Tente explicar isto a um racionalista: a distância entre eu e tu é infindável, e a intimidade um gozo momentâneo que só o limite do encontro pode proporcionar. Não há equação simples – daí que os calculistas se ressintam da condição humana. Duas pessoas que se amam interpõem-se reciprocamente, instalando-se na fronteira que protege um e outro da solidão expansiva (daquela dor que todos já sentimos e que parece não ter fim).

É comum a noção de intimidade como meio de abertura e extravasamento da própria finitude. Aquele que vem, infunde mais vida em mim, arrancando-me do isolamento estéril. Entretanto, não é esta a minha perspectiva agora, aqui, neste texto. Escrevo sobre o amor como ato de contração do ser: a misteriosa experiência que culmina na diminuição do espaço pessoal, não como efeito indesejado e castrador, mas como seu contrário. Na verdadeira expiação amorosa, alegram-se os dois por haverem sido tocados nos seus limites; por haverem reconhecido, pela ação do amante, um ponto existencial que os permite dizer algo como “aqui me termino”.

Há uma frase conhecida de Miguel de Unamuno: “um coração solitário não é um coração”. Interpreto-a também desta forma: não pode sê-lo pela simples razão de não ver-se terminado. O coração se expande – e por isto não se vê completado – até que encontre outro coração que defina seus contornos. Só então, em face do outro que passa a amar, ele é; só por este acontecimento inexprimível ele descansa, sabe por que bate.

Não se trata de romantismos – não há suspiros de Bianca, nem melodias de violino para quem ama -: toda dor e toda glória coexistem nessa zona tensional em que um e outro se tocam como amantes. E para colaborar com os homens de razão, carentes de uma imaginação viva, uma analogia: o amado é aquele que entra em casa, a seu convite, e fecha a porta atrás de si. Tudo que houver ali dentro, no ambiente onde os dois coabitam, será visto e enfrentado. A saída é fechada porque só assim se erige o limite, e só desta maneira se separam do que está lá fora e não mais importa. Todos os que já foram ou são casados conseguem preencher de vida esta imagem.

Daí que numa casa costume-se fazer do cômodo mais afastado o quarto, às vezes distanciado por um longo corredor que leva até seu umbral. Ali, justo onde repousa a cama que serve de continente aos conteúdos da intimidade, não entram estranhos. Precisamente ali, para manter nossa analogia, os dois reconhecem o lugar e o contorno de seus respectivos corpos. O homem penetra e encosta numa delicada parede da mulher: enquanto ele percebe a finitude de seu movimento, ela sente sua real extremidade.

Deixe alguém sozinho numa ilha, por muito tempo, e prepare-se para depois encontrar uma pessoa em devaneios, um possível lunático – no mínimo, um sujeito falando com pedaços de paus e árvores. As velhas afirmações filosóficas nesta direção são válidas: “só existe eu diante do tu”, diria Buber, Ortega etc. Mas não é apenas dessa necessidade de convivência humana que falo, algo facilmente admitido. O que de fato contorço-me para exprimir – no limite consciente da linguagem de que faço uso – está confiada mais propriamente aos que amam (ou já amaram sincera e profundamente). A intimidade é um espaço para dois e, parafraseando outro filósofo, Louis Lavelle, todo esse seu doloroso limite é graça, já que obriga a ser.

 

 

 

 

 

 

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