Não tenho muito para dizer neste primeiro texto do ano. Pode ter havido um reveillon dias atrás, mas aos olhos imediatos tudo permanece igual. Nas redes sociais, no trânsito, nos programas de televisão, nas conversações das praças e supermercados, vê-se mais do mesmo: vaidade, mentira, inveja, estupidez.

Aliás, estúpido é quem está paralisado porque foi “tomado” por algo que não compreende e que impede sua ação. Em outras palavras, é um estado vital caracterizado pelo seguinte paradoxo: o sujeito pensa estar agindo, mas nada está fazendo. A impotência aumenta exponencialmente ao longo do tempo – o que faz com que a histeria, exibição e tom de fala superior recrudesça. A estupidez, assim, é a marca dos falantes de fundo inativo: a perplexidade do estado é captada no semblante imbecil, boca entreaberta e o olhar idiota.

E os estúpidos se atraem, pois reconhecem seus semelhantes. Daí as hordas que crescem como os pêlos de um adolescente – e têm, aliás, o mesmo odor fétido. É preciso que confirmem uns aos outros, que atuem coletivamente e nunca – em hipótese alguma – tenham a chance de ouvir sinceramente suas misérias ( por isso o grupo cumpre o papel do terapeuta).

Não adiante avisar, tentar demover, falar sem mistério: o estúpido continuará destilando o ódio dos impotentes e por isso mesmo qualquer indivíduo ativo (verdadeiramente) será sinal de ameaça ao sorriso bocó que sustenta como meio de escape à confissão de ridículo. A estupidez, pela paralisia que a caracteriza, é um tipo de aprisionamento.

Mais do mesmo. Aceitem. O mundo e os estúpidos continuam assim, e em 2016 não será diferente. Mas sabemos que a realidade não é apenas isso: ela é vivaz, intensa, criadora. Como diz o apóstolo, é fogo que arde sem se ver: consome, desfaz, renova, dispõe algo novo no lugar. E se no mundo espiritual esta é a regra, no nosso calendário ele é exceção. Por isso é preciso abrir-se e, como se ensina no Pequeno Príncipever com o coração o que é invisível aos olhos.

Não é estranho, portanto, que o inferno de Dante seja, em último caso, gelado. Assim tudo pode permanecer como está – eternamente. O inferno existencial é justamente isto: mesmice, repetição, uníssono entediante.

Como eu aprendi com Nassim Taleb, não basta resistir. Aqueles que sentem estar um pouquinho mais “vivos” do que a maioria não devem ter pudor: chutem as portas do inferno e dos infernais e empreguem o lança-chamas.

Não é à toa que admiro tanto os pensadores espanhóis: “sangue frio” não é um adjetivo que lhes caiba.

***

4 “À parte era chegado, onde imergida

Cada alma em gelo está (tremo escrevendo),

Bem como aresta no cristal contida.

Erguidas umas estão, outras jazendo,

Qual sobre a fronte ou sobre os pés firmada,

Qual com seus pés e rosto arco fazendo.

Quando distância tal foi superada, 

Que aprouve ao Mestre me tornar patente

A criatura bela ao ser formada,

Se afastando de mim, disse: ‘Detém-te’!

Eis Satanás! Eis o lugar horrendo

Em que deves te armar de esforço ingente!

Quando assombrei-me aquele aspecto vendo

Não inquiras, leitor: não te expressara

Com verbo humano o que encarei tremendo.

Não morto, porém, vivo não ficara.

Qual me achava te pinte a fantasia,

Se morte ou vida em mim se não depara!

11 Do aflito reino o imperador eu via:

Do gelo acima o seio levantava.”

Trecho do Canto XXXIV da Divina Comédia – Inferno, de Dante Alighieri

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