A primeira coisa que qualquer um de nós precisa para poder entrar no reino dos céus é saber cozinhar arroz. Sem isto, portas fechadas. Inferno na certa. Sem a ciência do arroz soltinho e bem temperado, não sentaremos à mesa celeste. Toda a literatura ocidental, as aulas de filosofia online,  as horas gastas com volumes de Platão e Hegel – ou o estudo de latim e grego – serão inócuos se não proporcionarem pelo menos um prato de arroz bem feito.

Já imagino o julgamento:

Meu filho, estudaste bem, mas não sabes fazer arroz. Ao purgatório!

Lágrimas cairão. E você pensará: por que não troquei algumas horas de biblioteca pela cozinha da minha mãe?

A segunda coisa indispensável para merecer a glória é ter compromissos civis. Depois de servir seu primeiro arroz de fazer Ofélia aplaudir, deverá assumir responsabilidades: ter um trabalho, pagar algumas contas, enfrentar filas em banco, saber o que é receita federal, comparecer na justiça eleitoral, negociar desconto na loja, discutir pelo menos uma vez com um atendente de plano de saúde.

Cumpridos satisfatoriamente tais compromissos, sentirá um peso que não é o da gravidade física, mas da realidade humana. Diferente do que pensava antes de fazer seu primeiro arroz, a realidade não está nos livros; neles, sua presença é apenas um signo ou imagem que funciona para descortinar a alma em relação àquilo que ela já experimentou, mas nunca soube dizer a si mesma. Eu vivi alguns absurdos na minha vida e só por isso reconheço o que Kafka escreveu em O Processo. Assim como ao ler Ortega y Gasset, quando admiti que verdadeiramente eu sou eu e minhas circunstâncias ao olhar para minha realidade radical.

Mas os requisitos não param aí. A necessidade e complexidade crescem conforme a ambição da pessoa. Para um vocacionado intelectual, por exemplo, nem só de arroz e compromissos vive o homem. Ele quer mais. Precisa – quem sabe isto o ajude – conquistar uma mulher. Cortejar, amar e ser amado, planejar um jantar, saber dizer a coisa certa quando ela pedir. Sem isso, sem Machado de Assis.

É preciso que se faça real, ou correrá o risco de se tornar um chato, um homem abstrato que “metralha” Schelling por aí, na conversa de bar ou no almoço em família.

Papai, Schelling diria que isto não condiz com a filosofia do espírito.

Desconheço filosofias abstratas, desarraigadas de um corpo e alma que as sentiu primeiro. Não posso levar a sério quem quer que faça da vida intelectual uma cena, sem a maturidade mínima para exigir que o escutem. Não posso. É preciso comprovar nossa capacidade diante das coisas mais simples antes de falseá-la diante das mais difíceis e complexas.

Entender o que está acontecendo no Brasil, opinar sobre a espiritualidade do homem contemporâneo ou predizer catástrofes sociológicas só tem sentido se vindo de alguém capaz de penetrar a vida com intensidade, vigor e força; quem tenha as potências para tal, porque primeiro realizou o mínimo para estar no mundo, como homem de carne e osso.

Por isto, meu primeiro texto para este novo blog não poderia começar com outra pergunta, senão esta:

Você sabe fazer arroz?

  1. Meu caro Tiago, seu texto me impressionou! Não é apenas bem escrito, em sua clareza e simplicidade: é obra de alguém que sabe o que está falando. Alguém que sabe fazer arroz! Obrigado por ter me proporcionado esta experiência!

  2. Maisa Prata says:

    Ouvi você pela primeira vez na rádio Evangelizar com Padre Reginaldo Manzotti e logo vim atrás dos seus textos! Super fiquei fã

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