Ortega y Gasset diagnosticou, ainda na década de 20 do século passado, um dos fatos mais expressivos e reveladores do homem moderno: sua aspiração aos bens da juventude. No século XX ficou evidente que passamos a dar maior importância ao que compõe o mundo dos novos, feito de saúde, prazer, tecnologia e gracinhas. Em nenhum outro momento da história um quarentão desejaria tirar uma selfie vestindo regata.

Os exemplos são muitos – e que comprovam a visão de Ortega – mas o tema é mais profundo. Houve, nos últimos cem anos, uma mudança de perspectiva sobre a vida. Elementos que antes eram inimagináveis agora fazem parte do cotidiano e têm lugar garantido no altar da decência. Os velhos – valores, bens, pensamentos, pessoas – dificilmente escapam ao lugar-comum pejorativo que a massa lhes impôs (como uma pecha à qual se deve evitar absolutamente).

Não podemos envelhecer, não podemos dizer que Shakespeare é melhor que Paulo Coelho, não podemos xingar Romero Britto. “Retrógrado”, “obsoleto”, “ultrapassado” são alguns dos adjetivos dispensados aos que se aventurem em trajetórias mais intensas, desaprovadas pelas passarelas da curtição, e provavelmente compartilhadas por homens de outros tempos – fosse um camponês medieval, um aristocrata ao estilo Jane Austen ou simplesmente alguém que enxergasse no decoro e elegância posturas desejáveis.

Os valores antigos, no sentido de opostos ao modernismo reinante, são mais acomodados a realidades supratemporais; podemos dizer que aspirar à nobreza ou a bens espirituais estava mais presente entre os sonhos íntimos dos homens e mulheres de décadas atrás. Não consigo imaginar uma mãe de família em 1915 gastando mais tempo com academia do que com religião ou cuidado da casa. Nem um homem da minha idade preferindo ser chamado de “cara” ou tendo um vocabulário tão ridículo quanto o de um adolescente modelado pelas letras de pagode.

A fonte da eterna juventude, tema de tantas histórias e contos, tornou-se um perigo justamente porque passamos a encará-la como possível. Se antes era apenas um exercício de imaginação e de simbolismo, hoje é forma biográfica: as idades da vida humana foram homogeneizadas; o tiozão e o moleque reconhecem na realidade as mesmas alturas. Talvez seja por isso que pais e mães reclamem tanto do “desrespeito à autoridade” praticado pelos filhos.

Ortega mencionou a importância que o homem-massa passou a dar ao esporte. É nesta atividade humana que vemos condensadas boa parte das ilusões e pretensões atuais, como o corpo saudável, a pele bonita, a mente aberta, etc. Aqueles saberes de biblioteca, de vida acumulada com os anos, de sacrifícios espirituais, de prudência e gravidade foram substituídos. Na intensidade com que atualiza as “excelências” aspiradas pelas nossas gerações, Justin Bieber é nosso herói.

E se você torceu um pouco o nariz ao ler este texto, só posso te dar um último conselho (indesejado, eu sei): cresça.

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