PREÂMBULO DE ESCLARECIMENTO

As cenas aqui narradas são fictícias. Qualquer semelhança com a realidade não é mais do que uma irônica coincidência.

Nosso narrador é oculto, estava e não estava no ambiente dos fatos; participara atentamente sem que palavra alguma dissesse. Seu relato é preciso, bem feito, de quem olha com interesse os fenômenos humanos que vão do louvável ao ridículo. Sua história apareceu em meu computador sem maior explicação, entre uma conferida e outra das redes sociais, fofocas mais quentes e imagens mais perturbadoras. Em posse do enredo, transcrevo-o tal como se me revelou.

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A série Black Mirror, depois de produzidas três temporadas, talvez figure como uma das mais agudas e sombrias imagens de nossa vida moderna. Aguda, porque não condescende com os possíveis espectadores sensíveis à forma nua e crua de se revelar uma verdade; sombria, pois opta por tratar de realidades humanas quase não alcançadas
pela luz ofegante do debate público vigente; por ser ofensiva ao bom mocismo dominante na linguagem, à discriminação que não podemos sentir, ao palavrão que não podemos mais soltar, ao desejo que a decência não nos outorga experimentar.
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Cada episódio é como um soco no estômago do politicamente correto – em alguma medida análogo aos golpes dados por Zeus em seu pai Cronos e que faziam o titã regurgitar toda a vida devorada até ali. Nisto a série não é tão inovadora assim. Afinal, outras produções já o fizeram à sua maneira, e o teatro e a literatura se encarregaram ao longo dos séculos em ser instrumentos de mergulho na condição humana, ao mesmo tempo em que expunham, como num espelho e segundo seus critérios artísticos específicos, o reflexo daquilo que tocavam e que ajudava seu público e seus leitores a perceberem melhor a si mesmos. Quando Sófocles encenou sua mais famosa tragédia pela primeira vez, cada grego presente naquele festival deve ter reconhecido algum nível de cegueira e impotência pessoal quando assistido o drama de Édipo. Desde que François Mauriac publicara seu Nó de Víboras – diário e testamento de um personagem-narrador a caminho da morte – seus leitores têm naquelas páginas uma forma do arrependimento biográfico, da constatação dolorosa e sincera do ninho de sujeiras e maldades que cada um possui e
que leva a um autoconhecimento salvador nalgum sentido.
Mas nosso tempo, as crenças vigentes encarnadas nos homens de agora, não parece simpático aos espelhos negros apresentados pelos grandes mestres da literatura, do teatro, do cinema e das artes em geral (e até mesmo da filosofia e das ciências humanas, muitas vezes também elas grandes objetos de reflexão do obscuro). Podemos dizer que vivemos uma época de antissepsia, de ocultação sistemática dos cadáveres que sepultamos negligentemente ao longo de nossas trajetórias e que contêm sempre um pouco de nós, ainda que para nossa vergonha e dissabor existencial. Que nenhum homem ou mulher goste de tocar as próprias misérias e fracassos é óbvio; que esses conteúdos tenham se tornado inconfessáveis para si mesmo, penso ser recente em nossa história.

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Quando menino, brincava muito sozinho. Filho único até meus nove anos, passei tardes inteiras dentro do meu quarto a promover batalhas entre meus bonecos, criar histórias para entreter minha mente, vaguear pelo silêncio da casa com uma nave na mão esquerda e uma espada na direita. Apenas eu testemunhei a salvação do mundo tantas vezes ali realizada, e preenchi de novas imagens minha provinciana existência numa cidade pequena do interior do Paraná. Os limites exteriores não tinham ressonância dentro mim: no foro íntimo tudo era possível, e nessa infância de aparência solitária, foi-me concedido pela vida provar dos conteúdos imaginários que dão à existência humana líricos contornos. Quem, como eu, sinta saudades do tempo de menino, deseja aquele consolo que abranda o prosaísmo adulto e cotidiano, gozado novamente por uma espécie de habitação provisória na Nárnia de nossos próprios contos de fadas.

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Um fenômeno interessante tem se arvorado: os filmes e desenhos animados classificados como infantis estão seduzindo mesmo os adultos, que vêm lotando salas de cinema e consumindo em outras circunstâncias os produtos dirigidos supostamente às crianças. Também é de se notar a crescente qualidade técnica que estes mesmos produtos demonstram, oferecendo ao espectador – seja ele de que idade for – universos de cores e encantamentos bastante impressionantes.

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O SONHO

Na noite passada sonhei com o Olavo de Carvalho. Estávamos nalgum bar, sentados à mesa num canto onde víamos todas as pessoas sem que elas nos vissem. Não consigo lembrar de outros detalhes além destes: eu o aguardava ansioso porque tinha em mente um pedido de conselho. Quando logo se sentou à minha frente, com expressão grave, cigarro à mão e mudo como se me pedisse um motivo, disse-lhe sem rodeios:

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Desde quando algum decreto oculto e não rastreável obrigou os seres humanos a opinarem sobre todas as coisas, vivemos tempos estranhos em que as coisas todas lançadas no mesmo espaço de realidades públicas já não diferem em importância. Ao assumir a postura legalista de ter de dizer algo sobre absolutamente tudo, perde-se a reserva de intenções com a qual projetamos sobre partes do mundo nossa luz de compreensão e nosso desejo de intimidade particular. É porque preferimos umas coisas a outras e nos detemos em certos aspectos da vida enquanto ignoramos o resto, que somos capazes de verdadeiramente saber algo, dar um tom aos movimentos da nossa existência que não se confundiria com o falatório das praças. A estrutura mesma de nosso aprendizado é muito bem representada no simbolismo natural da noite e do dia, ou das luzes e das trevas: vivemos a correr de um ponto claro para outro escuro que necessita nossa inteligência, e enquanto este mesmo ponto se esclarece pouco a pouco – por obra do estudo, da atenção, da vontade de conhecer ou da contemplação – outros milhares ficam à sombra, no limbo da ignorância que ressumará sempre sua presença.

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Miguel,

Começo esta carta lamentando a partida de Aurora. Sei que lá se vão três meses de sua morte; entretanto, é a primeira vez que me dirijo a você desde que soubera de sua viuvez, e por isso quero expressar meus profundos sentimentos e meus sinceros votos de que saiba viver este luto que ainda deve estar atormentando o seu espírito. Quem quer que o conheça, caro Miguel, sabe do amor que sentiu pela grande companheira vencida pela depressão.

Deve estar se perguntando se desconheço os reais motivos da morte de sua mulher. Esclareço: sei bem que a causa médica foi o câncer, que se alastrou pelo corpo todo a ponto de comprometer os órgãos vitais. Mas reitero o que disse antes e peço que acolha esta minha perspectiva de amigo: foi primeiro o mal da depressão que a tornou vulnerável, sem energia vital para seguir enfrentando os dias mais difíceis e, consequentemente, os obstáculos da doença que acabou por matá-la.

A depressão é o mal do século, diziam muitos até os anos 2000. Penso que continua sendo a expressão de um profundo desconforto dos homens e mulheres contemporâneos, aparentemente em apuros com a própria existência. Nunca foram consumidos tantos medicamentos contra esta enfermidade e os psiquiatras nunca tiveram seus consultórios tão cheios: tem-se procurado aliviar, de todas as formas possíveis, o sofrimento de quem padece desse mal. A depressão não apenas altera a química do cérebro, mas curva o espírito como se dele retirasse a aspiração de viver – sem este impulso vital, a pessoa retrai sua existência, perde o apetite das coisas, aceita os termos inferiores do jogo em que transcorre sua biografia. Inferno, lembremos, é uma maneira de dizer inferior: os depressivos podem ser encarados como aqueles que estão nalgum tipo de inferno existencial. E sua Aurora, se me permite o atrevido diagnóstico, foi uma destas mulheres que não conseguiu salvar a si mesma.

Em 2009, quando estive em Portugal por conta daquele congresso em que falei sobre As raízes noogênicas do tédio, pude visitá-lo em Espinho (recorda-se?). Naquela altura, pela primeira vez, você mencionou o estado de Aurora e o fato dela ter iniciado um tratamento com antidepressivos. Você usou palavras como desânimo, medo, letargia, cansaço, apatia, melancolia, para descrever o estado de espírito de sua mulher. Também lembro que, no seu julgamento, tudo começara em virtude da crise econômica pela qual o país passava e que era a grande responsável pelo fechamento da loja de brinquedos. Suas palavras mais marcantes foram: “já ninguém mais em Espinho terá caravelas de madeira para decorar os quartos dos miúdos”. Aquilo, além de me entristecer, me marcou pela força simbólica da frase – afinal, eu estava ouvindo de um homem português que já não haveria caravelas na cidade.

Aurora, que devotava todo o tempo do mundo àquela loja inaugurada tantos anos antes pelos seus pais, sofrera grande revés ao ter de fechar as portas e reconhecer-se falida enquanto comerciante. Bastaram poucos meses para que os primeiros sinais da depressão aparecessem; as primeiras crises, as consultas, o início do tratamento. Pelo que você mesmo me disse antes que eu voltasse para o Brasil, Aurora parecia ter sido golpeada de forma a impedir que se levantasse novamente. E eu ainda acrescentei ao seu comentário: uma mulher de cinquenta anos, sem filhos, sem outra dimensão em que se sentisse realizada, era capaz de pôr-se a perder em definitivo naquela situação.

E infelizmente foi o que aconteceu, Miguel. Você sabe melhor do que ninguém: Aurora deixou que a depressão tomasse pouco a pouco suas forças até que já não pudesse mais sair da cama pela manhã. Nada tinha sabor, tudo era mais do mesmo. Você foi um grande guerreiro e suportou como poucos os anos de tristeza e timidez vital de sua companheira. Quando em 2015 veio à tona o câncer, sua voz embargada disse-me ao telefone: Pedro, ela ainda teve o disparate de agradecer pelo mal que finalmente a levaria desta vida.

É tudo muito triste, e não retomo estes fatos gratuitamente. Sabe que não é minha intenção feri-lo ainda mais em relação ao sofrimento que passaram juntos nos últimos anos. Porém, quando decidi escrever esta carta e pensei em nossa amizade transatlântica, senti-me no dever de ser o mais sincero e duramente verdadeiro que eu poderia num momento como este – para seu próprio bem. Não ignoro seu luto, meu caro. Apenas proponho-me, como não poderia deixar de fazer enquanto amigo e filósofo, ajudá-lo a enxergar que sentido pode haver por trás desses fatos e que conhecimento podemos ter sobre nossas vidas – em que pese a gravidade de tudo o que tem passado e de quem eu acredito que você seja.

Eu admiro-o profundamente. Sinto-me honrado pela nossa amizade, pois o considero grande homem, grande literato, grande pensador, grande português. É um tipo de sujeito da mesma estirpe de Camilo Castelo Branco, Ferreira de Castro, Manuel Laranjeira: a vida também pulsa dolorosa e intensamente em suas mãos, e sua escrita é uma expressão fiel dos movimentos de alma que sucedem-se de forma quase violenta dentro de si. Um dia, espero, me dará acesso a seus secretos diários e permitirá que eu os apresente a alguma editora (aqui no Brasil ou em Portugal), a fim de que encontrem o merecido público. Sei que tem se dedicado a eles há mais de quinze anos, e consigo imaginar os grandes pensamentos e insights que aí devem estar registrados com o lirismo que é sua marca.

Talvez, agora, a arte seja mais do que amiga: tal como acontecera a Boécio, uma musa consoladora haverá de lhe fazer a visita que anseia. Consigo desenhar a cena em que você está em sua sala, em frente à lareira – e àquela cópia de The Fighting Temeraire, pela qual tem preferência dentre todas as telas de Turner – lendo algum artigo de El Espectador, de Ortega y Gasset, ou folheando poemas de Pessoa enquanto Alberto Caeiro (poemas que, sabemos, você sabe de cor). O cigarro entre os dedos da mão esquerda; os óculos baixos, quase à ponta do nariz; a mão direita a segurar o livro: a expressão mais comum de gravidade e tensão no olhar ora compenetrado na tarefa, ora distante na reflexão. É assim que o vejo, Miguel.

E por conhecer suas virtudes como homem e intelectual, sua paixão pela arte, sua invejável retidão de ser, é que me sinto um tanto estúpido ao dar-lhe qualquer conselho nesta hora. Mas, como já disse, a amizade que sentimos um pelo outro me impele a escrever e ser o mais fiel ao que percebo e penso quanto ao que aconteceu à Aurora e agora deságua na sua provável solidão e sofrimento. Por isto, e mantendo-me o mais próximo do meu objetivo de início, aproveito esta carta para falar de algo que tenho pensado nos últimos meses e, em alguma medida, ligado à história de vocês dois e de Portugal que respeito profundamente.

Se existe uma característica ímpar ao espírito do intelectual é esta: somos chamados a ver as coisas, mesmo as mais corriqueiras e pessoais, à luz da inteligência e razão, de forma a não apenas padecer dos fatos, mas também interpretá-los – para ganho próprio e de quem mais acesse nossos livros, aulas, publicações. Havendo diferenças naturais e sensíveis entre os homens – como eu e você acreditamos existir – aquilo que faz um pensador, um filósofo ou crítico, é sua capacidade de transcender a própria situação, enxergá-la desde o mais alto ponto, e num processo humilhante e criativo ao mesmo tempo, comunicar a verdade descoberta a partir do foro individual que, sendo verdade, é válida para a vida de toda gente. Neste sentido, “meu sofrimento” torna-se “nosso”, humano. E se queremos responder efetivamente ao chamado que nos foi feito enquanto intelectuais, é preciso fazer esta operação centrífuga em ascese: do núcleo de nossas vidas e subjetividades para as leis que regem os homens e sustentam o significado de toda particularidade.

Para ilustrar o meu ponto, invoco o nome de um dos grandes escritores brasileiros – de quem não estou certo que você conheça ou já tenha lido a respeito: Lima Barreto, autor de Triste fim de Policarpo Quaresma, por exemplo. Este romancista e contista do início do século XX teve uma breve carreira, com altos e baixos e pouco reconhecimento enquanto vivo. Para além de ser mulato e pobre, enfrentou outro obstáculo no Rio de Janeiro daquele tempo: era alcoólatra, vício que lhe rendeu internações forçadas no hospício da cidade.

Mas o que isso tem a ver com o papel do intelectual, de que eu falava há pouco? Lima Barreto, mesmo quando tratado como louco, renegado pela família e obrigado a se submeter a tratamentos terríveis, nunca permitiu que a consciência lhe faltasse: manteve-se alerta, como deve se manter quem tenha a escrita por vocação ou a beleza por valor. São célebres seus diários sobre o hospital em que ficava, sobre a luta pela lucidez ou a busca por algum sentido em tudo aquilo (ainda que aparentemente não o tenha encontrado, infelizmente). Mas de fato, Miguel, Lima Barreto é um exemplo do que podemos chamar consciência em alerta, dever primeiro do intelectual ou pensador, que não tem permissão para justificar, com base nas duras circunstâncias em que possa se encontrar, qualquer possível cochilo vocacional. Viktor Frankl é um modelo de excelência quando se fala em sofrer e conhecer – haja vista sua escravidão nos campos nazistas sem que houvesse perda da fidelidade a si mesmo e ao Sentido (encarado assim, como ele mesmo tantas vezes mencionou em suas obras, com S maiúsculo).

(Meu amigo, preciso confessar que neste exato momento ouço Claire de Lune enquanto digito estas linhas; perdoe-me se as notas do piano transparecerem no ritmo e sonoridade das palavras – é que sou facilmente tomado pela obra de Debussy).

Voltemos ao ponto. Dizia eu que pensadores, sejam artistas ou filósofos, são chamados a transcender suas próprias circunstâncias e a encontrar, na radicalidade de suas experiências, conclusões que sirvam a todos os homens (por analogia). Também disse que o sofrimento ou as dificuldades são matéria de conhecimento de si e da vida humana – e não podem legitimar a letargia ou mesmo a paralisia da atividade do espírito. Portanto, ao intelectual é dado mais um fardo: sua culpa advém da quase permanente constatação da desarmonia existencial frente à grandeza de seu dever-ser.

A tarefa é realmente difícil, e muitos foram aqueles que não suportaram as incongruências e tensões que fazem parte da atividade do espírito e podem ser sentidas em todo o seu peso. Se quisermos falar de Portugal, os exemplos são dignos de citação: Camilo, Eça, Manuel Laranjeira. O último, prosador invejável de mente perspicaz e produção ensaística valorosa, é uma vida a ser estudada: seu suicídio após anos de luta pessoal contra alguns dissabores portugueses e as suas noções de fé, metafísica e vida humana que demonstrou ter e defender, é modelar para o que estou tentando dizer a você desde o início desta carta.

Aliás, quando decidi escrevê-la nesta manhã, peguei da prateleira meu exemplar de Cartas publicado pela editora Relógio d’Água – obra que você me apontou naquela livraria (de nome francês e que agora não me recordo) em Lisboa – contendo uma série de correspondências de Laranjeira com Pedro Bianco, João de Barros, Ramiro Mourão e tantos outros. As mais substanciais e comoventes, no meu julgamento, são as endereçadas a Unamuno, o grande mestre da geração espanhola de 1898. E quanto pesar há nelas, meu caro Miguel! Quanta lucidez e, ao mesmo tempo, tédio existencial; ressentimento, dúvida, morte: a perspectiva de Manuel Laranjeira sobre Portugal e os portugueses, sobre a vida, a esperança e outros temas escatológicos é de fato melancólica. São os livros e as cartas recebidas dos amigos que lhe servem de consolo diante da pequenez e da dureza que julga perceber.

Posso transcrever-lhe o trecho de uma carta, para que leia e saiba por si mesmo o que estou querendo dizer: “Neste malfadado país, tudo o que é nobre, suicida-se; tudo o que é canalha, triunfa … O nosso mal é uma espécie de cansaço moral, de tédio moral, o cansaço e o tédio de todos os que se fartaram – de crer.” (Enviada a Miguel de Unamuno, a 28 de outubro de 1908).

Estas palavras – e muito mais, aquilo que revelam – fizeram-me recordar de seu amigo, Eduardo Lourenço, a quem você me apresentara naquele jantar no Porto durante o encontro internacional de professores de Filosofia (a segunda e última vez que o vi foi num pequeno evento em Lisboa, em razão de uma palestra que ele proferiu sobre Terrorismo e Crise dos Refugiados). Mas estou tergiversando. Estava a dizer que as palavras de Manuel Laranjeira fizeram-me recordar seus escritos sobre saudade. Num deles, o Prof. Eduardo Lourenço, pleno de lirismo e incrivelmente consciente do que aborda, fala da melancolia como um estado quase permanente da alma portuguesa; como se esta qualidade de revisitação do próprio passado – em que o ressentimento prevalece na tradução da memória – fosse a mais cultivada pelos lusitanos. Some-se a isto o sentimentalismo de que fala o próprio Laranjeira (“povo essencialmente sentimental”), o fado, os temas de poesia, a “criação” da saudade enquanto tema preferencial: parece-me verossímil argumentar que os portugueses são melancólico-sentimentais.

De fato, meu amigo, há alguma espécie de luto em seus olhares: por alguma razão a melancolia tornou-se lugar-comum, e a passagem dos dias uma monótona brisa que refresca, mas não chega a ser suficiente para movimentar as velas. E talvez esta ausência de grandes tempestades, de grandes venturas, de novos temores e abalos esteja causando esse clima de fim de tarde em que se olha o pôr do sol desde o Cais do Sodré, mas não se comove a ponto de atravessar as águas outra vez. Mesmo as dificuldades econômicas, os altos e baixos da política, os desencaixes em relação à comunidade europeia, são vividos como tropeços cotidianos, coisas que não valem uma verdadeira luta, uma união nacional, um mergulho ativo: os portugueses parecem estar ensimesmados em seu tédio existencial, fruto da calmaria de superfície em que se encontram – e que esconde os mais revoltosos movimentos de seu núcleo poderoso.

Que tumor social é este, Miguel, de que fala Manuel Laranjeira? Como foi que ele cresceu entre vocês, matando-os não pela metástase orgânica, mas pela aceitação do suicídio como modo de vida?

Entende, meu amigo, que possíveis correspondências podem ser feitas entre a Aurora e Laranjeira, doenças do espírito e morte existencial? Eu sei, sou um brasileiro a falar de um povo tão maduro como o seu. No meu caso, faltam livros que nos expliquem e encontrem os elementos que distingam, com maior clareza possível, a identidade nacional. É o mais dramático e até agora insolúvel problema do Brasil: saber o que é e por que é.

Não me parece ser o mesmo problema de Portugal. Não sinto, na relação com vocês, na literatura que conheço, nas notícias que chegam, na história que estudei, na convivência experimentada quando em Lisboa, Setúbal, Évora, Espinho ou Porto, que a identidade seja seu drama: é justamente por saberem quem são que estão há tanto melancólicos. A paralisia, neste caso, é fruto do ressentimento (o passado glorioso x o presente comum). Entre nós brasileiros, a falta de atividade se dá em virtude de um desconhecimento da origem e do destino, de um passado jamais possuído, oculto entre paródias e falsificações ideológicas. Pouco sabemos a nosso respeito, e o mesmo não vale para os irmãos portugueses.

Retomo a questão das doenças do espírito e sua relação – pode chamar-me de metafísico ou acusar-me de pouca ciência, mas não consigo enxergar grandes realidades sem o apelo a grandes lentes – com o tédio existencial ou o “tumor social” percebido em Portugal. Mencionei ainda no início desta carta, que ora já se mostra demasiado longa e quiçá enfadonha, meu trabalho sobre as enfermidades noogênicas (você mesmo leu alguns artigos que escrevi recentemente); em poucas e simplificadoras palavras, as doenças noogências são de origem espiritual e, por isto mesmo, afetam toda a pessoalidade – em sua dimensão individual e depois coletiva. Tomo o conceito emprestado de Viktor Frankl, que encarou a depressão, associada ao tédio existencial, como uma desordem de fundo noogênico, algo que se passa no núcleo mesmo do ser. Assim como existem doenças de origem fisiológica, estudas pela medicina convencional, existem as de causa psíquica e as de causa espiritual. Hoje não tenho dúvidas de que a corrupção brasileira, por exemplo, é deste último tipo (e não me refiro a desvios de dinheiro público, mas ao movimento de alma anterior que faz do ditado “a ocasião faz o ladrão” um enunciado provável no Brasil). E me pergunto, caro Miguel, se a melancolia dos portugueses, seu ressentimento traduzido em paralisia de vida, ausência de projetos audaciosos, movimento e conquistas de novos horizontes, não seria, também, uma enfermidade espiritual, um mal de fundo noogênico.

Sua expressão mais superficial seria justamente a depressão clínica, contida em consultórios e pelo uso de medicamentos. Você conhece os dados melhor do que eu, obviamente: Portugal é o país da Europa com taxa de depressão mais elevada (quase 10% da população). A cada oito horas, morre um português por suicídio. Um terço dos enfermos não busca tratamento; no mundo, apenas os Estados Unidos têm mais depressivos (proporcionalmente falando) do que seu país.

“Quando penso que sobre nós pesa a herança trágica, secular, duma ignorância podre e duma corrupção criminosa, o meu espírito enegrece e sinto-me adentrado dum pavor indizível, talvez absurdo. E, mais que saber se vamos para a vida ou para a morte, me preocupa saber se morreremos nobre ou miseravelmente”. Nova citação da carta de Laranjeira a Unamuno (peço desculpa pelos grifos).

Tanto a vocês, irmãos de Camões e Herculano, como a nós, estrangeiros, espantam os números acima e a visão pessimista, como a de Manuel Laranjeira. Recorro aqui ao que percebera Miguel de Unamuno sobre a sociedade portuguesa e estes mesmos temas que tentei expor com alguma ordenação nesta carta. “Portugal é um povo triste – e é-o mesmo quando sorri. A sua literatura, incluindo a sua literatura cômica e jocosa, é uma literatura triste” (afirmação que anotei em meu caderno de apontamentos; retirei-a de uma edição de “Os portugueses, um povo suicida”).

Eu não posso, como filósofo, encarar o que já podemos chamar de evidências do caráter de outra forma: há uma profunda raiz espiritual nestes males que atormentam o também corajoso, bravo e feroz povo português. E por não terem identificado corretamente a causa – ao que me consta -, talvez não tenham conseguido remediar adequadamente seu estado até agora. Os sintomas, segundo a literatura, as autobiografias, as cartas e os documentos, recrudesceram a partir do último quarto do século XIX, tendo grande expressividade ao longo do XX. E volto a dizer: não foram, pelo que se percebe hoje, investigados nestes termos, noogênicos – única perspectiva que me parece poder resultar numa “cura” ou salvação de si mesmo.

Mas como acontece a toda doença de fundo noogênico, a melancolia-sentimental que entedia e paralisa o português não terá fácil abordagem e purgação: o espírito é sanado pela luz direta que contempla. Quanto maior a luz lançada sobre si mesmo, maior a possibilidade de reconhecimento dos próprios recônditos interiores – donde se instalam as heresias, as mentiras, as falsificações de trajetória, as justificativas para o esquecimento do propósito vital. A atividade do espírito é marcada pela claridade e, sendo assim, tudo que a dificulta, avilta ou desvia é associado à escuridão e às trevas – logo, evocamos a inteligência, que também tem como símbolos a luz, o Sol, o raio de Zeus, o fogo, etc. Portanto, a todos os povos é necessária uma nesga contínua de luz, sem a qual ficam como a terra sem calor: nada cresce, tudo apodrece.

Portugueses, brasileiros, ingleses ou indianos devem ardentemente desejar esta luz que torna visível o mais obscuro elemento de suas realidades. Dependemos disso, enquanto homens e povos. Necessitamos saber o que somos, e isto inclui tocar nossas fraquezas, baixezas e vícios. Havendo abertura, o raio de luz é capaz de penetrar profundamente e projetar-se sobre todo o ambiente a que chamamos vida individual ou social. O gosto agridoce resultado dessa exposição à luz que irradia – por extensão de sentindo, a do saber sobre si – é preferível à ignorância com a qual encerra-se o subconsciente em sua condição soturna, disforme e de sentido inalcançável pelo sujeito. Em nenhuma cultura as sombras e a escuridão – portanto, o desconhecimento – são encaradas como símbolos naturais da cognição e da razão. Daí minha insistência neste ponto: que os portugueses vejam; que não lhes seja negada nenhuma lente de tomada de consciência da verdade e daquilo que lhes é oferecido como destino.

Mas Miguel, meu caro amigo, não é simples a tarefa. É preciso ressaltar a dureza do português – sobre o qual já vi você mesmo tratar em aulas e artigos publicados na imprensa estrangeira. Há uma aspereza no seu modo de ser, na forma de servir, no tratamento comum, na convivência sem lirismo. Nas palavras de Unamuno, “a brandura portuguesa está só à superfície; raspai-a e encontrareis uma violência plebeia que chegará a meter-vos medo… a brandura é uma máscara”.

Perfeitamente compreensível. O mesmo povo que construiu cidades e países em tão distantes terras, que atacou os inimigos internos e externos, que desbravou os mares e chamou a uma parte considerável do mundo de “português” não poderia ser frágil; doce, suave ou curvilíneo. É uma questão de lógica: lusitanos foram forjados para a aventura e desventura, para os trabalhos considerados impossíveis e as conquistas ditas irracionais. Quem seria capaz de fazer nascer algo como o Brasil, senão um povo de força e retidão? De alguma maneira, dureza?

Aqueles homens que entravam nas caravelas para contornar tormentosos cabos, negociar com violentos líderes tribais, iniciar uma feitoria, enfrentar feras e povos pouco amistosos, não eram plásticos, suaves como os cantos das crianças ou dóceis como os cães de raça. Era necessário que fossem fortes e rígidos, regimentais, burocráticos, uníssonos. Daí a aspereza, que ocupa a alma onde não houver grandes domínios da sensibilidade, da escala cromática das emoções e intenções.

É lá ou cá. Para vocês, é a obrigação ou o gozo. Não há intermédios: da rudeza para a divinização, ponto máximo onde o português médio cultiva a arte, vai à missa e celebra seus ritos. A religiosidade que marca sua história tem sentido dentro dessa perspectiva que reforço nesta abordagem: é um povo com abertura para a eternidade, mas sem degraus entre a brutalidade do prosaísmo e o lirismo das delícias espirituais. Entre segunda-feira e sábado, impera a força do dever e do rigor, do “ter de fazer”, “ter de cumprir”, “ter de obedecer”; e no domingo, ou no dia que reconheça como fora deste ciclo de obrigações civis e sociais, busca logo a mais alta realização, a mais sublime performance do ser que pretende e que não se imiscui na prodigalidade das leis, dos decretos e dos carimbos do notário. São mundos diferentes, avaliam.

Mas note, Miguel, que até mesmo no exercício da fé são seus compatriotas oficiosos. Nas artes, como na música, também não há meio termo: o fado é o extremo de uma corda de sentimentos e pesares, e sendo ele uma das maiores expressões do que podemos entender por canção tradicional portuguesa, ajuda-nos a perceber que a escala de notas da alma portuguesa é abrupta, de uma oitava à outra sem concessões para a delicadeza do semitom.

Miguel, penso que seja preciso o acontecimento de alguns terremotos íntimos: que esse tédio que paralisa o povo há mais de um século sofra uma espécie de abalo e seja demovido. As catástrofes, como um terremoto ou um incêndio (Lisboa e Londres, por exemplo), têm também uma função. Apesar da morte ou perda que geram e da destruição que causam, forçam o nascimento da novidade, simbolizada nas construções e reorganizações empreendidas em seguida aos fatos trágicos. No plano existencial também pode ser assim: os abalos e provocações podem vir a pôr os homens e mulheres em movimento, saindo do estado de paralisia e instalando-os numa circunstância projetiva – na qual a vida é encarada como antecipação de si mesma, trabalho poético de imaginação e consequente auto-realização.

Enfim, começo a me despedir. Ultrapassei todos os limites do aceitável para uma carta amiga de condolências. Mas o fato é que ela acabou se tornando mais do que isso, e minhas características pessoais sobressaíram ao transformar a intenção original da escrita numa espécie de apologia da reflexão – espero ser bem recebido por você, e que o “uso” que fiz da morte de Aurora não seja mal interpretado. Se estou certo, o Miguel sempre olhará para este pretenso filósofo paulista, solteiro e sem filhos, de forma compassiva e bondosa, como que procurando o melhor das minhas atitudes e palavras. Reforço os votos de que assim continue, meu caro.  

Aurora pode ter sucumbido às armadilhas da melancolia portuguesa e à consequente paralisia que tomo por doença espiritual. A depressão mostrou suas garras, limitou-lhe a ação e a coragem e tornou-a suscetível a outros males de menor grau hierárquico, como é o câncer quando comparado às enfermidades noogênicas (a hierarquia das desordens pessoais é uma alusão que faço à Homeopatia que venho estudando desde aquele livro do Vithouklas que li na viagem a Copenhague, em companhia de Assis e Saraiva, ambos seus colegas professores, um de formação literária, outro historiador profissional – oportunidade que rendeu conversas interessantíssimas sobre cultura e salvacionismo). Ainda narrarei parte desses diálogos para você, Miguel, quando nos reencontrarmos.

Quando será?

Não sei se eu irei a Portugal primeiro, ou se você virá ao Brasil visitar seus parentes (creio que seus tios ainda estejam vivos, morando em Recife, certo?). De qualquer forma, é importante que nos encontremos, que nos saudemos como bons amigos que somos; que então eu possa ouvi-lo falar mais claramente de si e da vida sem Aurora, das adaptações necessárias, dos desafios que se avolumam e de como deve estar a enfrentá-los.

Eu desejo a você o que desejo ao Portugal que considero minha segunda pátria: que os terremotos lhe tragam mais força.

 

Do amigo,

Pedro Afonso.

 

São Paulo, 13 de maio de 2017.

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Há dois tipos de provincianismo: o de espaço e o de tempo. O primeiro faz com que o grupo ou sociedade julgue-se central geograficamente, ainda que periférico; toma sua pequena realidade espacial como um reino de começo e fim, mas sem fronteiras: nada existe para além do seu mundinho. Contra esta diminuta visão, viagens, livros, comércio, diálogo, estrangeirismo – todo tipo de ação que o faça transbordar, rompendo os limites do que julgava concebível.

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“Literatura é o lugar onde se articula o senso de realidade. E senso de realidade é, sob certos aspectos, sinônimo de religiosidade” (Vilém Flusser).

A citação justifica a proposta deste curso dentro do trabalho de recuperação das coisas que perdemos pelo caminho a que tenho me dedicado como professor. Os módulos do Vida Humana, os cursos Filosofia da Crise, Filosofia da Mulher e Princípios e Métodos da Autobiografia, além do mais recente, A Vida é Metafísica, têm em comum a mesma intenção de resgate do senso das proporções, da gravidade e da dignidade da vida humana: minha perspectiva é a do náufrago que se agarra à tábua ontológica para não sucumbir ao desconcerto do mundo. Por isso reajo a todo tipo de ultraje à nossa condição, como o são as idéias ofensivas do aborto ou da igualdade entre homens, animais e plantas (para citar dois exemplos). Dentro das minhas limitações, resisto e contra-ataco através da palavra com sentido (por escrito ou falada) – palavra que conduza mesmo à intimidade.

Por isso é natural, em alguma medida, o fato de minha trajetória de estudos, atenções e preocupações ter chegado a este ponto que justifica, biográfica e existencialmente, a apresentação do curso em pauta: sem a restituição de uma linguagem mítica, única capaz de tatear o núcleo da vida sem corrompê-lo pela clareza do pensamento analítico, não teremos sensibilidade suficiente para ver a vida como ela é – não em sua manifestação mais superficial e temporal, mas no segredo de sua origem.

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As palavras são como partes de um trajeto que conduz uma realidade de um terreno original e singular para um espaço de convivência e confronto. São nossos instrumentos artificiais de revelação daquilo que nos acomete e nos acontece em alguma profundidade – e assim nos ajudam a compor testemunhos da própria vida. Pela ação das palavras o mundo nos conhece em ritmo e som, ao passo que nós mesmos nos ordenamos em figura e cor. Um diário, uma autobiografia, uma confissão dita ou escrita, são maneiras de configurarmos uma imagem de eu que passa a ser nossa representação no mundo que nos capta como ressonância.

Pois a palavra sempre tem som. Sempre reverbera, ainda que na mente de um leitor que a reproduz interiormente enquanto a torna sua. Disto decorre a apreensão que as palavras permitem que os outros tenham de nós seja uma música, uma canção mais ou menos direta, mais ou menos melódica. As cordas que vibram com a emissão que o outro faz de si mesmo através das palavras são sua entrega, seu modo de apresentação, sua expressão de autenticidade ou repetição; de verdade ou falsificação. A analogia com um instrumento musical bem afinado não poderia ser melhor: cada um sabe da angústia que cultiva em si a fim de soar harmônico ou não.

Mas toda palavra é também uma imagem, objetarão alguns. De fato: a palavra casa remete a uma representação que o ouvinte tem dentro de si e que permite a compreensão do que está em tela. Mas o que não se pode negar, a meu ver, é que som precede a imagem; a junção dos fonemas, subjugada às formas da língua, é que torna possível a realização da imagem a que reconhecemos mais ou menos familiar, conforme nossa extensão de vocabulário. Até poucos dias atrás, “cardar” não me dizia nada: era apenas um som compreensível, que projetou-se como representação visual no momento em que consultei seu significado no dicionário.

A aprendizagem de uma língua, em seus rudimentos gramaticais, acontece primeiramente pelo reconhecimento dos fonemas (é assim que crianças aprendem verdadeiramente as letras do alfabeto designadas por aqueles sinais desenhados no quadro, ou que passam a fazer separação silábica). A apresentação inicial da língua-mãe nos é oferecida enquanto bebês pelos sons que aqueles que falam conosco emitem. Dos sons passamos à representação imagética e, então, ao significado pessoal (a intransponível subjetivização das palavras).

É inegável que estamos com sérias dificuldades para nos entendermos atualmente. O falatório é constante, a internet deu mesmo voz aos imbecis (como dizia Umberto Eco) e nunca se provou tão factível a torre de Babel. Diante do que disse até aqui, parece claro que sofremos de uma surdez coletiva que afeta nossa apreensão do mundo e de nós mesmos – já não conseguimos escutar aquilo que ecoa desde nosso mais recôndito ser, nem perceber aquilo que se proclama em meio às praças públicas da discussão. O mal do nosso tempo não é a falta de inteligência ou a escassez de gênios: é antes disto a insensibilidade auditiva.

Queremos falar. Queremos expressar a todo instante o que se passa no nosso pobre ego, na nossa confusa mente de interesses vãos, no trepidar dos nossos corações apaixonados por política, por religião, por tudo que somos capazes de tratar com a gravidade característica do homem-massa. Harold Bloom, parafraseando Nietzsche, diz que “nós encontramos palavras unicamente para aquilo que já está morto nos nossos corações”. Tomemos essa frase e pensemos no vilipêndio que muitos fazem ao falar de Deus, divino, sagrado, milagre, amor, espírito, etc: só nos restará o sentimento de horror diante de tanta mortandade.

Um dos sinais mais sensíveis da falta de atividade interior é justamente o barulho: os sons desordenados e gritantes que se sobrepõem grosseiramente ao silêncio da natureza, que contínua e incansavelmente faz o seu trabalho. Os espaços de convivência, reais ou virtuais, têm se tornado arenas de competição em que é preciso falar mais e mais alto para sentir-se um vencedor. E uma fina ironia perpassa essa miscelânea: a de que tudo soa como mais do mesmo, numa infernal repetição que abafa toda possibilidade de escuta e criação.

Daí que afastar-se, tal como o eremita faz ao querer mergulhar nos insondáveis mistérios que lhe atraem, torne-se uma apetecível resolução. Mas ao mesmo tempo, o outsider reconhece aquilo que Payot disse acerca da verdade: que se revela na comunhão dos homens. E esta tensão, entre o ausentar-se e o fazer-se presente no meio de todos que estão na praça, que configura sobremaneira o homem maduro, o intelectual, o escritor.

Este último, ainda carrega vocacionalmente o fardo de ter de dizer sem que ainda esteja morto o que necessita ser dito. Tendo a afirmação de Nietzsche como uma navalha em sua consciência, todo escritor percorre a longa e solitária marcha da recuperação do que está quase perdido em meio à gritaria. É seu ofício um meio de salvar do esquecimento aquilo que corre o risco de não ter mais voz entre os falantes. É seu dever projetar os sons que devolvem aos ouvintes atentos a possibilidade de harmonia que lhes restaurará o caminho sempre vivificador entre a realidade e sua pronúncia pela boca ou pelas mãos.

Por isso a literatura é, segundo Fernando Pessoa, um esforço para tornar a vida real. É nosso artifício para a arquitetura do necessário para a própria sobrevivência, para a garantia de que aquilo que nos constitui e clama por um modo de expressão no mundo tenha meios de realização. Sem ela, sem a poesia que se revela a guardiã da memória, sem vida humana verdadeiramente.

verbo de Deus se fez carne: há no irrompimento deste som todo o segredo da vida em abundância.