O leitor imagine a seguinte cena: um homem é convidado por uma mulher para jantar em sua casa. Os dois se viram duas ou três vezes antes disso. Ela é casada, mas o marido está viajando no dia. Confirmando as suas suspeitas, o visitante se vê, logo após a refeição, numa situação de flerte e prevê um bom fim de noite assim que se fecham no quarto do casal.

Entretanto, ela morre. Assim, mal haviam começado a se despir. Não dera tempo de perguntar o que se passava, de saber com mais detalhes os sintomas do seu mal-estar, nem que ajuda chamar. Aquela jovem esposa, praticamente desconhecida e potencialmente amante, falecera nos seus braços, e Victor – assim se chama o nosso protagonista – vê-se num dilema que irá lhe consumir algumas horas da madrugada até que decida o que fazer a respeito.

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Esses dias, assistindo a uma reportagem sobre a tragédia humanitária venezuelana, me peguei pensando: “a quais dessas pessoas interessaria, nesse momento, ler o meu livro sobre felicidade?”. A resposta, por óbvio, foi “a ninguém”. Nossos vizinhos estão desesperadamente lutando pela própria sobrevivência, tentando passar por essa enorme crise econômica e, não tenho dúvidas, ignorando quase por completo questões que, em outras condições de vida, todo homem coloca para si mesmo em maior ou menor medida (sobre a própria felicidade, propósito de existência etc.).

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Há uma pergunta recorrente nas minhas aulas sobre literatura: “Tiago, como faço para perceber as nuances da história ou o tema do livro?”. Num geral, são alunos dedicados, interessados na obra em questão, e que desejam sinceramente ter um melhor aproveitamento daquilo que leem ou, em última instância, uma experiência estética mais fecunda. Afinal, que razão é mais legítima, para todas as horas gastas com as realizações da grande arte, do que o confessável desejo pessoal de mais vida?

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(Esta é a introdução da tese de mestrado em Antropologia que apresentarei em breve, no Instituto Universitário de Lisboa. Transcrevo-a por considerá-la parte comunicante dos meus interesses intelectuais e artísticos, e por isso merecedora de registro entre minhas outras publicações neste blog – que no fundo é um testemunho do “para onde” estou olhando.)

Esta tese parte de um pressuposto que considero evidente, do qual decorre a argumentação aqui apresentada: a experiência concreta é indizível. Dito isto, a premissa maior é a de que, confessada a incomunicabilidade daquilo que alguém testemunha, faz ou sofre, resta à linguagem oferecer caminhos de aproximação entre o sujeito que experimenta e o que recebe o seu relato articulado, mediado não só pela língua e sua estrutura, como por todos os outros elementos de cultura que tornam significantes o acontecimento transmitido. É essa tensão entre o que de fato aconteceu e o que se consegue traduzir com a narrativa, que subjaz a todos os tipos de conhecimento humano partilhado. E ao longo da história, o homem teve a presciência dessa condição limitadora, reconhecendo, de diferentes maneiras, que a base da conversação era, em última instância, a fé no testemunho do outro, que poderia ou não os conduzir a um lugar comum a que anuíam como verdadeiro.

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Georges Simenon confessava que, terminado um novo livro, procedia à revisão a fim de excluir todas as “frases bonitas” que houvessem ficado pelo texto por descuido seu. O escritor belga fazia coro a um tipo de minimalismo formal perseguido por tantos outros autores – como Hemingway ou Bukowski -, que tem como característica justamente a “ausência de adornos”, quer dizer, escrever apenas o estritamente necessário para que a história seja contada. Os acréscimos para efeito de gozo estético ou impressão positiva do leitor não eram, deste modo, bem vistos pelo criador do personagem Maigret, nem pelas outras vozes a que se juntava na realização de uma literatura clara e sem floreios.

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Recentemente a pedofilia voltou ao tropel de expressões que configura nossa grande mídia, as redes sociais e uma parte da conversação diária. É verdade que no fundo o assunto sempre esteve presente aqui e acolá, em projetos de lei, programas de televisão, revistas e jornais, debates político-partidários. Mas é inegável que nas últimas semanas o tema dos “direitos sexuais” das crianças e a relativização do ato criminoso – então passivo de compreensão em virtude da doença que acometeria o pedófilo enquanto vítima -, tomou a dianteira das preocupações coletivas nessa sociedade brasileira já bastante cumulada de problemas.

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Se quiséssemos compreender algumas das mudanças sofridas pela humanidade, em especial as dos últimos cem anos, uma história do amor talvez viesse a calhar. A maneira como amamos, como pensamos o amor e como tropeçamos ou não em seus caminhos, diz muito sobre quem somos e, ao longo do tempo, homens e mulheres foram amantes de diferentes matizes.

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Escrevo sob o impacto do documentário feito pela BBC com Ingmar Bergman – uma entrevista que o famoso cineasta concedeu em 2004, já com 88 anos, em sua casa na ilha de Fårö, Suécia. Entre reminiscências sobre seu passado familiar, sua trajetória como diretor e suas maiores influências na sétima arte, nos é dado conhecer um pouco da rotina do autor de Persona, Sonata de Outono etc. Logo no início do filme, Bergman revela começar seus dias com longas caminhadas, seguidas de horas de escrita e meditação – para só depois trabalhar, efetivamente, no seu estúdio caseiro. A primeira frase de impacto dita pelo cineasta dá título a este texto: “os demônios não gostam de ar fresco”.

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Aqui fala um prisioneiro à espera de algum tipo de absolvição. Escrevo, antes de mais nada, para mim mesmo. E confesso, no ato de contrição doloroso que segue a epifania do eu que atravessei recentemente, como é que a incompletude de ser que aleija todo homem também limita de não-ser a minha vida.

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O autor deste título é um grande amigo meu – um dos sujeitos mais inteligentes que conheço. Quando nos encontramos é certo que, pelo menos uma vez, entre risos e goles de vinho, repita seu adágio: “cultura não tá com nada”. Quem o diz, no entanto, é alguém que passou a maior parte da vida estudando, mergulhado na densidade de algumas obras clássicas da filosofia e da literatura, absolutamente interessado em cultura.

Mas, então, que ironia é esta do meu amigo?

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