Depois de um feriado prolongado, é comum escutarmos uns dos outros que “agora é preciso voltar à realidade”. A pergunta que não quer calar é: e quando é que saímos dela?

Já sabemos: nunca. É simplesmente impossível. O irreal, ou aquilo que é desprovido de realidade, por óbvio não reúne as condições para existir. A existência é uma qualidade daquilo que está na realidade, dela é parte, por ela é influenciada e com ela tem intimidade. É como pensar numa rede de pescaria, em que tudo está de alguma forma ligado pelos fios e nós que compõem aquela estrutura: cada uma de suas partes é real; todas as partes – aparentes ou não – são a realidade (inclusive todas as possibilidades da estrutura são parte da sua realidade). E o feriado, veja só, também.

É claro que quando um de nós se refere ao trabalho, à segunda-feira, ao início das aulas, à volta pra casa depois de uma viagem, como retorno à realidade, o faz de um modo que apenas aos homens é permitido: com têmpera. O termo é emprestado da metalurgia e usado em sentido figurado por Julián Marias. Serve para destacar a natural qualificação que fazemos da vida, de suas nuances, fases, idades, estados, feições (todas estas categorias também frutos da nossa vocação para o tempero da vida). O que o filósofo espanhol quer dizer é que a nossa instalação no mundo, nossa presença e atuação, tem diferentes tons, sabores, perspectivas, modos.

O tempo, por exemplo, “corre ininterruptamente”, e o dia de ontem é exatamente igual ao de hoje (do ponto de vista da duração). Mas qual de nós vai dizer que uma segunda-feira tem a mesma feição de um domingo, ou de uma data de aniversário? Quem confunde dia de trabalho com feriado? Quem não sabe que o tempo humano – portanto, não a sua realidade objetiva, marcada pela ausência de relação com a minha vida – tem qualidade? Que um minuto de espera pelo resultado de um exame importante não é a mesma coisa que a passagem de um minuto no trânsito enquanto canto minha canção preferida?

Dois séculos atrás tivemos a ideia de dividir os dias – previamente organizados em calendários – em laborais e de descanso: criamos o fim de semana, depois as férias. Demos um tom para as segundas e terças, outro para os sábados e domingos. E a partir de então, sair daquilo que tomamos por rotina é sinônimo de fuga da realidade; não “dA” realidade, como já foi esclarecido, mas da realidade de nossas têmperas, qualificações e modos de estar no mundo.

Para muitos, um carnaval é como um bilhete para um descanso da realidade ácida ou amarga, assim interpretada pelas contas atrasadas a serem pagas, pelos problemas no escritório a serem resolvidos, pelas dificuldades em casa a serem vencidas. Estas pessoas têm mesmo a sensação de estarem “saindo de suas vidas” por alguns dias; e estas mesmas pessoas são aquelas entediadas, ou pelo menos aborrecidas, por ter de reviverem a contingência do cotidiano, este algoz do lirismo, das ilusões, do romantismo, do brilho da novidade e do inusitado. Isto tem se agravado desde que o homem passou a catalogar tradição, o costume e a rotina como perigos para a sua sobrevivência – que é reconhecidamente uma tentativa de sátira dos dias, ou talvez uma desesperada aventura pela terra do nunca: nunca sofrer, nunca ser limitado, nunca ter de pensar, nunca ser contrariado, etc.

Nunca estivemos tão aborrecidos com os 300 dias dos ano sem festas, feriados ou férias como estamos agora. Trabalhamos para tirar férias, sendo que deveríamos fazer o contrário: tirar férias para poder continuar trabalhando (obviamente, em algo que nos realize, esteja de acordo com nosso projeto vital, seja signo de bondade, verdade e beleza e tudo o que também já estamos cansados de saber ser nosso dever enquanto homens e mulheres).

Se existe uma sensação de alívio em “sair da realidade” por um tempo, deixar as preocupações de lado e curtir um pouco a vida, existe um consolo maior em jamais ter de sair; em reconhecer o extraordinário que há no ordinário dos dias e confessar que o milagre que sustenta quartas-feiras e páscoas é o mesmo. É tudo uma mesma realidade, ordenada de forma plena, sublime, que requer de nós uma atitude no mínimo reverencial – tal como nos aponta Chesterton em seu Ortodoxia.

Ilusões, lirismo, projeção, consolo são também nós daquela rede a que nos referimos para falar da realidade. Não é preciso – nem possível – sair dela para imaginar, criar dias diferentes, temperar com mais elegância o pão nosso de cada dia.

Todos já sofremos a insossa força das obrigações e nos entediamos com a aparente repetição das semanas sem trio elétrico, fantasias ou viagens com amigos. Mas a vida humana – essa realidade que destina-se ao tempero do mundo (vós sois sal da terra) – não se sustenta com a oferta da sobremesa; ela é toda a rede, toda a experiência de provar o doce, o ácido, o intenso e o suave: ela é saciedade que advém da refeição que não peca pelo excesso ou pela falta e prima pela harmonia.

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