Um sensível abatimento do processo de individuação está em curso; uma diminuição do espaço de autopoiese em que cada um desenvolve a própria vida e, em termos quase literais, faz a si mesmo. É a perda ou substituição desta zona de criação pessoal que, por caminhos diferentes, encerra a pessoalidade num corredor estreito de trajetórias genéricas e imputação alheia de responsabilidades. Em outras palavras, esse lugar onde reina o mimetismo e a voz passiva é a fábrica de milhões de “algos”, processo metaforicamente industrial a partir do qual o eu, expressão inconfundível de alguém, imiscui-se num terreno baldio.

Parece que a busca predominante é por uma sombra: um onde aliviar a pessoalidade sob a tutela fresca e os cuidados paternais de outrem. Esta mesma sombra pode ser obra do corpo de um pai ou de uma mãe, de uma instituição religiosa, do Estado, de um grupelho qualquer que assuma os riscos pelo sujeito em causa, fale em seu nome e pague os preços que ele mesmo, no seu afã por proteção ou seu receio dos golpes duros da existência, não está disposto a saldar.

“A gente sempre pensa que”, “meus pais não permitiram”, “nós que temos essa ideologia”, “minha categoria profissional” são alguns dos princípios de frase e farsa desde a qual algo não fala, mas repete e se esconde. Quantos são os que se escondem sob as projeções de corpos coletivos ou individuais, usando em seu favor – favor da salvação da pele, que julgam a coisa mais importante – os ideários e slogans, as bandeiras e cartas abertas? Sempre, repito, como mecanismo cínico de autopreservação e fuga aos tribunais deste e doutro mundo.

É claro que a vida exige a comunhão, a partilha, a experiência do nós; sem isto, a humanidade mesma fica em suspenso, haja vista ser o outro, a praça da convivência, minha oportunidade de estender para além dos meus limites a vida que projeto como verdadeira. Isto é o mesmo que dizer que, sem a resistência, os perigos e os mananciais do encontro de almas, não existe transcendência. Deus, diria Gabriel Marcel, é o “Tu eterno”.

Mas a necessidade do plural não exime o indivíduo da Via Crúcis da autopoiese; do gosto agridoce da solidão, também contornada segundo o anseio pessoal por espaço de prova, teste dos próprios limites e autodeterminação. As almas grandes têm grandes espaços de solidão, por elas mesmas abertos. Neste espaço não há sombra, água fresca ou vento suave no rosto: tais consolos são graças dadas ao viajante que, cansado e sedento de uma jornada intransferível, encontra pelo caminho quem escute sua agonia silenciosa e ofereça, em espécies indizíveis, aquilo a que suas mãos mendigam para seguir andando sob Sol escaldante.

 

 

 

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