“O humano admite graus”, dissera Ortega y Gasset. Isto significa que entre duas pessoas é possível existir uma diferença de humanidade (um é mais do que outro, como se pode perceber claramente na comparação entre São Francisco de Assis e Lula). Diferente das outras criaturas, nós nascemos parcialmente determinados – ninguém vem ao mundo sem uma raça, um sexo, uma herança familiar e cultural, etc – e temos de usar estas determinações na realização do ser que está “aberto”, irreal ainda. A liberdade é possível justamente porque temos essa zona de criação existencial, fruto das escolhas pessoais, das decisões e determinações que cada um toma para si. “Viver é um trabalho poético”, definira o mesmo Ortega y Gasset: somos os romancistas de nós mesmos e escrevemos nossas próprias vidas com aquilo que recebemos no nascimento, absorvemos nas circunstâncias, etc.

Portanto, as diferenças de graus de humanidade não se dão na forma humana condicional – pois nascemos com os mesmos “aparatos” ou elementos estruturais de homem. No nascimento, pertencemos à mesma espécie e, neste sentido, somos iguais. Porém, a existência individualiza e a partir do momento em que estamos no mundo e com ele nos encontramos, fundamos as diferenças. São Francisco e Lula têm a forma de homem, mas a gritante distância vertical entre os dois é fruto do ethos existencial de cada um; do conjunto de escolhas, das respostas dadas à vida, do argumento biográfico, etc, etc, etc.

Assim, dizer que a espécie humana corre perigo é apontar para a possibilidade de que a grande maioria dos que falam, comem e fazem sexo como homens não o sejam; ou o sejam minimamente, num tipo de avareza existencial que impede com que assumam novas e novas dimensões do ser que implicam exigências cada vez maiores. Afinal, para subir de grau é preciso corresponder às leis e exigências daquele novo “andar” da vida, absorvendo seus limites e acrescentando-os aos já tomados como seu. Por exemplo: é preciso uma quantidade de força, energia e decisão para conquistar a própria subsistência (conseguindo um emprego, passando num concurso, empreendendo, etc). Feito isto, se o sujeito quiser também agir responsavelmente na esfera política – portanto, para além da natural e da civil -, é necessário que reconheça as exigências daquela esfera da vida (por exemplo, ter uma função social pela qual se distingue na coletividade e é respeitado por isso).

De outro modo, quem quiser subir ao nível da contemplação de que falava Aristóteles – onde se instalam os filósofos e sacerdotes – sem ter respondido adequadamente aos outros níveis da vida que a antecedem, estará incorrendo num tipo de falsidade existencial. Em outras palavras, falando de arte, cultura e educação sem saber se posicionar socialmente ou arcar com a própria subsistência material.

Todos os dias recebo mensagens, e-mails e comentários de gente que se diz interessada em saber isso, aquilo e mais aquilo outro. Muitas vezes, não sabem cumprimentar, têm os modos mais toscos da Terra, e vivem de briguinha em briguinha virtual, exatamente como um adolescente sem freio. Entendo que a alta cultura possa ajudar exatamente nisto, mas reconheço que estes mesmos que não aguentam com os próprios corpos e as mínimas regras sociais não têm ideia do motivo real que deveria levá-los a ler e saber aquelas coisas pelas quais imploram.

Quando você assiste a dez minutos de televisão – por exemplo, um programa da Regina Casé – tem a clara noção do que estou tentando dizer: nossa espécie corre perigo de extinção porque somos aqueles que precisamos fazer por nós mesmos, realizar nossos seres e conquistar os graus de humanidade passo a passo. Do mais básico da vida humana – para todos – até os mais exigentes (para alguns). Diante das outras criaturas, somos os indigentes: lamentamos quem ainda não somos, a vida que ainda não temos, os graus que ainda não conquistamos. Por isso viver é dramático e duro – porque é iminente e contínuo o risco de não ser.

A crise atual não é política ou cultural simplesmente, mas substancial. É a realidade pessoal que está rara, e por isso temos esta correta sensação de que não há com quem falar verdadeiramente; por isso estamos desesperados por intimidade, por toque, por convivência. Estamos num deserto onde quase todos estão cegos em relação a si mesmos. Caminhamos sob o Sol escaldante, esbarrando vez ou outra em alguém e perguntando, em tom de súplica:

Você é um homem? 

Deixar um comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar os seguintes marcadores e atributos HTML:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>