Verdade seja dita: não somos todos especiais, a não ser para nossas respectivas mães e outro punhado de gente que nos queira bem. Dizendo de outra forma: a grande maioria das pessoas não é importante, nem tem elevadíssimas qualidades que a destacariam da multidão anônima dos viventes.

Isto enunciado assim, sem os beijinhos preliminares, pode causar estrago nos corações mais sensíveis. Afinal, não é este o credo moderno a que nos submetem desde os bancos escolares. Em geral, os indivíduos acreditam mesmo terem talentos invulgares, merecedores de toda a admiração coletiva, e por isto agem como se num programa de calouros em que, passada a sua mostra ou performance, todas as cadeiras do louvor devem virar em sua auspiciosa direção. O não reconhecimento, por parte do outro, daquilo que julga ser a base do seu valor irrepetível, gera toda sorte de frustrações e mágoas, sentimentos infantis nos mais crescidos corpos que jamais – repito: jamais – deveriam se dar ao trabalho de se ofender com a falta de aplauso.

A verdade – de novo, esta danada que golpeia todo ego – é que a humanidade é composta de milhões de comuns, e por isto mesmo admiramos a beleza e força raras, as virtudes outras que sobejam nas personalidades que se destacam justificadamente. A vida real, para desespero dos igualitaristas, é hierárquica, desigual na distribuição de capacidades e dons (alguém aqui se lembra da parábola dos talentos?). Daí que seja uma consequência natural, portanto, o esquecimento a que 90% das pessoas estão destinadas.

Se nos casamos, fazemos alguns amigos, temos filhos, atuamos nalguma comunidade, é também por esta razão: porque queremos testemunhas para a nossa pobre existência; uma garantia débil de que, pelo menos nas mentes desses conhecidos, permaneceremos.

O que salta aos olhos, vale também dizer, é o assombro que esta nota óbvia da realidade causa nos homens e mulheres de agora. Iludidos pela cultura vigente, fiéis aos dogmas propagandísticos da massa, sentem-se ultrajados na sua suposta significância quando confrontados com essas afirmações “injustas”. As almas são comunistas e ninguém é melhor do que ninguém, repete o gado.

Mas há, sim, pessoas melhores. A história o comprova, delas falamos. Há aquela que pinta maçãs na aula de artes, e há Cézanne. Há aquele que faz versinhos e letras de música para a namorada, e há Baudelaire. Há donas de casa medianas, dedicadas o quanto podem, e há Santa Marta. Há Bolsonaros, e há Tatchers. Poderá o rapaz que aprende piano na escola da esquina, no interior de Minas Gerais, ombrear Chopin? Talvez. Mas será um, entre milhares, havendo talento e dedicação concomitantes.

O que esta reflexão sugere – era minha intenção ao escrevê-la – é aquilo que Paulo Tunhas, filósofo português, chama de desimportantização: urge encararmos a nós mesmos com menos importância e/ou seriedade. A verdade da verdade da verdade é que, em última instância, o mundo não depende de nós.

 

 

 

 

 

 

Deixar um comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar os seguintes marcadores e atributos HTML:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>