Se quiséssemos compreender algumas das mudanças sofridas pela humanidade, em especial as dos últimos cem anos, uma história do amor talvez viesse a calhar. A maneira como amamos, como pensamos o amor e como tropeçamos ou não em seus caminhos, diz muito sobre quem somos e, ao longo do tempo, homens e mulheres foram amantes de diferentes matizes.

Um recuo à Idade Média, por exemplo, e à sua perspectiva do amor cortês, revele ao observador atento muito mais do que versos de cantigas. Cortejar, como se fazia naqueles séculos, era pôr acima a amada, adulando-a. Os cavaleiros, principalmente depois dos romances de cavalaria, tomaram a ideia para si e sublimaram as realidades envolvidas: a rapariga tornou-se sinônimo de um valor que justificava todo o seu nobre e combatente sacrifício. Nos séculos XVIII e XIX, já um tanto distantes da cosmovisão medieval, o amor cortês foi inflado de sentimentos, não sendo mais a pessoa amada um símbolo de algo maior que unia aos dois amantes, mas sim ela mesma, sentada em frente ao piano ou em cima de um cavalo, um ideal digno do romantismo.

Este romantismo teve também seus reveses: chegou ao século XX e liquefez-se em rimas pobres de amor, comédias românticas hollywoodianas, refrões pegajosos para multidões “apaixonadas”. E não fica por aí. O nosso tempo assiste a uma nova perspectiva do amor, que consegue misturar algo do romantismo sentimental com a polícia do pensamento, rendendo aos contemporâneos esses modelos amorosos antissépticos e egoístas, tão bem traduzidos nas mídias e legendados com vulgaridades do tipo “o importante é eu gostar de mim”. Ninguém mais se suja, ninguém mais sofre como um humilhado: os atuais veem o amor como uma lei (dentre muitas) do seu rígido código moral autorreferente.

O poliamor, por exemplo, é um expediente juvenil que revela toda a fragilidade dessa nova perspectiva em causa, já que dá aos seus “adeptos” a chance de nunca vir à lona – sempre é possível acabar por cima.

Mas, diferente do que acreditam os nascidos da “pós-verdade”, amar é foda. Revela-se exigente e em dois elementos complementares: a admissão da necessidade e o consolo da presença.

Todo aquele que ama – verdadeiramente – confessa-se insuficiente. Não só: embute no mesmo ato a necessidade que tem daquela pessoa específica, nenhuma outra. Há um “nome próprio” que faz o amante rasgar as vestes, derrotado sincero, consciente da fome pessoal que sente e desde a qual já não pode ser o mesmo. Assim, o amor não é propriamente um conteúdo psicológico, mas uma alteração da pessoalidade constatada pelo eu que já é incapaz de projetar-se sem o amado. E é o amor, por sua graça, que dá ao maltrapilho enamorado o consolo: o outro, de endereço certo, que pela presença em carne, cheiro, suor e intimidade, é capaz de levantá-lo do chão.

Nunca conheci um amante que sorrisse na ausência do amado, ou que superasse sem dificuldades o impedimento da trajetória amorosa. O negócio de amar é sempre e irremediavelmente um prejuízo do ego, que toda manhã renova o acordo que lhe faz sofrer.

Não há a menor possibilidade de ficar bonito nisso.

 

 

 

 

 

 

 

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