“Não é bom que o homem esteja só”. Mesmo o Paraíso não bastava para a criação divina que é o homem: Deus nos fez para a reciprocidade, e privados da relação com o outro não somos verdadeiramente as criaturas que Ele planejou – por isso Eva nasce dos sonhos de Adão e para Adão.

Esta evidência da vida humana poderia ser abordada de várias maneiras, desde o naturalismo de Aristóteles – que estava convicto, antes do Cristianismo, da necessidade da interação entre os homens – até os estudos de Gabriel Marcel, Martin Buber, Pedro Lain Entralgo, Xavier Zubiri, Anselm Grün, etc. O próprio José Ortega y Gasset reiteradas vezes escreveu sobre o tema, destacando o fato de que não existe um Eu até que seu sujeito se oponha a um Tu. É na confrontação e espelhismo, na comparação com uma outra realidade humana que não a minha que me afirmo: “eu não sou ele” – e nesta frase atualizam-se a individualidade do eu e o reconhecimento de toda a realidade que não é a minha mais radical.

Gabriel Marcel, por sua vez, tratou dos níveis de relação do Eu com os “Tus” que encontramos ao longo da vida. Para ele, o Eu Absoluto (Deus) é uma necessidade na vida do homem: é este encontro, do eu miserável com Deus, a mais perfeita forma de atualização de toda a condição e realidade do indivíduo; se no encontro com os outros homens atualizamos – por confronto, diferenças ou semelhanças – alguns aspectos do nosso mundo pessoal, na ação de estar diante do Tu Eterno somos impelidos a assumir quem somos; assim como Ele, analogamente, quem somos por inteiro, sem partes ou aspectos. Por isso as relações humanas não devem nos enganar a ponto de serem plenamente suficientes: sem Deus, sem totalidade.

Julián Marias, em livros como “Mapa dos Mundo Pessoal” e “Antropologia Metafísica” trata das dimensões da pessoa: inexoravelmente, temos uma porção social (superficial), outra narrativa (lugar natural do Ego) e a mais profunda e substancial: o núcleo pessoal (inacessível pelos métodos convencionais da Psicologia, porque perdido a cada tentativa de dizê-lo). O núcleo pessoal de que falo no início do curso A Vida Humana é realmente quem somos, e fazer sua cartografia depende da vontade e dos encontros amorosos que travamos ao longo de nossas trajetórias. Por que amorosos? Porque o homem é a criatura amorosa, feita de amor e para o amor, e tudo que atualizar essa condição favorece o conhecimento do núcleo que porta a centelha divina, ou a verdadeira morada interior.

A solidão, neste sentido, é um abismo: aquele que vive só, afastado de outros que o confrontem, amem, provoquem, toquem e limitem não tem os meios para dizer-se claramente. Não pode fazer a “cartografia pessoal” por desconhecer as fronteiras de sua existência, que precisa se chocar com as outras existências para se revelar.

Obviamente, na sociedade moderna é quase impossível passar uma vida sem algum tipo de relação e convivência. Entretanto, estas relações atuais não atingem o núcleo pessoal, mas aquela dimensão mais superficial da estrutura que cada um de nós é: socialmente trocamos uns com os outros, como fazemos nas redes sociais, nas lojas de shopping, no exercício das funções de trabalho. Talvez por isso mesmo voltemos para casa cansados de tantos hiatos, tantas impossibilidades de ser, tantas oportunidades perdidas de atualizar quem somos.

As rodas de conversa, casamentos e amizades correm esse risco: o de lançarem assuntos, temas e jogos de palavras o tempo todo, de um para o outro, sem efetivamente comunicar. A verdadeira comunicação é aquela que sai do coração do homem (seu núcleo) e vai ao coração do outro encontrar não apenas repouso, mas principalmente retorno: alterada pela pessoalidade do outro, a mesma realidade emitida pelo primeiro retorna cheia de idiossincrasias que não são as dele próprio e, por isso mesmo, o expandem ao chegar; com maior ou menor incômodo, abrem-lhe o horizonte da existência que ultrapassa em muito sua limitada vida. Uma realidade compartilhada entre dois, dessa forma, instala a ambos no mesmo chão de realidade e faz nascer de novo a comunhão dos espíritos do início dos tempos.

Se existe a solidão dos que se fecham para o outro, dos que optaram doentiamente pela vida sem os limites e riquezas do verdadeiro encontro, também existe a solidão dos homens em batalha, que estão em campo à procura de existências substancias com as quais possam travar encontros e realizar, segundo Unamuno, o dever primeiro dos homens: amar. Mas estes soldados cansam por motivos outros que os dos solitários neuróticos: não encontram um quem neste deserto a que chamamos sociedade hoje. Pessoas, de carne e osso, que estejam abertas para as mais nobres e exigentes dimensões da vida e que não se importem em sentir a dolorosa presença do outro em seu mundo pessoal.

Esta solidão, especificamente, é paradoxalmente compartida pelos homens maduros que não aceitam o teatro de relações que aí se impõe, mas esperam ainda tocar e serem tocados; enxergar no outro a mesma ânsia que é viver. Ânsia que deságua em paz cada vez que se descobrem iguais em condição humana.

 

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