Fugitiva, de Alice Munro, é uma ótima imagem daquilo que podemos chamar “medo da verdade”. O conto tem como protagonista Carla, uma jovem esposa que vive com um homem mais velho e responsável por convencê-la de alguns pequenos desvios biográficos – como a fuga da casa dos pais, empreendida ainda no final da adolescência – e de tratá-la de modo frio, sem qualquer concessão às suas necessidades e vontades (além de demonstrar, numa questão específica da história que a narradora vai nos contando, um quê de perversão). Carla, pelo que passamos a saber logo nas primeiras páginas, está numa circunstância de vida infeliz, daí que, enquanto leitores, esperemos por algum acontecimento que a evada disso.

E a oportunidade surge. Sylvia, sua vizinha, tocada pelo sofrimento longo e abafado da jovem, oferece-lhe todos os meios de fuga: passagem de ônibus para outra cidade, um apartamento familiar para ficar o tempo que precisasse, dinheiro para os primeiros dias na nova situação de vida. Em poucas horas o plano é concebido e Carla embarcada para a nova vida, sem que o marido desconfie de nada. No entanto, a meio do caminho, após algumas imagens passarem pela própria mente, e uma angústia tomar o seu peito, a fugitiva abandona o projeto, desce do ônibus e telefona para Clark buscá-la naquela estação, suportando todas as consequências advindas desta sua entrega ao julgamento do homem com quem tinha que dormir.

Há muito mais na história de Munro; recomendo vivamente que leiam todo o conto. Entretanto, o que importa para esta breve reflexão já está dado no pequeno resumo que fiz: a protagonista não é alguém em situação de fuga – diferente, portanto, daquele filme em que Harrison Ford corre da polícia até que prove sua inocência sobre o assassinato da esposa. Não, Carla não está fugitiva; é. O conto dá uma forte imagem daquilo que é um tipo de instalação existencial, ou modo de vida: os fugitivos da verdade. Não são eles temporários no seu plano de escape, mas contínuos na maneira com que seguem à risca a pretensão de não ver.

Há inúmeras razões para isto, e cada pessoa tem lá os seus motivos para manter-se afastada o quanto pode das pequenas e grandes revelações que dariam à própria vida maior veracidade. Porém, num geral, é possível afirmar que há mesmo um medo da verdade em cada um, um temor febril da descoberta que implicaria desistir de um caminho falso, ou de insistir num determinado emprego, ou de se iludir sobre a relação amorosa, ou de adiar a decisão inadiável. Porque a verdade, é preciso dizer, sempre implica; tem esse componente prático, impossível de não demover o sujeito de um estado anterior (a não ser que uma nova mentira seja sobreposta à verdade conhecida, perpetrando o esquecimento com que muitos seguem suas vidas infelizes).

A verdade compromete o íntimo da consciência de cada um, e justamente por isto é afastada pelos que temem reconhecer seus fracassos pessoais, seus anos fingidos, sua energia gasta em “vocações” de base lamacenta. Um denominador quase comum no homem moderno é este: não suporta ser subtraído de seus delírios, de seu mundo paralelo e imaginado desde o qual ele vive e escolhe, quase sempre à revelia da realidade. Como escrevi em Por que não somos felizes?, o homem de agora talvez seja o primeiro a odiar a consciência. Quer dizer: o primeiro a não querer ouvir a informação íntima da vida, aquela capaz de o comprometer com a realidade, alterar o destino para outro sentido, fazer confessar as ilusões perdidas.

A verdade é um grande chá de boldo: amarga porque contrária ao que nos agrada muitas vezes, mas capaz de “resolver” a falsificação em que nos mantemos doentes. Também o homem moderno é aquele que prefere o doce, que não resiste à dor, que inventa novos subterfúgios e comodidades para não sentir o mal-estar do viver. Antes um comprimido para o estômago do que uma grande xícara de chá de boldo.

A personagem de Alice Munro é um modelo perfeito deste tipo de fugitivo que existe aos montes. Sabendo haver logo ali, naquela porta entreaberta a que se pode ver a uma distância segura, uma revelação ou descoberta sobre si mesmo e o próprio mundo pessoal, prefere não passá-la. Convive com o estado de íntima dúvida, abafado pelos mais requintados modos de distração. Tudo para não ver, não ouvir, não perceber aquilo que o tiraria da condição de escravo – numa referência ao “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.

Mas, cá entre nós: quem aqui está mesmo disposto a ser livre?

 

 

 

 

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