“Vivíamos numa época de catástrofes, todas as pessoas eram portadores de catástrofes, e, por isso, era preciso termos uma arte especial para viver e conseguir subsistir, disse. O homem de catástrofes não tem destino, não tem sinais particulares, não tem caráter. O seu terrível contexto social – o Estado, a ditadura, ou chames-lhe tu o que quiseres – atraía-o com a força vertiginosa dos redemoinhos enquanto não desistir de opor resistência e, nele, não rebentar o caos, como um gêiser de água a ferver – e, a partir daí, o caos transformava-se no seu lar. Para ele, não havia retorno a qualquer centro do Eu, a uma firme e irrefutável certeza de qualquer eu: perdera-se, portanto, no sentido literal da palavra. Este ser sem Eu era a catástrofe, o verdadeiro Mal”.

Vamos direto ao assunto: o livro do escritor húngaro Imre Kertész (falecido recentemente) se chama Aniquilação e é esta catástrofe específica que ele aborda – a perda do eu. O trecho acima dá mostra da gravidade do romance que li e da luz que o vencedor do Nobel de Literatura (2002) soube lançar sobre tamanha tragédia humana.

download

Aliás, tragédia está na origem da trajetória de Kertész. Como judeu, foi preso e sobreviveu aos campos de concentração. Tinha apenas quinze anos e esta experiência radical certamente serviu para a composição de sua obra mais aclamada, Sem Destino (1975), na qual, em condições análogas às de seu autor, se narra a luta de um adolescente pela sobrevivência em Auschwitz-Birkenau, Buchenwald e Zeitz.

Em Aniquilação, os campos de concentração aparecem como coadjuvantes e atuam simbolicamente: um dos personagens se chama B., nasceu num destes lugares horrendos durante a Guerra, e não tem a menor ideia de quem seja seu pai ou  mãe. Ele resiste, livra-se daquela prisão e se torna escritor. Sem conseguir encontrar uma saída interior e existencial para seu dilema natal, suicida-se. É então que o personagem principal do livro, um editor chamado Keserü, assume o paradoxal lugar de cada um de nós, homens modernos: é ele quem vai ao apartamento do amigo B., o encontra morto e, antes de chamar a polícia, reúne todos os manuscritos que pode para depois possivelmente publicá-los.

kinder_01

Keserü começa uma pequena aventura em busca do romance não escrito: teria seu escritor predileto deixado algo genial para edição póstuma? Se não entre os manuscritos em sua casa, com alguma amante ou amigo? As páginas de Aniquilação pouco a pouco desfazem nossas esperanças: não haverá história nova a ser publicada. A editora está falida, Keserü sem sentido na vida, a Hungria em crise.

“A sua história chegava ao fim, mas ele próprio ainda ali estava, e isso era um problema cuja solução Keseru adiava sucessivamente”. É assim que o narrador consegue, numa única frase, passar o “estado de espírito” do protagonista: ele, que já estava biograficamente morto, tencionava continuar uma história que não era sua. Em parte, também é disso que trata o livro de Kertész: da necessidade de viver e contar a própria história, de dar sentido a ela, como faz um escritor quando cria um romance. O personagem central confessa, a certa altura: “ali, naquele gabinete, onde eu sentia concentrada toda a indiferença do mundo, ali, percebi que todas as histórias tinham um fim, que a história de cada um de nós é indizível, e que ele, B., era o único que tirara as consequências disso, à sua maneira, pois, como sempre, radical”.

B. não nos é apresentado por inteiro. Conhecemos, como leitores, apenas esta letra inicial. Isto parece indicar uma intenção de seu autor: talvez consiga, assim, evitar a pessoalização do personagem. De alguma maneira, qualquer um de nós pode ser B., aquele que tem nas mãos apenas uns pedaços da autobiografia (excluindo, inclusive, seu início) e necessita narrá-la de forma autêntica. E não conseguir isso é exatamente o que nos angustia (no caso de B., a ponto do suicídio). Do outro lado, também nos identificamos com o editor que tem uma história paralisada nas mãos e sente a mesma necessidade de continuá-la. Quer dizer: ou sofremos por não reconhecer um sentido, ou por não sabermos seguir com o que já temos como passado sabido. Ou ambos.

“De repente, tomei consciência do absurdo da nossa situação, de que a nossa história, como todas as histórias, resistia às interpretações e era irrecuperável, que tinha passado, voado, submergido, e que nós nunca mais tivemos nada com ela, como quase nada tínhamos com a nossa própria vida. E ocorreu-me que este processo, a continuidade sem falha da nossa vida, só podia ser restituído pela escrita, e que, na realidade, estávamos ali por isso, para encontrar o perdido romance de B”

No decurso da minha vida, eu já estava morto“, conclui o protagonista ainda na primeira metade do livro. Keserü dá voz aos pensamentos de milhões de nós, pobres fantasmas que vagueiam pelo mundo sem nele instalar-se verdadeiramente. Quantos já não sentem-se vivos? Quantos de nós já não foram aniquilados, tornando a comum distância entre a alma e o eu um hiato quase intransponível, um abismo que nos atrai como o canto das sereias na Odisséia? 

É de assassínio que fala Imre Kertész. Parecem haver realidades, forças, atitudes capazes de aniquilar o eu neste mundo catastrófico em que estamos. Nossa circunstância moderna não tem precedentes, e o Holocausto é uma das maiores sinalizações disto.

“Se as pessoas os tivessem compreendido (Leonardo e Michelangelo), há muito que já os tinham destruído. Era uma sorte as pessoas terem perdido a sensibilidade para a grandeza, mostrando-se apenas sensíveis ao assassínio; no entanto, era indiscutível que tinham sofisticado a sensibilidade em relação ao assassínio, transformado em arte ou quase arte, disse. Em última instância, disse, se examinássemos mais profundamente as artes contemporâneas, então, só encontrávamos um único ramo que, de fato, se transformou em arte incomparável, e essa era a arte do assassínio”. São palavras da boca do escritor, B. É o artista inconformado com a degradação da espécie que nos alerta do assassínio, único vulto percebido pelos insensíveis. Eu e você – corremos o risco! -, atentos aos gritos do Mal, da feiura, da mediocridade, da generalização e homogeneidade: é nisto que possivelmente nos transformamos, e nisto não cabe um eu.

Qual a saída? Venho buscando responder esta questão há algum tempo. Meus interesses mortais estão de alguma forma ligados à despersonalização, como diagnosticada por Julián Marias. A solução não encontrada por B., nem por Keserü, ainda assim é indicada no romance de Kertész: “foi insuficiente a minha imaginação, foram insuficientes os meus meios, e não me satisfaz que outros também não encontrem os seus meios … Mas eu, ao menos, sei que o nosso único meio é, simultaneamente, a nossa única propriedade: a nossa vida”.  

A razão é, nas palavras de Ortega, razão vital. E o método da razão vital é a razão histórica. Cada um compor a própria obra a fim de salvar-se da morte: é só isso que importa.

Estar vivo até a hora da morte.

kertesz-470x260

 

Deixar um comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar os seguintes marcadores e atributos HTML:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>