Aqui fala um prisioneiro à espera de algum tipo de absolvição. Escrevo, antes de mais nada, para mim mesmo. E confesso, no ato de contrição doloroso que segue a epifania do eu que atravessei recentemente, como é que a incompletude de ser que aleija todo homem também limita de não-ser a minha vida.

Já são cinco meses sem escrever qualquer coisa que valha mesmo a pena. Nas palavras de Marguerite de Yourcenar, caí na “melancolia profunda do escritor que não escreve”. A perspectiva da queda é precisa: sinto como se os dias empurrassem-me cada vez mais para baixo, num movimento inclinado para a nulidade que se desenha em cores mais fortes a cada nova derrota impingida pelo destino comum reservado aos iludidos como eu. Afinal eu pertenço, para todos os efeitos, à casta dos vadios delirantes. Paradoxalmente e pela força da arte que empregam, seus “delírios” devolvem o homem ao mundo sempre que as noções de hospitalidade, comunhão, miséria ou herança, são afastadas dos espaços do estar e transmutam-se em ausências – por qualquer dos subterfúgios inventados ao longo dos séculos e que, para nossa desgraça, intensificaram nosso estrangeirismo.

Antes do mergulho no nada, experimentei a alegria do êxtase criador, escrevendo contos e textos sobre os mais diversos aspectos da vida humana que, a meu ver, mereciam ser salvos do esquecimento. É ofício do escritor, acredito, oferecer à memória coletiva os conteúdos, em imagens, daquilo que pode transformar o fluxo do tempo em história verdadeiramente.  Em outras palavras, os escritores, de diferentes maneiras, compõem a narrativa que desde suas radicais experiências iluminam a província humana – colonizada a partir do momento em que contamos e significamos o que fazemos e o que nos acontece. Daí meu próprio maravilhamento diante do que consegui realizar, num período que agora já me parece de outra era: nada escapava à minha prontidão para dizer, e as fortes impressões que constantemente sentia encontravam, desde o frêmito inicial até o suor sobre as frases a que davam causa, uma passividade contente, um regozijo diante da servidão à palavra que me punha de quatro, vencido, incapaz de obliterar o som em fúria que nascia nalgum tipo de entranha do mundo-eu.

Por uma razão que eu desconhecia, fui expulso deste espaço onde nascemos para a vida sucessivamente. Sofri a dor e o ressentimento consequentes do não que passou a me acompanhar como um martelo cruel: não escrevo, não digo, não olho, não enfrento, não me abandono. Sem saber que hamartia havia me tornado essa não-pessoa a que diariamente eu desprezava em silêncio, sempre mais revoltado por não estar naquele centro do mundo onde a finitude é branda e a morte impotente, cedi às seduções da banalidade e da covardia. Repetidas vezes converti-me em “fraude” para não ter de me julgar sinceramente, e confessar o que, só algum tempo depois e com ajuda, então percebi: foi a certeza do fracasso que me exilou.

Não se trata daquele receio que todo artista sente, em maior ou menor medida, pela recepção de sua obra. Não falo agora do fracasso de vendas, do massacre da crítica, da incompreensão nas praças públicas. Meu lugar garantido entre os escritores fracassados é aquele analisado por Juliano Garcia Pessanha, a partir da obra do filósofo alemão Peter Sloterdijk: a vida humana vem sendo paulatinamente colonizada pelos especialistas, e as “novas realidades” descobertas, nomeadas e explicadas a partir dessas sucessivas invasões técnicas, afasta a necessidade dos escritores, outrora os grandes responsáveis por colocar as marcas do sentido na geografia da espécie.

Se antes o amor ou a morte eram realidades literárias – porque manejadas pelos autores a fim de diminuir sua opacidade para o homem -, hoje são temas científicos, assuntos de pesquisa de laboratório e discussão especializada. Ao tomar posse delas, insistentemente, os terapeutas, psiquiatras, jornalistas, historiadores e biólogos diminuem o que Pessanha chama de província literária, tornando os servos da palavra os grandes marginais que, se assim não quiserem ser tratados, precisam reverenciar a modernidade especialista e oferecer ao mundo explicações em forma de falsa literatura.

Portanto, o fracasso a que me refiro e de que me apercebi com a ajuda desses autores, é mais fundo: depois de ter escrito de forma catártica e efusiva, intimamente eu soube, de uma maneira nova e inaugural, que aquilo era inútil e fadado ao esquecimento. Não porque grandes editoras simplesmente não se interessariam pela minha pequena e incipiente obra, ou porque eu não receberia os louros que a vaidade me sugere vez por outra, mas porque eu estava fazendo o que não tem, em termos genéricos, abertura para colonizar qualquer terreno da vida humana predominante.

Esta constatação íntima depois de um excelente período de trabalho e criação, talvez seja a consequência natural do minha autopoiese: em absoluto algo novo na história, mas radicalmente pessoal e intransferível, descobri aos trinta e cinco anos que o fracasso é o meu terreno, o elemento condicionante da minha vida, desfeito de ressentimentos apenas se assumido enquanto tal e, vejam só, querido como tal.

Dado que não quero falar como um especialista – não tenho explicações a oferecer, simplesmente marcas de terreno humilhantes para dividir – estou fora do jogo, da esfera de acontecimentos onde os triunfantes falam em círculo, hermeticamente fechados a qualquer possibilidade de revisão das regras de convivência que determinaram para sua própria sobrevida farsesca. De forma alguma dirijo a crítica ao desenvolvimento da ciência, saudável e necessária em tantos aspectos. Meu ponto é outro: é a exclusão do homem pelo homem, a sequência de golpes que tolheram os horizontes da espécie até que restasse barulho e esquecimento.

É contra os intelectuais e artistas triunfantes que também me insurjo de certa maneira (admito sentir náusea diante desses impostores tão seguros de si mesmos). Minha fala e minha escrita serão de escândalo sempre que eu suportar lançá-las, e a consequência mais natural disto será minha fidelização ao clube dos marginais.

Nos últimos meses perdi-me na recusa do fracasso condicionante, terreno dramático donde partem como quixotes os escritores do nosso tempo. Contentei-me com as “meias verdades” – psicológicas, biográficas e narrativas – e acessei a um não-lugar de que não quero mais provar. O mundo, durante esses difíceis dias, não foi para mim uma casa.

Entretanto e com algum alívio, respiro por sobre as águas turvas desse longo mergulho, e agora entendo melhor aquela frase de Hemingway: “nós estamos todos quebrados, e é assim que a luz pode entrar”.

Assim seja.

 

 

 

 

 

 

 

 

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