O Natal se aproxima e, com ele, os delírios da nossa fraqueza: inconfessável, nutrimos no íntimo de nossas almas uma esperança de cariz revolucionário, já que agarrada por fios de angústia a uma mudança de vida que, se olhada mais de perto, deveria ter sido feita pouco a pouco durante todo o ano em que nada fizemos. As canções de costume, com seus sinos a reverberarem agudamente em nossas consciências, servem à ansiedade do tempo; caímos, semana após semana do advento, numa espiral de fuga dos próprios pensamentos acusatórios, surda aos gritos do coração que teimam – como os sinos das canções – tilintar dentro de nós.

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Um sensível abatimento do processo de individuação está em curso; uma diminuição do espaço de autopoiese em que cada um desenvolve a própria vida e, em termos quase literais, faz a si mesmo. É a perda ou substituição desta zona de criação pessoal que, por caminhos diferentes, encerra a pessoalidade num corredor estreito de trajetórias genéricas e imputação alheia de responsabilidades. Em outras palavras, esse lugar onde reina o mimetismo e a voz passiva é a fábrica de milhões de “algos”, processo metaforicamente industrial a partir do qual o eu, expressão inconfundível de alguém, imiscui-se num terreno baldio.

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A metafísica não é um tipo de conhecimento, como supõem alguns. É um modo de conhecer; uma perspectiva sobre a realidade que contamina tudo o que vejo. Dito de outra maneira, minha inclinação para o mundo, minha ânsia de tocar suas entranhas ou descobrir seus segredos, aquilo a que chamaríamos atos de cognição, podem ou não ser metafísicos. Assim como há quem olhe a história exclusivamente como um resultado da luta de classes, identificando-se como mais um dos elementos presentes na transitoriedade dos fatos, há quem assuma a postura desde a qual vê o que é invisível aos olhos mas não ao coração.

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Corre-se sempre o risco de fazer do mal um fetiche: torná-lo o assunto primeiro dos nossos dias, devotar grande tempo à resistência de suas investidas, atabalhoar a vida interior pela atenção teimosa às suas vis seduções. Como acontece a todas as realidades humanamente tocadas, o mal também pede comedimento: não na oposição que lhe fazemos, mas no modo febril com que muitas vezes, por negá-lo, o neurotizamos. O combate, como travado por Perseu na sua vitória sobre Medusa, nunca deve se dar no campo aberto e frontal: vencer o mal requer estratégia e proteção, e por isto nenhum de nós deveria encará-lo insistentemente sem um escudo que nos salvaguarde de seu poder.

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A recente celeuma em torno de uma decisão judicial que permitia, aos psicólogos que assim se propusessem, o acompanhamento terapêutico de pessoas infelizes ou angustiadas com a sua homossexualidade, com vistas a uma alternativa de comportamento sexual, pouco me interessa pelo seu aspecto político: as manifestações mais ou menos histéricas e entrincheiradas ideologicamente, de todos os lados do campo dos partidos, são matéria para outras reflexões. O que a conjuntura revela – e sobre o que tenho pensado recentemente -, é o componente dramático que parece inerente à condição sexuada humana, capaz de fazer sofrer, de gerar os mais tortuosos dilemas psíquicos e existenciais, além de servir de tábua aos jogos do poder e engenharia social – coisa a que já vamos nos acostumando neste tempo de açambarcamento da vida em cada um de seus componentes, seja pelo Estado, seja pela mídia, seja por qualquer outro agente decidido a esquadrinhar o mundo pessoal.

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As notícias nos arrastam, para lá e para cá, como se ventos fortes e incontornáveis. Quanto mais conectados às redes sociais ou mais atentos aos canais que veiculam os acontecimentos do dia, mais tumultuados ficamos, sem perceber que a instalação no mundo não tem raízes no passageiro, mas no solo firme do que permanece.

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Herbert Marcuse publicou, em 1964, um pequeno livro sobre os supostos efeitos da industrialização e das armadilhas modernas – leia-se, capitalistas – no ser humano. “A ideologia da sociedade industrial”, como foi publicado no Brasil, é um interessante texto sobre aquilo a que Marcuse chamou de homem unidimensional: o indivíduo que, açambarcado pela lógica da racionalização dos contrários, crente nas promessas alvissareiras da tecnologia, carece de tensões e vive como se não houvessem verdadeiros mistérios e dramas insolúveis. A vida humana, para este novo tipo social, é uma equação bastante simples, e os elementos indesejáveis que teimosamente emergirem, sugerindo algum pequeno caos à ordem tão comezinha por ele cultuada, têm de ser resolvidos pelos engenheiros da paz em que acredita sem pestanejar. Trata-se de um crente, sem dúvida.

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É certo que a vida assemelha-se a um campo de batalha onde nem mesmo os soldados feridos podem descansar. Há dificuldades inerentes e artificiais, dor e enfermidades, angústia e perda, contingência e morte. Quem tenha saído daquela adolescência existencial – coisa nem sempre condizente com a idade -, sabe o suficiente para não mais cultivar ilusões sobre uma realidade que, em si mesma, é incompatível com delícias sem limites e clima de festa dionisíaca permanente. Portanto, assumida a perspectiva de que viver é mesmo um ato de fé no sentido último das lutas que aqui travamos, resta, a meu ver, encontrar a maneira possível de o fazê-lo sem que nos tornemos amargos, neuróticos ou pessimistas, incapazes de reconhecer neste mesmo lugar de desconcertos aquela parte – aquela pequena e imprescindível parte do mundo – em que uma fonte sacia nossa sede e abranda todo o sofrimento.

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PREÂMBULO DE ESCLARECIMENTO

As cenas aqui narradas são fictícias. Qualquer semelhança com a realidade não é mais do que uma irônica coincidência.

Nosso narrador é oculto, estava e não estava no ambiente dos fatos; participara atentamente sem que palavra alguma dissesse. Seu relato é preciso, bem feito, de quem olha com interesse os fenômenos humanos que vão do louvável ao ridículo. Sua história apareceu em meu computador sem maior explicação, entre uma conferida e outra das redes sociais, fofocas mais quentes e imagens mais perturbadoras. Em posse do enredo, transcrevo-o tal como se me revelou.

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A série Black Mirror, depois de produzidas três temporadas, talvez figure como uma das mais agudas e sombrias imagens de nossa vida moderna. Aguda, porque não condescende com os possíveis espectadores sensíveis à forma nua e crua de se revelar uma verdade; sombria, pois opta por tratar de realidades humanas quase não alcançadas
pela luz ofegante do debate público vigente; por ser ofensiva ao bom mocismo dominante na linguagem, à discriminação que não podemos sentir, ao palavrão que não podemos mais soltar, ao desejo que a decência não nos outorga experimentar.
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Cada episódio é como um soco no estômago do politicamente correto – em alguma medida análogo aos golpes dados por Zeus em seu pai Cronos e que faziam o titã regurgitar toda a vida devorada até ali. Nisto a série não é tão inovadora assim. Afinal, outras produções já o fizeram à sua maneira, e o teatro e a literatura se encarregaram ao longo dos séculos em ser instrumentos de mergulho na condição humana, ao mesmo tempo em que expunham, como num espelho e segundo seus critérios artísticos específicos, o reflexo daquilo que tocavam e que ajudava seu público e seus leitores a perceberem melhor a si mesmos. Quando Sófocles encenou sua mais famosa tragédia pela primeira vez, cada grego presente naquele festival deve ter reconhecido algum nível de cegueira e impotência pessoal quando assistido o drama de Édipo. Desde que François Mauriac publicara seu Nó de Víboras – diário e testamento de um personagem-narrador a caminho da morte – seus leitores têm naquelas páginas uma forma do arrependimento biográfico, da constatação dolorosa e sincera do ninho de sujeiras e maldades que cada um possui e
que leva a um autoconhecimento salvador nalgum sentido.
Mas nosso tempo, as crenças vigentes encarnadas nos homens de agora, não parece simpático aos espelhos negros apresentados pelos grandes mestres da literatura, do teatro, do cinema e das artes em geral (e até mesmo da filosofia e das ciências humanas, muitas vezes também elas grandes objetos de reflexão do obscuro). Podemos dizer que vivemos uma época de antissepsia, de ocultação sistemática dos cadáveres que sepultamos negligentemente ao longo de nossas trajetórias e que contêm sempre um pouco de nós, ainda que para nossa vergonha e dissabor existencial. Que nenhum homem ou mulher goste de tocar as próprias misérias e fracassos é óbvio; que esses conteúdos tenham se tornado inconfessáveis para si mesmo, penso ser recente em nossa história.

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