“Pedi e recebereis; procurai e encontrareis;
batei e vos será aberto.
Pois quem pede, recebe; quem procura, encontra;
e, para quem bate, se abrirá” (Lc 11, 9-10).

Assim como a inteligência humana tem uma raiz moral – os homens de bom coração são os que melhor compreendem a vida – a Realidade também é boa. Não poderia ser diferente: o mundo criado é bom em si mesmo e sabemos que o mal, a crueldade, ou coisa que o valha, são possibilidades nele encontradas e ressumam a liberdade humana (o pecado original ou o mito de Prometeu são símbolos-origem do que estou dizendo). O fato é que podemos escolher ou querer o mal, a infelicidade, o fracasso biográfico, mas não são estes os impulsos naturais da vida.

A inclinação para o perfeito, como diria Aristóteles, é um elemento estrutural no homem: nossa constituição assim o diz e nos impele para o bom, belo e verdadeiro. Viver é arte poética (como dizia Ortega) e sua melodia mais admirável é resultado de um encontro de vontades radicais: a de cada um com aquilo que a vida oferece em sua bondade (que para mim, como cristão, está personificada).

Esta benevolência da vida – esta clara intenção em querer o meu bem e felicidade – pode ser atestada no seu respeito absoluto à minha liberdade: dá-me aquilo que peço. No coração do mundo encontramos um pai generoso que entrega ao filho os bens que este pede. Pedi e recebereis, batei e vos será aberto é sua resposta a toda petição recebida.

A conclusão parcial que interessa neste texto é esta: a vida nos leva para onde queremos ir. Ela dá dinheiro a quem só nisto pensa; dá amor a quem nele viva sua trajetória principal; premia com poder aos que esmeram-se em tê-lo; configura a solidão dos que temem a convivência. A vida é perfeita atendente e suma obediente da liberdade individual.

Mas, pensa o leitor, não é isto que sinto. Não era este o lugar em que queria estar ou esta a trajetória que queria viver. Se olhar com cuidado e não hesitar na sinceridade, verá que era exatamente isso que queria, desejava ou escolhia ao longo de sua vida. Há este “pequeno” problema de muitas de nossas intenções e projetos serem inconfessáveis, carecerem de expressão consciente e, por isso mesmo, o sentimento de inadequação que pode assaltar a muitos. São as escolhas feitas ao longo da vida, nas pequenas e grandes situações, que trouxeram o leitor até o lugar exato em que está.

Francamente, é impossível ser diferente; pois o que buscamos, encontramos. O que pedimos, recebemos. A porta pela qual entramos é onde instalamos nossa morada.

Olhar para o presente é constatar que chegamos, enfim, onde no fundo quisemos e nos esforçamos para chegar – mesmo que inconscientemente (ou com toda a ignorância possível).

Escrevo isto – meu primeiro blog desde o outro lado do Atlântico- porque mais uma vez constatei a verdade do que anunciei nas linhas acima: a vida tem esta insistente forma de me respeitar e atender ao que desejo com toda força. São antigos os planos e projetos de viver noutro país. Pois, cá estou.

Provo mais uma vez minha liberdade, meu poder, e minha condição humana responsável por cada ato, cada intenção, cada caminho tomado.

Viver é arte poética e o homem é o romancista de si mesmo. De facto.

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