Antes que eu aborde o assunto específico que me traz aqui, é preciso recuperar outra vez a noção de condição sexuada como instalação do ser humano: só há duas formas de vida humana – a masculina e a feminina – e não existe um terceiro gênero. Vir ao mundo como homem ou como mulher faz com que a vida seja sentida, vista, tomada, desta ou daquela maneira. Sendo assim, a disjunção polar de que fala Julián Marias é a expressão de uma oposição referente a uma mesma instalação: numa ponta, a forma de vida feminina; na outra, a masculina. Como acontece com toda oposição, os elementos em questão crescem em especificidade quando confrontados. Quer dizer, diante da morte a vida salta aos olhos; torna-se mais patente, mais “viva” – e analogamente é o que acontece com mulheres e homens. Sou mais homem quando diante de uma mulher. “Um homem não é um homem até que ouça o seu nome da boca de uma mulher”, lembra-nos Antonio Machado.

A ideia brevemente exposta é o que outro filósofo espanhol, Xavier Zubiri, chamaria respectividade do real: as realidades dizem respeito umas às outras, e os opostos têm algum tipo de íntima reciprocidade, pois são aspectos de uma mesma realidade original da qual são derivados (vida e morte, preto e branco, som e silêncio, homem e mulher). Todos existem independentemente do outro. Entretanto, quando confrontados, ou, na referência à realidade oposta, são mais “reais” – pois o elemento de oposição serve para seu conhecimento pela via negativa (e não só). Pensando sobre a morte, passo a saber não só sobre ela, como também sobre a vida, sua antagonista. Outro exemplo: conscientizar o que não é eu (não faz parte de mim), ajuda-me na compreensão daquilo que sou (a filosofia de Fichte é, em grande parte, sobre isso). Oposição EU – Mundo.

Assim, para além da respectividade do real – desde a qual todas as coisas reais levam-nos a outras coisas reais -, existe uma respectividade íntima entre opostos (pois são ambos derivados de uma mesma realidade original). No caso dos seres humanos, a condição sexuada que nos constitui possibilita duas formas opostas e, pelo que se depreende até aqui, configura uma relação de conhecimento entre homens e mulheres. Não é apenas um jargão afirmar que homens são mais e melhores homens diante de mulheres que, por sua vez, são mais e melhores mulheres quando diante de homens. A disjunção polar, as oposições, a respectividade que ressalta a referência que ambos os sexos fazem a uma mesma realidade (a condição sexuada da vida humana como instalação) permitem e impelem uns e outras a conhecerem a si mesmos. E não estamos falando de preferências sexuais – não estou escrevendo sobre isso: trata-se de forma de vida que, como disse antes, necessita de sua oposição para melhor possuir a si mesma (tal como a escuridão é melhor compreendida quando confrontada com a luz).

Até aqui, nada de novo. Quem acompanha meus cursos (Filosofia da Mulher, Estudos sobre o Amor) ou leu meu livro (Por que não somos felizes?) já conhece a disjunção polar, caso particular de oposição de realidades respectivas. O que trago hoje, além da minha intenção de ajudar homens e mulheres desde a minha perspectiva de varão, é acrescentar mais um elemento de instalação existencial ao que sabemos ser condicional. Em outras palavras, tornar mais evidente um dos movimentos que acontecem na relação de conhecimento e convivência entre homem e mulher.

O homem é aquele que tem de ser forte. Obviamente, nem sempre o consegue. Mas se define existencial e simbolicamente como aquele que tem a pretensão de ser viril, expressar fortaleza, proteger ou suportar. A história dá mostras – seja pela educação, seja pelas realizações pessoais – daquilo que homens sempre aspiraram e daquilo que sempre rejeitaram (no caso, principalmente a fraqueza). Nós homens somos mais suscetíveis às brutalidades da terra e menos às “delicadezas” do céu. Temos no mundo, para nosso maior perigo, palco para o início e o fim de nossas ações. A espiritualidade, a alma, a religião, são todas nuances do feminino do qual, de alguma forma, podemos participar. O feminino nos atrai justamente por tudo que contém e que nos falta, e por isso varões podem ser fiéis a Deus ou grandes missionários: porque se abrem, por exemplo, à ação da Graça; ou à consolação da Filosofia; ou à beleza da Arte. Tudo extremamente feminino e atraente e, ao mesmo tempo, muito pouco brutal ou forte.

As mulheres, que encarnam existencialmente os símbolos do aspecto feminino da realidade (e da qual são elas mesmas um destes aspectos), agem como faróis que nos guiam, delicada e misteriosamente, às sutilezas da vida. São elas nossas asas, diria Julián Marias. E nisto está justificada toda a poesia dedicada às musas, todas as canções de galanteio, toda a pretensão de conquista. Num tempo em que é criminoso tornar a mulher um objeto, é preciso lembrar de sua função objetiva: estamos neste mundo, homens, para elas. Nossas realidades dizem respeito às delas e nelas se comprazem, se consomem em sentido e sublimação (outra palavra feminina).

Só há sentido falar em varão se em oposição à mulher (e vice-versa). São mulheres para nós, diante de nós, em oposição a nós. Atualizam sua condição sexuada justamente quando presentes num ambiente em que homens as vejam, as contemplem, as desejem, num movimento centrífugo que faz os varões saírem de si em direção ao que os transcende (homem – Vida). Por isso, são as mulheres nosso objeto de salvação: não para nosso uso, mas para nossa comunhão.

Na intimidade com uma mulher o homem descobre a si mesmo como homem. Reconhece-se diferente dela e pretendente da força. Todo homem sente-se envergonhado quando se vê fraco diante de uma mulher. Quando peca pela indeterminação, irresolução e covardia. É isto que assusta a um garoto desde seus 10 anos de idade, e que o faz suar as mãos ao ficar sozinho com a colega de turma por quem se apaixona e delira silenciosamente. Meninos e homens aceitam tudo, menos ser desprezíveis enquanto menino e homens: queremos ser necessários a elas, reconhecidos em nossa fortaleza (toda sábia mulher entende da famosa “massagem de ego” e dos efeitos em seu homem).

Por isso, e para evitar sua perdição, homens têm de passar vergonha ou pelo menos ter medo dela. São as mulheres que o colocam nessa posição que mais colaboram para seu amadurecimento. São as presenças de algumas mulheres admiráveis que fazem do homem um movimento ascensional – o que possibilita a superação de sua natural horizontalidade. Mulheres “cheias de graça” são capazes de envergonhar um homem a ponto dele não aceitar a fraqueza; de recusá-la a todo instante ao exercitar as virtudes que o instalam como varão e que o encorpam nesse sentido.

O silêncio da mulher; o olhar de quem vê mais possibilidades; a profundidade frente à superficialidade da realização no mundo: são estas as vergonhas que nos põem em atividade pelo reino que sempre quisemos, embora quase nunca confessamos, conquistar.

É o temor do julgamento de Dulcineia que põe Quixote a lutar.

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