O leitor imagine a seguinte cena: um homem é convidado por uma mulher para jantar em sua casa. Os dois se viram duas ou três vezes antes disso. Ela é casada, mas o marido está viajando no dia. Confirmando as suas suspeitas, o visitante se vê, logo após a refeição, numa situação de flerte e prevê um bom fim de noite assim que se fecham no quarto do casal.

Entretanto, ela morre. Assim, mal haviam começado a se despir. Não dera tempo de perguntar o que se passava, de saber com mais detalhes os sintomas do seu mal-estar, nem que ajuda chamar. Aquela jovem esposa, praticamente desconhecida e potencialmente amante, falecera nos seus braços, e Victor – assim se chama o nosso protagonista – vê-se num dilema que irá lhe consumir algumas horas da madrugada até que decida o que fazer a respeito.

Narrado de forma vivaz e num ritmo cruciante, assim pode ser resumido o início de Amanhã na batalha pensa em mim, romance do escritor espanhol Javier Marías. São necessárias sessenta páginas, aproximadamente, até que ele resolva sair do apartamento onde estivera pela primeira vez – e onde entrara com um propósito bem diferente do ter que assistir à morte de alguém. E ainda que ele tenha conseguido “escapar” da cena sem deixar rastros – não há culpa direta pela tragédia, pondera – o nome e a existência finda daquela estranha não sairá tão cedo dos seus pensamentos. Por todo o resto do livro, entre reflexões, investigações e reminiscências, Victor estará à volta de um mesmo nome e de uma mesma história: a da mulher que morrera em seus braços. De fato, amanhã na batalha pensa em mim, diria a falecida ao protagonista, se pudesse.

Não quero aqui fazer uma análise do romance (já o fiz no Clube do Livro do mês de outubro). A intenção é tomar emprestado o tema que parece saltar de suas linhas e fazer um breve comentário. Parto da seguinte questão: por que Victor precisa saber mais sobre aquela que o convidara para uma noite amorosa e morrera ao seu lado na cama? Qual a necessidade de, mesmo compreendidas as causas naturais que levaram ao seu óbito, explicadas dias depois pelo jornal da cidade, conhecê-la? 

De um tempo para cá, tenho cada vez mais pensado que, enquanto homens, nos apropriamos das coisas de modo histórico. Aliás, gente muito melhor do que eu já o dissera, de diferentes maneiras, nos últimos quatrocentos anos (ressalto aqui a obra de Giambattista Vico como um marco inaugural nesse sentido). O que tem me parecido mais verossímil com o passar dos anos e dos meus estudos, é que inteligimos a realidade como uma grande narrativa – o que não significa que a ignoremos como coisa, objeto, nem que ocultemos a sua substância independente dos nossos tecidos de linguagem simbólica e interpretativa. Contudo, se guardamos uma parte do mundo dentre nós e com algum sentido, é porque o tornamos história, conexa e processual, mais ou menos clara, particular ou coletiva. Sendo assim, a aproximação que fazemos dos mais diferentes campos – até mesmo da matemática, da geologia ou da química – é como contadores de histórias, prontos a tomar os conteúdos/acontecimentos nas mãos e harmonizá-los num enredo que console um pouco mais o nosso sofrimento por tão pouco saber.

Quero dizer que um mesmo grande motivo está por trás da obstinação de Victor pela história da jovem esposa que viu morrer e da dedicação do filósofo contemporâneo pela teoria de Kant: uma fome de plenitude explicativa, de um oásis de conhecimento que permita a ambos concluir: “ah, então é assim”.

Então é por isso que ela convidava homens para o seu quarto quando o marido viajava; então é por isso que os portugueses comem castanhas no dia 11 de novembro; então é por isso que o cinema argentino é tão bom; então é por isso que aquele amigo me abandonou; então é por isso que as noites de inverno me deixam tão triste.

O arco da história, dos pequenos e grandes eventos, é aquilo que desenhamos sobre as coisas a fim de possui-las; é o modo como tornamos o mundo efetivamente dizível – não apenas porque falamos ou conferimos nomes às coisas pela linguagem que desenvolvemos, mas porque cumulamos de começo, meio e fim o que aparentemente é único, contínuo ou aleatório. 

A experiência pode ser testada de maneira muito simples: tomemos nas mãos um livro pela metade ou cheguemos ao cinema já no terço final do filme. O que nos incomodará? O que estará por trás da sensação de desorientação ou incômodo que provavelmente nos acompanhará nos dois casos? Isto: a história que não se sabe, os capítulos perdidos, o sentido prejudicado pela ausência de contexto e conhecimento prévio. Mais: teremos reduzida a experiência estética e intelectual nos dois casos porque nos escapará o arco da história narrada, os motivos do herói, as razões de tantas mortes nas cenas finais, a explicação para a descrição de um sonho do protagonista no capítulo XXI.

Nossa mente, poderíamos afirmar, tem fome de narrativa. Talvez por isto, ao longo da história humana, mitos, lendas e grandes epopeias tenham desempenhado papel tão saneador e amplificador da nossa inclinação e necessidade natural. Os bons e velhos modos de contar parecem mesmo educar a capacidade de narrar e os modos abrangentes de o fazer. Atuam, os clássicos tão celebrados ao longo dos séculos, como balizas de possibilidades dessa condição humana, que permite-nos facultar ao homem a definição de animal contador de histórias. E aquilo que não contamos, por deliberação ou esquecimento, passa a não existir de alguma maneira, assim como os próprios clássicos literários mencionados já não pertencem ao imaginário de contos da maioria dos narradores atuais.

Acrescente-se que o livro de Javier Marías tem como protagonista um roteirista – não poderia ser mais exclamativa a escolha: Victor passa todo o romance buscando conhecer não só a história da mulher que visitara como amante, mas também a sua própria, a de seus companheiros e até mesmo a do rei de Espanha. Cada ponto da obra revela algo sobre alguém, desenrola os novelos imbricados que representam as histórias pessoais de cada personagem, nobre ou plebeu, pois nosso narrador se interessa, e ao mesmo tempo sofre pelas partes da história que não sabe. E ainda há engano, justaposição de hipóteses, zonas de indefinição: porque assim é a vida humana, e deste tipo nosso conhecimento do mundo.

Se tudo isso – ou pelo menos uma parte, para ser menos pretensioso – estiver certo, então se compreenderá melhor a perspectiva de Marías em Amanhã na batalha pensa em mim: é porque do mundo se faz narrativa que precisamos de narradores. É, por sinal, com estas palavras que termina o seu romance: “Quando as coisas acabam já têm o seu número e o mundo depende então dos seus narradores, mas por pouco tempo e não inteiramente, nunca saímos por completo da sombra, os outros nunca acabam e há sempre alguém para quem encerramos um mistério. O miúdo nunca saberá o que aconteceu, ocultar-lho-ão o pai e a tia e ocultar-lho-ei eu próprio e não tem importância porque acontecem tantas coisas sem que ninguém saiba nem as recorde, ou tudo se esquece e prescreve. E que pouco vai ficando de cada indivíduo no tempo inútil como a neve escorregadia, tão pouco é o que resta, e desse pouco que resta tanto se cala, e do que não se cala recorda-se depois apenas uma ínfima parte, e durante pouco tempo: enquanto viajamos rumo ao nosso lento esfumar transitando apenas pelas costas ou pelo avesso desse tempo, onde não podemos continuar a pensar nem continuar a despedir-nos: ‘Adeus risos e adeus ofensas. Não vos verei mais, nem vocês me verão. E adeus fogo, adeus recordações'”.

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