Esses dias, assistindo a uma reportagem sobre a tragédia humanitária venezuelana, me peguei pensando: “a quais dessas pessoas interessaria, nesse momento, ler o meu livro sobre felicidade?”. A resposta, por óbvio, foi “a ninguém”. Nossos vizinhos estão desesperadamente lutando pela própria sobrevivência, tentando passar por essa enorme crise econômica e, não tenho dúvidas, ignorando quase por completo questões que, em outras condições de vida, todo homem coloca para si mesmo em maior ou menor medida (sobre a própria felicidade, propósito de existência etc.).

Convenhamos: quem precisa vencer os riscos da inanição diariamente não consegue, via de regra, se preocupar com aquelas outras realidades necessárias, indubitavelmente humanas, porém dependentes de uma existência prévia minimamente segura, salvaguardada da iminência da morte por guerra ou fome, por exemplo. Não é um achismo de minha parte o afirmar: Aristóteles, em Ética a Nicômaco, é claro ao dizer que a busca da felicidade pressupõe alguns bens naturais para a manutenção da vida, como a nutrição e um lugar para dormir. É a partir disso, da posse desses bens irrevogáveis, que o homem pode perseguir o Sumo Bem.

A aplicação dessa ideia serve à compreensão de muitas realidades presentes e passadas, locais e universais. Por exemplo: antes do advento da Modernidade, a vida social era muito mais perigosa do que agora. Num geral, os europeus dos séculos X ou XI tinham tão poucos direitos, e tão grandes obstáculos para viver com alguma “segurança existencial”, que é bem provável que as preocupações com o sentido da vida, ou a justificativa pessoal dos próprios dons e habilidades, não lhes ocupavam muito tempo. Tente imaginar um camponês, a trabalhar seis dias por semana sem previdência social, atormentado pelos perigos da doença, do frio extremo ou das invasões estrangeiras, deitando às seis e meia para dormir (o pôr do sol definia a hora do descanso), depois de um dia extenuante e pensando, quem sabe, na vocação que deveria estar realizando. Apesar da cena não ser impossível, nos parece improvável: a vida, em toda a sua brutal radicalidade e insegurança, tratava de ocupá-lo suficientemente. O receio com a colheita, os medos já mencionados, o cansaço físico acumulado – a quem resta energia para pensar nas coisas (sabidas) tão caras ao homem moderno, capazes de neurotizá-lo e botá-lo de joelhos perante a existência?

Ainda: no Brasil profundo e contemporâneo, nos rincões do norte ou nordeste do nosso território, onde a seca, a fome e os males de toda ordem afligem o povo, quem tiraria um tempo para, aburguesado, pôr-se a ler “Por que não somos felizes?” ao fim da tarde?

Isto não é marxismo de minha parte, mas o reconhecimento – de base aristotélica – de que a fome de vida em abundância é precedida pela fome de arroz e feijão. É preciso existir para poder viver. Mais: meu ponto aqui é que a angústia desses homens e mulheres limitados pelas contingências básicas da vida é correspondente à ordem dos seus problemas e urgências. A forja da própria heroicidade, nesses casos, está ligada à conquista da sobrevivência, como aquele personagem comum em filmes apocalípticos que passa duas horas simplesmente tentando não morrer.

O Estado de bem-estar social chegou, entretanto. Direitos e mais direitos foram adquiridos. Ciências foram descobertas e desenvolvidas. A proteção do cidadão – até mesmo dos seus desejos mais pueris ou instintivos -, é agora realidade em boa parte do mundo. Num geral, não se corre mais atrás da manutenção da existência, em outros tempos ou lugares uma realidade sempre ameaçada: corre-se agora com o peso doutra angústia, que ressoa como a voz incômoda em tempos de maior conforto. A Modernidade nos legou, para o bem ou para o mal, a possibilidade de um outro heroísmo, menos visceral, eu diria. Ao que parece, o ato de heroicidade do homem que pode ir ao psicólogo, ou gozar trinta dias de férias remuneradas, é justificar a própria existência.

Daí que essa angústia seja de nova ordem. Não é inteira novidade, por certo: ao longo de toda a história humana, mesmo que de maneira mais pontual e rara, homens e mulheres pensaram sobre si mesmos, desejaram melhores vidas, fizeram grandes coisas em nome de valores. É certo também, todavia, que as condições externas, políticas, sociais e culturais lhes condicionava a uma resignação maior, especialmente pelas pressões que a realidade, menos “polida” ou qualitativa, exercia sobre cada indivíduo comum. A realidade, hoje, é outra; revestida por uma nova cultura e novas obras, é abrandada pelos véus de segurança que todos conhecemos e usufruímos em alguma medida. Em outras palavras, as condições a que se referia Aristóteles, em seu famoso livro sobre a felicidade, nunca foram tão cômodas, e por isto mesmo o nosso tempo é de neuroses: de sofrimentos psíquicos nascidos da distribuição de facilidades.

Quem é o novo herói?

Não é mais aquele que traz a caça para o jantar – este sobrevive em alguns pontos do globo, como na atual Venezuela ou na destruída Síria. O herói deste tempo é o escravo da liberdade e das inúmeras possibilidades de vida que lhe são dadas no nascimento. É aquele que pode, com o tempo, dinheiro, conforto, ajudas e assistências que o protegem, ler o meu livro e tantos outros. Quero dizer que a heroicidade de agora é menos uma virtude de sobrevivência e mais uma aventura da alma em busca de legitimidade pessoal. O fato é que, quando eu e você nos deitamos, ao fim do dia, sem frio nem calor, agradecidos pelo fim de semana, esperando por aquela festa marcada com os amigos e fazendo postagens nas redes sociais, sobra-nos um bocadinho de espaço para sofrer, mais ou menos conscientemente, pela vida que não temos – apesar de tudo que temos.

 

 

 

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