Então existe o ser e não o nada. Lá fora, aqui dentro, lados de uma mesma moeda: uma presença magna, ubíqua e permanente está em todas as coisas e além delas, e de alguma maneira sempre o soubemos. Nenhum dos homens contou verdadeiramente com a possibilidade contrária. A experiência do vazio existencial ou a incerteza sobre um logos que tudo signifique e a tudo dê coesão, não deixam de ser sofrimentos a posteriori: se deles temos padecido é porque estamos num mesmo dramático palco de luz e sombras – eu e o poeta português suicida, você e aquela antiga camponesa de tempos idos. Todos que ja perguntamos ou não pela existência e seus contornos, seus segredos ou aldrabices, existimos; mais: sentimos, mesmo quando resistentes, que não deve haver aniquilação daquilo que julgamos ser. É inconcebível para o eu, diria Julián Marías, a sua extinção pós-morte. Disso decorre o meu ponto de partida neste argumento: a pergunta pelo ser ou pelo sentido de ser é, em palavras diretas, um tipo de canalhice. Só pergunta aquele que é. Descartes estava sentado numa cadeira, provavelmente vestido e alimentado, quando duvidou de um fundamento comum e irrestrito que não fosse ele mesmo.

Entretanto, admitido que essa Presença total sustenta e anima tudo que é, efetivamente “presentificando” todas as coisas (dando a elas uma espécie de corpo segundo o que cada uma é particularmente), também é possível dizer, noutro sentido, que essas mesmas coisas inexistem para mim. Como? Explico.

Na sua autobiografia, C. S. Lewis narra o seguinte episódio da infância: tinha menos de três anos de idade e estava no quarto, na casa da família em Belfast. De repente, seu irmão Warren surge, vindo de fora, segurando uma tampa de lata de biscoitos; sobre ela, musgo, flores e alguns gravetos – tudo para ser mostrado ao pequeno Clive. O protagonista destas memórias, tantos anos depois, classificou a experiência como “incuravelmente romântica”. Só então, segundo afirma, a natureza fora conscientizada e o próprio jardim conquistado.

Existe algo no ato encadeado pelo irmão “Warnie”, como o chamava Lewis, que permite-nos pensar numa segunda navegação : um tipo de revelação que acontece quando o homem se volta para o que preexiste, e lá enxerga outra face do mundo. As flores, gravetos e musgo estiveram sempre ali, nos fundos da casa da família; todavia, de alguma forma, não faziam parte da realidade daquele menino – não existiam no seu mundo -, e as mãos do irmão mais velho serviram-lhe de lente.

Nestes termos, é perfeitamente possível sofrer pelo que não se vê; pelas sombras que nos acompanham junto ao martelo dos dias – por todo o mundo que não conhecemos e tampouco podemos presumir seu significado. Se é fato que uma Presença restaura incessantemente tudo que é, parece-me igualmente verdadeiro que Suas manifestações nos escapam até que Warren traga-as numa lata de biscoitos. Até que eu realmente visse o sofrimento daquele pobre, até que James Joyce expusesse meu fluxo de consciência, até que Roger Scruton apontasse-me o consolo da vida, até que um grande amigo chorasse a perda do pai, até que eu pisasse em Portugal, até que me sentisse miserevalmente falho porque feri quem eu amava, nada disso existia. A primeira navegação é um ruído constante; a segunda, uma imagem em cores.

Daí que o sentido da visão deva ser apurado: é uma espécie de cegueira que viceja entre nós; uma recusa ou incapacidade de voltar-se e ver. Tudo muito grave, sem dúvida. Pois o nosso mundo cresce à medida que enxergamos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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