Georges Simenon confessava que, terminado um novo livro, procedia à revisão a fim de excluir todas as “frases bonitas” que houvessem ficado pelo texto por descuido seu. O escritor belga fazia coro a um tipo de minimalismo formal perseguido por tantos outros autores – como Hemingway ou Bukowski -, que tem como característica justamente a “ausência de adornos”, quer dizer, escrever apenas o estritamente necessário para que a história seja contada. Os acréscimos para efeito de gozo estético ou impressão positiva do leitor não eram, deste modo, bem vistos pelo criador do personagem Maigret, nem pelas outras vozes a que se juntava na realização de uma literatura clara e sem floreios.

É absolutamente compreensível sua perspectiva: o que importa, já diria C. S. Lewis, é a história. Sabemos distinguir, aliás, quando o autor sobrepõe-se a ela e, no ímpeto de originalidade ou na tentativa de dar causa a suspiros de admiração pela frase (ao invés de pelo conteúdo da narrativa), acaba falhando no seu intento criador, legando uma obra esteticista em que a moral da história importa menos. Entretanto, também é possível ver as coisas de outra maneira e justificar aqueles que procederam diferente dos minimalistas, dando grande importância aos pormenores das palavras, seus efeitos, seu eco no coração do leitor que não é afetado apenas pelo conteúdo da vida, mas também pela sua forma.

Quem tenha lido algum livro de Marguerite Yourcenar, de Vergílio Ferreira ou de Virginia Woolf percebe a diferença, quando comparados aos escritores mencionados no primeiro parágrafo deste texto: suas páginas, para usar uma analogia, são sons que se propagam com maior extensão, longe, como a corda do violão que se estica para manter o acorde. Esses autores não se contentam em contar a história: preenchem-na, sim, de “frases bonitas”, não por virtuosismo, pura e simplesmente, mas por uma delicadeza que se lhes impõe no ato de narrar e sempre conferir de maior beleza aquilo que contam. Não pecam, ainda, pelo exagero, sacrificando o “que” pelo “como”, pois os grandes sabem como fazê-lo sem perder o fio da meada da história que se propõem imortalizar: talvez por isto mesmo guardam, para todo o sempre no fundo da intangível memória coletiva de todos os leitores de todas as gerações, coisas tão “sem beleza” quanto os malabarismos mentais melancólicos de uma Mrs Dalloway.

É impressionante o que Vergílio Ferreira, por exemplo, faz em seu romance de maior fôlego, Aparição. É daquelas histórias sem grandes trunfos, reviravoltas, marcos inesquecíveis; é bastante simples, por si mesma, e bastante universal. Mas há em muitas de suas páginas um convite para a experiência estética que caminha junto com o enriquecimento da imaginação moral, que não se satisfaz em dizer, mas em dizer com reverência à beleza, dando-lhe todas as possibilidades de expressão.

Por certo, falamos aqui de zonas limítrofes, difíceis, tentadoras tanto lá quanto cá. Há genialidade tanto no que faz um Hemingway quanto no que faz um Thoman Mann (que em Morte em Veneza realiza uma obra de perfeição no que diz respeito a história e reverberação estética). E toda essa exposição de aparente erudição de minha parte não tem outro motivo senão este: destacar que há um mundo de escritores que, compreendendo uma necessidade de todos os homens, cumularam de beleza a experiência da vida.

Se por um lado todos temos vidas prosaicas, comuns, até mesmo vulgares, por outro não nos alegramos com isso: queremos mais, queremos que nossas biografias tenham a beleza do sentido e sejam salvas do esquecimento. Se pudéssemos, contaríamos nossas histórias pessoais como aquele protagonista do filme As aventuras de Pi, em que os fatos importam na medida em que se tornam matéria de uma narrativa que, no fundo, compomos, criamos, enriquecemos de som, cor e originalidade. Enquanto na trivialidade de certos acontecimentos todos habitamos um mesmo mundo de homogênea condição humana, no requinte da autopoiese, da apreciação dos próprios atos como peças de uma grande cena, alcançamos a força dramática da irrepetibilidade – único lugar onde ninguém fala ou ouve por nós e que consola justamente pela ausência de limites narrativos. As reticências ajudam, é o que estou tentando dizer.

Os minimalistas, como os chamei, também colaboram para esta nossa harmonia criativa: ninguém está negando a beleza de seus livros e a capacidade de suas histórias nos inspirarem de diferentes formas. O que me salta aos olhos, na verdade, é o quanto os outros tipos de escritores sentem, no exercício de sua atividade, aquela mesma necessidade humana de acrescentar, com alguma bondade e compaixão pela vida, camadas de beleza aos brutos martelos do coração do mundo.

E sim, este mundo é belo ainda em seu estado bruto. Mas alegra-nos imenso quando o choro da criança se torna canto.

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