo/idealismo. Ao invés de recorrer a um dos dois sistemas existentes para explicar a atividade cognoscente – seus limites, características e possibilidades – o autor das Meditações do Quixote criou um novo sistema filosófico; nele, todo abstracionismo dava lugar ao sentimento vital. Experiente era quem “pensava com os pés” e mundo era tudo aquilo que fazia parte da minha vida.

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Viver não basta

Quando menino, brincava muito sozinho. Filho único até meus nove anos, passei tardes inteiras dentro do meu quarto a promover batalhas entre meus bonecos, criar histórias para entreter minha mente, vaguear pelo silêncio da casa com uma nave na mão esquerda e uma espada na direita. Apenas eu testemunhei a salvação do mundo tantas vezes ali realizada, e preenchi de novas imagens minha provinciana existência numa cidade pequena do interior do Paraná. Os limites exteriores não tinham ressonância dentro mim: no foro íntimo tudo era possível, e nessa infância de aparência solitária, foi-me concedido pela vida provar dos conteúdos imaginários que dão à existência humana líricos contornos. Quem, como eu, sinta saudades do tempo de menino, deseja aquele consolo que abranda o prosaísmo adulto e cotidiano, gozado novamente por uma espécie de habitação provisória na Nárnia de nossos próprios contos de fadas.

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