Um fenômeno interessante tem se arvorado: os filmes e desenhos animados classificados como infantis estão seduzindo mesmo os adultos, que vêm lotando salas de cinema e consumindo em outras circunstâncias os produtos dirigidos supostamente às crianças. Também é de se notar a crescente qualidade técnica que estes mesmos produtos demonstram, oferecendo ao espectador – seja ele de que idade for – universos de cores e encantamentos bastante impressionantes.

A questão suscitada a partir desta observação sociológica, por assim dizer, tem dois aspectos. O primeiro, refere-se à óbvia infantilização dos homens e mulheres, cada vez mais sedentos de “ilusão” divertida que os desinstale da vida, geralmente pequena quanto aos critérios da emoção – a ponto de derramarem lágrimas quando Nemo encontra seu pai, ou rir como se não houvesse amanhã quando Shrek faz alguma sandice. A situação é mesmo patética, e a recusa de percebê-la é sintomática da falta de decoro – emocional, sentimental, perspectivo, argumental e biográfico – que se apresenta entre nós, os presumidos crescidos.

Pois de fato esse primeiro aspecto do problema levanta outro: o quanto é impensável, para muitos dos pais, tios, avós, senhoras e senhores frequentadores de cinema ou espectadores de desenhos animados matinais, haver mesmo uma resposta adequada ou uma sensibilidade correspondente à vida interior e à instalação da idade , e que lhes fizesse reagir de outra maneira, menos infantil, aos bens consumíveis aqui tratados. Se como pais ou responsáveis acabamos acompanhando nossos filhos e protegidos à estréia do filme A ou B, de classificação etária 10 ou 12 anos, é como pais e responsáveis que deveríamos nos comportar – o que está longe de significar semblante sisudo ou enfadonho durante aqueles minutos. O que ressalto, aqui, é que homens e mulheres de trinta, quarenta, cinquenta anos, têm cultivado vidas interiores juvenis que lhes mantém suscetíveis psicológica e sentimentalmente aos apelos coloridos e musicais das produtoras de TV e cinema.

Seria preciso – quem sabe num texto futuro – refletir sobre esse descompasso aparente entre a idade que temos biologicamente  (e já não digo corporalmente porque o corpo também foi infantilizado, e as roupas são apenas uma prova disso) e a que testemunhamos com nossos atos e expressões de vida mais ou menos ordenada interiormente. O fato é que, ainda que algum leitor possa estar torcendo o nariz para esta breve análise, se fôssemos melhor educados, expostos a melhores obras da cultura, atentos a sinais mais patentes e duradouros da arte e do engenho humano, dificilmente – para não dizer impossível – nos emocionaríamos, interessaríamos ou recomendaríamos os desenhos animados e filmes atuais que, convenhamos, são um tipo de perversão do universo infantil em prol da sedução dos corações adultescentes.

E assim chegamos ao segundo aspecto da questão anunciada parágrafos acima. Esses produtos cinematográficos ou televisivos não são dirigidos às crianças. Ao que tudo indica, ninguém – salvo raras exceções – está mesmo a pensar nelas. As histórias hoje apresentadas aos meninos como se fossem apropriadas para eles, têm dramas e complexidades próprias apenas da vida adulta. Namoro, traição, problemas financeiros, angústias profissionais ou vocacionais, tentações: toda a parte cinzenta e prosaica da vida é-lhes oferecida aos seis, sete, oito anos de idade. E, como num passe de mágica (sic), nossas crianças estão menos ilusionadas, como diria Julián Marias; menos esperançosas na vida, sentindo o hiato da existência que separa-nos da plenitude e deveria ser observado apenas anos mais tarde.

Nossas crianças estão ficando velhas, e isto não é coisa recente. No Brasil, desde os tempos coloniais, como bem demonstrado por Gilberto Freyre em Casa-grande e Senzala, a infância era precocemente interrompida por marcos de transição biográfica artificialmente impostos. No caso dos meninos, a iniciação sexual aos doze ou treze anos. Às meninas, os arranjos de casamento que lhes rendia um senhor 30 a 40 anos mais velho, a partir de então responsável por sorver suas adolescências e juventudes. Freyre chega a mencionar o motivo de piada que muitos rapazes se tornavam por não revelar o sinal da sífilis (registro de atividade sexual iniciada anos antes e em profusão, como se desejava).

As propagandas atuais – a mídia em geral – esforça-se por criar mecanismos de “expulsão da infância”, com apelos típicos da vida madura, travestidos de interesse e preocupação com os anseios infantis. Também as roupas, as músicas, as programações televisivas, parecem trabalhar incansavelmente na queda dos miúdos; na implantação das sombras, do desespero, da incompletude, da disputa e do fracasso nas almas antes ingênuas desses componentes do mundo. Em condições normais de temperatura e pressão, a perda do paraíso existencial ocorreria somente na adolescência, culminando mesmo na vida adulta e madura (quando o mundo oculta o mistério e grita seus medos racionais).

Os filmes classificados como infantis têm apelado a todas as implicações presentes na vida dos homens e mulheres e, desta maneira, criam uma zona paradoxal que “prende” as diferentes gerações: os mais velhos, por fraqueza psicológica e desejo pueril de Alice que não quer sair do país das maravilhas; as crianças, por sedução narrativa, que aproveitando-se do formato dito infantil desses produtos, arrancam meninos e meninas de seus cenários de fábulas e instalações paradisíacas (onde tudo é abundante e puro), lançando-os no entediante e cinzento tabuleiro da sobrevivência social (onde muito é prosaico e frustrante).

Como sabemos, a sobrevivência às fases amargas e aos elementos contingentes da vida adulta se dá, especialmente, por um tipo de força misteriosa acessada e cultivada ainda na infância. Se nela apresentam-se-nos os deuses e heróis, bandidos e maus, nela nasce também o gerador de respostas às mais diferentes e complexas situações da maturidade. Para mim, é cada dia mais patente o fato de que meus contos de fada, tal como consegui preservá-los com bastante dificuldade, são as janelas pelas quais a existência suspira, abranda-se e se retroalimenta das imagens que sustentam-me como homem e também menino.

A péssima vivência desse processo venturoso que transporta naturalmente cada um de nós do paraíso terreal para a agitação do mundo, talvez esteja na base de uma das maiores confusões do nosso tempo, percebida, mesmo na fila do cinema, nesses adultos de plástico e nessas crianças sem paz que dividem o saco de pipocas.

 

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