A série Black Mirror, depois de produzidas três temporadas, talvez figure como uma das mais agudas e sombrias imagens de nossa vida moderna. Aguda, porque não condescende com os possíveis espectadores sensíveis à forma nua e crua de se revelar uma verdade; sombria, pois opta por tratar de realidades humanas quase não alcançadas
pela luz ofegante do debate público vigente; por ser ofensiva ao bom mocismo dominante na linguagem, à discriminação que não podemos sentir, ao palavrão que não podemos mais soltar, ao desejo que a decência não nos outorga experimentar.
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Cada episódio é como um soco no estômago do politicamente correto – em alguma medida análogo aos golpes dados por Zeus em seu pai Cronos e que faziam o titã regurgitar toda a vida devorada até ali. Nisto a série não é tão inovadora assim. Afinal, outras produções já o fizeram à sua maneira, e o teatro e a literatura se encarregaram ao longo dos séculos em ser instrumentos de mergulho na condição humana, ao mesmo tempo em que expunham, como num espelho e segundo seus critérios artísticos específicos, o reflexo daquilo que tocavam e que ajudava seu público e seus leitores a perceberem melhor a si mesmos. Quando Sófocles encenou sua mais famosa tragédia pela primeira vez, cada grego presente naquele festival deve ter reconhecido algum nível de cegueira e impotência pessoal quando assistido o drama de Édipo. Desde que François Mauriac publicara seu Nó de Víboras – diário e testamento de um personagem-narrador a caminho da morte – seus leitores têm naquelas páginas uma forma do arrependimento biográfico, da constatação dolorosa e sincera do ninho de sujeiras e maldades que cada um possui e
que leva a um autoconhecimento salvador nalgum sentido.
Mas nosso tempo, as crenças vigentes encarnadas nos homens de agora, não parece simpático aos espelhos negros apresentados pelos grandes mestres da literatura, do teatro, do cinema e das artes em geral (e até mesmo da filosofia e das ciências humanas, muitas vezes também elas grandes objetos de reflexão do obscuro). Podemos dizer que vivemos uma época de antissepsia, de ocultação sistemática dos cadáveres que sepultamos negligentemente ao longo de nossas trajetórias e que contêm sempre um pouco de nós, ainda que para nossa vergonha e dissabor existencial. Que nenhum homem ou mulher goste de tocar as próprias misérias e fracassos é óbvio; que esses conteúdos tenham se tornado inconfessáveis para si mesmo, penso ser recente em nossa história.

A praça pública na qual transcorrem cada vez mais aspectos e realidades da nossa vida humana – num movimento de estatização e socialização até mesmo do foro mais íntimo – é bastante cruel com os dissidentes, os mal lavados do convívio tal como projetado nessa “reedição atualizada” de 1984 (de Orwell) e adequada às circunstâncias
em que nos inserem como personagens. A televisão, por exemplo, é um sinal de evidência do que estou tentando argumentar: seus apresentadores, âncoras e rostos principais parecem ganhar salários conforme os sorrisos distribuídos e o número de afagos de ego destinados. Sendo ainda mais cáustico, a mídia (em geral) parece um
grande tributo a unicórnios e fadas coloridas sob a melodia de uma canção Disney. Neste mundo encantado, não existem animais noturnos, linha de sombras, face oculta, perfídia ou os sete pecados capitais. A cultura da massa é um tubo de álcool gel contra todo tipo de verme.
Black Mirror  The Waldo Moment l-r:  Liam Monroe (Tobias Menzies), Gwendolyn (Chloe Pirrie), Robert (Jack Monaghan) and Simon Finch (Louis Waymouth)

Black Mirror The Waldo Moment
l-r: Liam Monroe (Tobias Menzies), Gwendolyn (Chloe Pirrie), Robert (Jack Monaghan) and Simon Finch (Louis Waymouth)

E a grande questão é que, no fundo e de fato, toda essa fauna da escuridão existe e está lá, a nos espreitar e sorver nossas vidas com ou sem o nosso consentimento. É isto que se depreende de Blue Velvet (1986), filme icônico de David Lynch, em que um jovem se embrenha numa sórdida história de crime, prostituição e neuroses sexuais, realidades nas quais estão envolvidos alguns membros da pacata comunidade em que nascera. Os insetos que aparecem às primeiras e últimas cenas são no mínimo simbólicos da presença dessa nota inferior que também compõe a alma humana, feita, portanto, de contradições, tensões e lutas. E como homens sempre necessitaremos de meios para exprimir ou dar vazão a este corpo de trevas que altera nosso odor e nos desabona perante nós mesmos e perante os outros quando admitido à superfície da alteridade. É preciso confessar nosso estado miserável, em primeiro lugar, e depois buscar as formas de dizê-la sem ser paralisado por ela; sem que o mal exerça seu fetiche e como Medusa nos petrifique segundo a imagem de horror descoberta. Os conteúdos na face do espelho podem ser sombrios, mas antes dominá-los do que por eles ser dirigidos – numa trajetória que nos escaparia por simplesmente deixar de ser verdadeira e autoral.
O que Black Mirror parece também fazer é um vaticínio: seus enredos são como grandes alertas do que muito em breve podemos nos tornar, caso subsista esse império de polidez e fingimento de intenções, e a virtualidade sobreponha-se ao suor da vida e às dores do limite humano que nos esforçamos não revelar na conta do instagram ou na foto de perfil do facebook. Reparemos no debate político atual, nas relações humanas que travamos, nos diferentes produtos que consumimos para nosso prazer, e acabaremos por admitir, acredito, que é chegada a hora do resgate da vida humana em seus marcantes contornos – cinzentos ou não – para nosso próprio bem. A Divina Comédia, como imortalizada por Dante, é uma viagem que começa no inferno.
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