Miguel de Unamuno perguntou: a Verdade é para ser compreendida ou vivida?

Anos depois, José Ortega y Gasset respondeu: para ser compreendida com a vida.

E assim nascia a razão vital, conceito fundamental da filosofia orteguiana e que significa uma superação do dualismo realismo/idealismo. Ao invés de recorrer a um dos dois sistemas existentes para explicar a atividade cognoscente – seus limites, características e possibilidades – o autor das Meditações do Quixote criou um novo sistema filosófico; nele, todo abstracionismo dava lugar ao sentimento vital. Experiente era quem “pensava com os pés” e mundo era tudo aquilo que fazia parte da minha vida.

Qualquer que fosse a realidade pretendida, o homem deveria apropriar-se dela da única maneira possível: com sua vida, aquela irredutível e que compõe um mundo único. A razão, a partir de então, tornava-se uma função da vida.

Ortega y Gasset deu expressão filosófica ao que, de alguma forma, sempre soubemos (ainda que outros filósofos nunca o tivessem dito): é impossível uma razão desprovida de interesse pessoal, de preferências e desejos, projeções e escolhas. É impossível uma razão sem trajetória, pelo simples fato de que a razão não flutua por aí, independente de uma realidade individual que a encarne e legitime. Por isto ela assume caráter pessoal, singular e histórico.

Nesta página – recorte generoso da minha atividade como professor – proponho uma compreensão da realidade humana sem os vícios do abstracionismo, das ilusões modernas ou do diletantismo preponderante nas conversações. Seja num vídeo, texto ou curso, você será levado – é a minha intenção – a pensar a vida humana com a sua própria vida (e não apenas com seu cérebro). Será convidado a confessar seus interesses mortais e a responder à vida, plena de sentido e gravidade para quem quer que busque a maturidade.

E como tudo na vida humana, esta página, meu trabalho e tudo o que vier a encontrar por aqui, tem uma história. Impossibilitado de narrá-la por inteiro, limito-me a registrar seu início. Foi em dezembro de 2008, em Foz do Iguaçu. Nos últimos dias do ano, durante umas férias em família, abri pela primeira vez um livro de Julián Marias (Mapa do Mundo Pessoal). Comecei a enxergar a realidade humana de uma nova forma e reconheci, no instante em que terminei a leitura, que eu não seria o mesmo a partir de então.

Li tudo que pude – e ainda leio – do mestre espanhol. Por isso busquei seus antecessores – a Geração de 98, Ortega y Gasset – e dei um curso (parcial) sobre a história da Espanha. Tudo isto era preciso para compreender sua trajetória, seu drama, interesses e inclinações; com quem dialogava, a quem escrevia e por que o fazia.

Minha perspectiva, portanto – a da minha vida, meu trabalho – é similar à dele (similar, nunca igual; pois eu sou um mundo e ele outro). Mas os interesses convergentes nos colocaram num mesmo vasto mundo que chamamos vida humana. Sinto ter a mesma necessidade de compreensão de tudo que toca nossa realidade (dramatismo, felicidade, amor, argumento biográfico etc). E se isto estava inscrito em mim como uma vocação desde o início dos tempos, foi preciso conhecê-lo para dar uma forma existencial ao que eu sabia ser meu destino.

Esta página é fruto deste feliz encontro – e de tantos outros encontros vividos em meu mundo.

Deixar um comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar os seguintes marcadores e atributos HTML:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>