Há uma pergunta recorrente nas minhas aulas sobre literatura: “Tiago, como faço para perceber as nuances da história ou o tema do livro?”. Num geral, são alunos dedicados, interessados na obra em questão, e que desejam sinceramente ter um melhor aproveitamento daquilo que leem ou, em última instância, uma experiência estética mais fecunda. Afinal, que razão é mais legítima, para todas as horas gastas com as realizações da grande arte, do que o confessável desejo pessoal de mais vida?

Porque há vida, e há vida em abundância. Tomar A Comédia Humana como apenas texto inventado, adequado para o estudo de uma sociedade ou para o lazer no tempo livre, é assemelhá-la à contingência da vida apequenada, empobrecida porque prosaica, cotidiana, sem o élan que permita transbordá-la. Uma experiência mais radical da leitura de Balzac é como o alcance e gozo da vida em abundância: então tudo se preenche de sentido, o Sol já não é apenas o astro físico, e as palavras conduzem-me ao consolo do todo, ao invés da limitação da parte.

Em 2015, publiquei Abertura da Alma, um simples e despretensioso livro de estreia em que, desde o título, convido os leitores a se permitirem uma experiência mais abrangente dos clássicos literários. Através de breves explicações sobre algumas obras consideradas “universais”, reforço o argumento de que, com interesse sincero e abertura de alma (outro modo de dizer sensibilidade para o que verdadeiramente importa), é possível ao leitor real, de carne e osso, acessar as delícias de um mundo absoluto, mais original quanto mais poético, único capaz de suavizar os golpes duros da existência.

Meus alunos e leitores entendem isso, assim o dizem. Não sabem como o praticar, acrescentam. Pois bem. Este texto servirá como exemplo do que sempre tentei ensinar sobre o tema, e que assenta em dois expedientes muitos claros: a leitura atenta, contrita e o mais desnudada possível de ansiedades e projeções; e a vontade firme de querer “crescer” ou expandir a si mesmo a partir da experiência estética .

As cenas comentadas a seguir são do romance A besta humana, de Émile Zola.

A história ali contada é angustiante, assustadora: um crime que gera outro crime, e o desejo de mais outro etc, contaminando vários personagens que se revelam, um a um, “bestas” capazes de diferentes atrocidades contra outras pessoas, movidos por uma fúria ou núcleo de instintos mortíferos, simbólica e literalmente. A narrativa, incrivelmente bem feita e capaz de prender o leitor da primeira à última página, é um grande feito literário, independentemente dos pressupostos filosóficos ou ideológicos que motivavam Zola, autor do famoso artigo J’accuse, texto de grande repercussão política na época.

Séverine é a esposa de Roubaud, e os dois, levados por um ciúme doentio do marido, acabam assassinando o velho Gradmorin dentro de um vagão de trem. A única testemunha do crime – e ainda assim à distância -, é Jacques, um jovem maquinista com inclinações homicidas, que não consegue se relacionar com as moças por ter, à hora do sexo, o desejo louco de matá-las.

Por obra das instruções e investigações processuais, Jacques e Séverine se conhecem e, um tempo depois, se apaixonam. Sua atração é, como podem supor, profundamente doentia, já que existe uma confissão implícita entre os dois, autora e testemunha do assassinato. Ele não revela a verdade sobre os fatos às autoridades; ela sente-se grata. E assim os dois se aproximam, pouco a pouco enredados pelo caos que eles mesmos promoveram e de que passam a depender – como duas bestas famintas pelos tipos de morte que só essa relação lhes oferece.

Séverine, no início, hesita em se dar a Jacques: é casada, tem medo do marido, e seus encontros furtivos são mediados pelo moralismo, o receio de serem descobertos, a sua resistência a se entregar ao rapaz que não lhe atraía tanto num primeiro momento. Passam-se algumas páginas e capítulos até que os dois anuam ao desejo quente que crescera no decorrer do tempo. E há um momento na história em que Zola prepara-nos para isso: como o verdadeiro maquinista da experiência literária, ele vai nos conduzindo para a cena que antevê, usando de símbolos muito claros e elementos bem colocados para que, no momento em que o casal finalmente goze da intimidade dos corpos, nós, leitores, só possamos dizer: “ah, sim”.

Como ele o faz?

Primeiro, explica as razões de Séverine para a negação do sexo (no caso, suas experiências pregressas, seus traumas de menina abusada pelo velho Grandmorin) e, em seguida, desenha o estado de alma de Jacques, abrindo para o leitor a porta pela qual toda a verdade será dita de forma catártica depois.

“Tal como ela, parecia voltar à infância, iniciando-se no amor que, até então, fora para ele motivo de pânico. Se se mostrava dócil, retirando as mãos quando ela as afastava, era porque um medo surdo permanecia no fundo da sua ternura, uma grande perturbação, em que receava confundir o desejo com a antiga necessidade assassínio. Ela, que tinha matado, era como o sonho da sua carne. […] Mas continuava a não ousar; e era bom esperar, deixar ao seu próprio amor o cuidado de os unir, quando a hora chegasse, no desfalecimento das suas vontades, nos braços um do outro”.

Percebam: temos aqui tanto a descrição de um jovem apaixonado, aparentemente resignado às circunstâncias dos seus encontros e, ao mesmo tempo, a sugestão de que isso é momentâneo; de que, muito em breve, o sonho da sua carne serviria ao propósito assassínio que o consumia desde há muito tempo. O autor dá-nos, assim, uma “pista discreta”, e torna possível a ebulição do desejo entre os dois amantes, bastando haver as condições de “desfalecimento das suas vontades”.

E elas nascem, no parágrafo seguinte, anunciadas por um símbolo potente: uma tempestade. Não é uma chuvinha, mas uma torrente que cai do céu numa noite de julho (quente, portanto). Agora notem a abertura que Zola faz dessa cena amorosa que passamos a esperar, insuspeita e inconscientemente, enquanto seus leitores magistralmente conduzidos:

“Numa noite de julho, Jacques, para chegar ao Havre às onze horas e cinco, a hora regulamentar, teve de forçar a Lison, como se o calor sufocante a tornasse preguiçosa. Desde Ruão, à sua esquerda, que uma tempestade o acompanhava, seguindo o vale do Sena, com enormes relâmpagos ofuscantes; e, de vez em quando, ele voltava-se, inquieto, porque Séverine, nessa noite, devia ir ter com ele”.

Calor sufocante. Tempestade o acompanhava. Relâmpagos ofuscantes. Séverine, na noite, teria com ele. E com estas afirmações e esta escolha de imagens, Zola diz sem ter que o dizer: os dois se entregarão aos desmandos dos instintos, à força bruta da natureza bestial que lhes consome o ser. O leitor atento, aqui, já espera pela enxurrada, o exagero, a fome saciada, os trovões dos corpos quentes e expostos a toda sorte.

Todo e qualquer resquício de ordem ou comedimento entre os dois será deposto pela ação da natureza. E então prossegue o pintor da cena, com Jacques já na estação, à espera de Séverine:

“A escuridão era grande: quatro candeeiros a gás mal rasgavam as trevas, que imensas sombras movediças pareciam aumentar; e, por momentos, só relâmpagos iluminavam as vidraças do telhado e as altas janelas, à direita e à esquerda – distinguiam-se então, como num incêndio, as paredes fendidas, as traves negras de carvão, toda a miséria caduca daquele edifício tornado insuficiente”.

Novamente, destaco: escuridão; trevas; as sombras aumentavam; à direita e à esquerda via-se como um incêndio, onde a miséria do edifício passara a ser insuficiente.

Temos aqui a constatação de que os conteúdos mais profundos da alma de Jacques tomaram a dianteira: o que até ali viveram é agora insuficiente. O personagem é movido a relâmpagos; queima como num incêndio.

A chuva aumenta, é preciso abrigar-se. Há salas dentro da estação onde os funcionários podem descansar e se proteger da intempérie. Mas Jacques, atenção, recusa-as. É o desespero o seu motor:

“Ficou à entrada da porta escancarada, sufocado pelo denso calor que ali reinava. […] No seu desespero contra aquele dilúvio imbecil, crescia um louco desejo de ir de qualquer maneira ao encontro … era um anseio de todo o seu corpo; acabou por se meter à chuva”.

Penso já não ser preciso destacar palavras. O jovem está exposto, aceita o próprio dilúvio. Vai ao encontro de Séverine. E ela chega. De que forma?

“Jacques entrava na profunda escuridão desse abrigo quando dois braços ágeis o envolveram e lábios quentes se colaram aos seus. Era Séverine”.

Não há mais dúvidas: ela o envolveu agilmente; seus lábios estão quentes. Uma ou outra troca de palavras e, enfim, a enxurrada:

“E logo, desde o primeiro minuto, quase sem palavras, foi ela quem o atraiu impulsivamente, quem o forçou a possui-la. Não tinha previsto isso. Deixara-se dominar pela alegria inesperada de o ter, numa brusca e irresistível necessidade de lhe pertencer, sem cálculo nem reflexão. Era assim porque tinha de ser. A chuva tamborilava no telhado da barraca; o último comboio de Paris, que entrava na estação, passou roncando e apitando, fazendo estremer o chão”.

Algo mais precisa ser dito? A culminação da cena e a referência, à hora do sexo, à chuva e ao trem que estremece o chão: tudo, absolutamente tudo, faz sentido, está encaixado. Tinha de ser assim. Somos seus leitores, aceitamos toda a tela pintada parágrafo após parágrafo para despertar a emoção adequada.

Volto ao tema deste texto: é claro que livros de crítica literária são bem-vindos, assim como todo tipo de conhecimento que se possa ter para compreender os diferentes níveis da narrativa ficcional. Contudo, o que realmente fará a diferença nas leituras dessa ordem, comprometendo o leitor – contaminando-o do assunto ali representado -, é a abertura de alma e leitura atenta, pessoalmente interessada.

Para concluir: podemos, num caso como o d’A Besta Humana, ler “chuva”, como podemos também, no mesmo caso e através da mesma palavra, ver tudo que é chuva. Não há grande segredo, portanto. No fim das contas, se trata de uma disposição de alma, mais ou menos interessada e viva, mais ou menos consciente da sua fome de totalidade.

 

 

 

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