O autor deste título é um grande amigo meu – um dos sujeitos mais inteligentes que conheço. Quando nos encontramos é certo que, pelo menos uma vez, entre risos e goles de vinho, repita seu adágio: “cultura não tá com nada”. Quem o diz, no entanto, é alguém que passou a maior parte da vida estudando, mergulhado na densidade de algumas obras clássicas da filosofia e da literatura, absolutamente interessado em cultura.

Mas, então, que ironia é esta do meu amigo?

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Fugitiva, de Alice Munro, é uma ótima imagem daquilo que podemos chamar “medo da verdade”. O conto tem como protagonista Carla, uma jovem esposa que vive com um homem mais velho e responsável por convencê-la de alguns pequenos desvios biográficos – como a fuga da casa dos pais, empreendida ainda no final da adolescência – e de tratá-la de modo frio, sem qualquer concessão às suas necessidades e vontades (além de demonstrar, numa questão específica da história que a narradora vai nos contando, um quê de perversão). Carla, pelo que passamos a saber logo nas primeiras páginas, está numa circunstância de vida infeliz, daí que, enquanto leitores, esperemos por algum acontecimento que a evada disso.

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No século XIV, os otomanos – povo de origem turca que, àquela altura, formava um império transcontinental – invadiram a península balcânica. Dominaram, a partir de 1354, aquilo que hoje identificamos como sendo os Estados da Albânia, Macedônia, Bósnia, Sérvia e outros da região. Ainda no mesmo período, um sérvio destacou-se como líder da resistência nativa, tornando-se um grande libertador e, por isto mesmo, reconhecidamente herói. Chamava-se Marko (Марко Мрњавчевић, para atender aos mais exigentes), e sua história atravessou colinas e fronteiras, persistindo no tempo como forma de testemunho da bravura e engenho sérvios. Para além de todo o estudo feito de sua vida, através das fontes preservadas desde a Idade Média, suas realizações assumiram, no teatro do povo, as feições de um mito, cultivado a partir das lendas, cânticos e invenções que desde então lhe são dedicadas. Isto tudo para dizer que há Marko, de fato, e Marko, o mitificado, não menos real.

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Oprah Winfrey, em seu discurso de agradecimento pelo prêmio Cecil B. DeMille, recebido na cerimônia dos Globos de Ouro 2018, disse, entre outras coisas e num tom inflamado, que a era dos homens poderosos chegou ao fim. Aplaudida fervorosamente por uma plateia de homens e mulheres da indústria do cinema e da televisão, suas palavras foram amplamente difundidas pelos dias seguintes, tomadas como exemplo de empoderamento feminino e de um golpe em cheio contra o machismo e as velhas normas sociais que, a seu ver, constrangem há muito as mulheres e outras minorias. 

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O Natal se aproxima e, com ele, os delírios da nossa fraqueza: inconfessável, nutrimos no íntimo de nossas almas uma esperança de cariz revolucionário, já que agarrada por fios de angústia a uma mudança de vida que, se olhada mais de perto, deveria ter sido feita pouco a pouco durante todo o ano em que nada fizemos. As canções de costume, com seus sinos a reverberarem agudamente em nossas consciências, servem à ansiedade do tempo; caímos, semana após semana do advento, numa espiral de fuga dos próprios pensamentos acusatórios, surda aos gritos do coração que teimam – como os sinos das canções – tilintar dentro de nós.

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Um sensível abatimento do processo de individuação está em curso; uma diminuição do espaço de autopoiese em que cada um desenvolve a própria vida e, em termos quase literais, faz a si mesmo. É a perda ou substituição desta zona de criação pessoal que, por caminhos diferentes, encerra a pessoalidade num corredor estreito de trajetórias genéricas e imputação alheia de responsabilidades. Em outras palavras, esse lugar onde reina o mimetismo e a voz passiva é a fábrica de milhões de “algos”, processo metaforicamente industrial a partir do qual o eu, expressão inconfundível de alguém, imiscui-se num terreno baldio.

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A metafísica não é um tipo de conhecimento, como supõem alguns. É um modo de conhecer; uma perspectiva sobre a realidade que contamina tudo o que vejo. Dito de outra maneira, minha inclinação para o mundo, minha ânsia de tocar suas entranhas ou descobrir seus segredos, aquilo a que chamaríamos atos de cognição, podem ou não ser metafísicos. Assim como há quem olhe a história exclusivamente como um resultado da luta de classes, identificando-se como mais um dos elementos presentes na transitoriedade dos fatos, há quem assuma a postura desde a qual vê o que é invisível aos olhos mas não ao coração.

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Corre-se sempre o risco de fazer do mal um fetiche: torná-lo o assunto primeiro dos nossos dias, devotar grande tempo à resistência de suas investidas, atabalhoar a vida interior pela atenção teimosa às suas vis seduções. Como acontece a todas as realidades humanamente tocadas, o mal também pede comedimento: não na oposição que lhe fazemos, mas no modo febril com que muitas vezes, por negá-lo, o neurotizamos. O combate, como travado por Perseu na sua vitória sobre Medusa, nunca deve se dar no campo aberto e frontal: vencer o mal requer estratégia e proteção, e por isto nenhum de nós deveria encará-lo insistentemente sem um escudo que nos salvaguarde de seu poder.

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A recente celeuma em torno de uma decisão judicial que permitia, aos psicólogos que assim se propusessem, o acompanhamento terapêutico de pessoas infelizes ou angustiadas com a sua homossexualidade, com vistas a uma alternativa de comportamento sexual, pouco me interessa pelo seu aspecto político: as manifestações mais ou menos histéricas e entrincheiradas ideologicamente, de todos os lados do campo dos partidos, são matéria para outras reflexões. O que a conjuntura revela – e sobre o que tenho pensado recentemente -, é o componente dramático que parece inerente à condição sexuada humana, capaz de fazer sofrer, de gerar os mais tortuosos dilemas psíquicos e existenciais, além de servir de tábua aos jogos do poder e engenharia social – coisa a que já vamos nos acostumando neste tempo de açambarcamento da vida em cada um de seus componentes, seja pelo Estado, seja pela mídia, seja por qualquer outro agente decidido a esquadrinhar o mundo pessoal.

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