As notícias nos arrastam, para lá e para cá, como se ventos fortes e incontornáveis. Quanto mais conectados às redes sociais ou mais atentos aos canais que veiculam os acontecimentos do dia, mais tumultuados ficamos, sem perceber que a instalação no mundo não tem raízes no passageiro, mas no solo firme do que permanece.

De fato há um modo jornalístico de seguir vivendo: atuais como nunca, temos nos esmerado em portar a urgência, comentar aquilo que se publicou minutos atrás; demonstrar nossa indignação ou anuência às falas que reverberam, incipientes, a emoção do momento. Como partidários de causas e pessoas, não nos furtamos ao sacrossanto direito de opinar e marcar um território que julgamos sempre necessário. Nada deve escapar ao nosso ímpeto de exterioridade – espaço onde transcorre, desde então, a maior parte de nossas vidas agitadas.

Se tomarmos como exemplo os temas mais discutidos  nos fóruns virtuais, num facebook ou twitter, veremos que os assuntos da política ou os debates acalorados sobre questões ideológicas assomam; são, se comparados aos níveis de interesse geral por temas menos febris, a pauta principal da conversação. A experiência virtual o comprova: quando trato de temas ordinários como a queda de um governo ou a reportagem sobre um globalista qualquer, tenho respostas imediatas e em números sempre crescentes. Entretanto, se o que proponho num post ou blog tem a petulância da necessidade espiritual – como num comentário sobre literatura clássica ou a metafísica de Julián Marías -, o público faz ouvidos moucos. É assim, eu sei. É da natureza mesma das coisas.

Ninguém que se esforce diariamente por transitar entre os andares da realidade, fazendo o cansativo movimento vertical e tensional entre o plano dos fatos e o do sentido último de todos eles, deve esperar grandes envolvimentos de uma malta indisponível para tal. Como diria Virginia Woolf, estão ressequidos os corações daqueles que andam marcados pelo martelo das horas. Daí que meus amigos escritores, poetas e críticos culturais expressem, muitas vezes em tom de desabafo, suas desilusões e fadigas: a vida do espírito não tem grande salário neste mundo.

Mas este texto não é um lamento pelas coisas serem como são: eu serei o último a chorar o fato de haverem trânsitos e sinfonias, notícias e epopeias. A intenção, aqui, é cumprir o que julgo um dever de quem luta, como o Sr Sammler de Saul Bellow, para não ser sufocado e, encontrando a nesga pela qual a luz não cessa de entrar, partilha aquilo que não é segredo, mas um combate pessoal eivado de tentativas, erros e acertos, consolos e angústias.

“Deus é silêncio. O diabo é barulho”, disse o cardeal Robert Sarah numa entrevista recente. Sem dúvida, existe uma força no silêncio, um prêmio na postura reflexiva e menos colérica daqueles que prezam pela altura e não apenas pela horizontalidade. A batalha em que todos os dias nos inserimos, com maior ou menor consciência disto, é vencida, em parte, pela exumação do barulho que nasce na superfície do coração de cada um e que precisa, para sua própria morte derradeira, de um canal de putrefação: um destino menos comprometedor em que as vozes e gritos se dissipem sem pôr em causa o coração do mundo.

A tragédia de nosso tempo é que o campo de batalha e a podridão dos corpos em decomposição acontecem a olhos nus, sob as expressões famintas e as bocas aguadas de quem só quer ver o fogo, os ânimos, o quente do momento. É assim que estes mesmos homens e mulheres, sem o perceber, sufocam-se em sepulturas indignas onde coração e vísceras oferecem-se igualmente aos vermes.

 

 

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