Semana passada coloquei meus dois filhos em frente ao computador para que assistissem a um filme que fez parte da minha infância – e da de muitos, tenho certeza: História sem fim, de 1984, baseado no livro homônimo de Michael Ende. Ainda que os efeitos visuais e sonoros, a produção e a direção de arte, possam estar muito aquém daquilo com que as crianças de hoje estão habituadas, nos filmes e desenhos animados de alta tecnologia que acompanham, não foi surpresa para mim que ambos fossem absorvidos pelo narrativa apresentada. O mais novo, especialmente, assistiu duas vezes seguidas à aventura de Atreyu e Bastian.

O enredo do filme vocês devem conhecer: Fantasia é um mundo que depende, obviamente, dos sonhos e imaginação de seus habitantes. Não por acaso é governada por uma menina, muito nova, a quem chamam Imperatriz. Bastian é o leitor que encontra um exemplar de História sem fim num sebo e acaba, por uma espécie de magia, participando do enredo como mais um personagem: é ele, enquanto leitor-personagem, o herói que deve ajudar Fantasia a resistir ao nada. Escuridão, trevas, um lobo feroz e assustador, a lama que faz submergir o cavalo-amigo de Atreyu: todos estes elementos servem à confirmação da ação que corrói o mundo em que seres lendários e fantásticos vivem, todos dependentes da imaginação.

A defesa do diretor do filme – que é também a do autor do livro – é da própria faculdade da imaginação: é preciso que ela continue viva, rica, capaz de alimentar o mundo e mantê-lo a salvo do vazio. Crianças são pródigas nisso, já sabemos; mas também percebemos que as últimas gerações têm as crianças mais velhas de toda a história humana (raptadas pelo racionalismo aviltante, a secura dos tempos que vivemos, a quase ausência do lirismo nas relações familiares). De fato, é preciso salvar também a fantasia de nossas crianças, que têm se tornado adultas esvaziadas de sentido justamente porque não cultivaram os monstros, heróis e seres alados que deveriam quando pequenos. A maturidade torna-se, a partir disso, um movimento de repetição constante e insosso, pobre em possibilidade de vida, triste em seu argumento biográfico.

Mas não é apenas disto que eu quero falar hoje, nesta luta contra o nada que é preciso viver desde a mais tenra idade. Assistir ao filme novamente, com meus filhos, fez-me pensar na força do nada que toma os espaços da convivência, as aparentes (e falsas) realizações pessoais; a inutilidade de grande parte de nosso tempo; a busca do prestígio, da aprovação social, da construção de castelos de areia feitos para afago da consciência intermitente. Penso, quando escrevo isto, na atividade exterior que disfarça a inatividade anímica: no “mais do mesmo” que impera nessa Fantasia a que chamamos redes conectadas, eventos sociais, fama, etc.

O desvio é tão grande que há quem faça muito e nada realize. Nada. Não é possível extrair um copo de suco de toda a aparente e “pujante” vida pública que algumas pessoas têm. Ao olhar mais ingênuo, parece haver em certos homens e mulheres algo de muito interessante, muito produtivo: escrevem muito, postam muito, trabalham muito, opinam muito, fotografam muito, leem muito, discutem muito. For what?

Disso tudo, uma pequena parte revela algo de substancial. De resto, nada. E qual o critério de “nada” que uso aqui?

A eternidade. É ela o parâmetro de julgamento – o verdadeiro, pelo menos. Diante dela, que vale isso ou aquilo? Esta ou aquela ação? Esta atividade, este julgamento, esta participação midiática? Mesmo: qual o peso substancial de cada um dos meus atos, determinado pela permanência e força que terão na imortalidade de minha existência?

Quando estabelecido este critério – o único que me parece válido para uma vida feliz – pouco subsiste. Nossa vida, nossas ações públicas, nossas energias e tempo gastos em dezenas de coisas, deixam de ser importantes, urgentes ou valoráveis. Passam a revelar-se em sua plena nulidade. Passam a vigorar em toda a sua mortalidade, seu nada, diante do movimento efetivo que deveria marcar a vida. O fato é que o “nada” engole nossas vidas não por sua ação destruidora – lembremos, trata-se do nada, que portanto nada faz e nada pode fazer: perdemos a presença de tudo porque nos furtamos à ação, deixando de fazer algo que valha a pena mesmo e que seja um capítulo na história da salvação pessoal.

Andamos danados existencialmente porque ceifamos as possibilidades de vida em abundância. Cortamos as possibilidades de criação biográfica porque sacrificamos o nosso mundo no altar das aparências, dos cliques, da completa e inexpressiva Fantasia às avessas: O faz-de-conta mortal que se lê na história de cada um de nós.

Que dragão da sorte nos salvará?

Deixar um comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar os seguintes marcadores e atributos HTML:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>