Anos atrás li “O simbolismo na mitologia grega”, de Paul Diel. Se me pedissem uma lista de livros que marcaram minha trajetória como professor, certamente incluiria este. Nunca mais mencionei em aula a batalha pessoal de Perseu contra Medusa sem fazer alusão à interpretação do grande psicólogo austríaco.

Foi com ele também que aprendi sobre os trágicos erros de acomodação e expressão da realidade vivida pelo sujeito. É comum que as pessoas sofram do que ele chamou de “exaltação imaginativa“. Quando se padece dela, todo conteúdo percebido é inflado pelo indivíduo. Se o fulano tem algum talento, supervaloriza-o; se reconhece a presença de um vício, torna-a mais fatal do que realmente é. Em suma, os exaltados extrapolam os limites do real e têm sérias dificuldades para dizer as coisas como elas são. Carregam nas tintas, caem na inverossimilhança: o pior dos salários é sua atitude histérica diante do mundo. Como adolescentes, tiram as conclusões mais “sentimentais” da vida, repetindo jargões do tipo “é a pior coisa do mundo”, “não existe nada mais horrível”, “sou a pessoa mais obtusa da Terra”, “ninguém jamais me levará a sério”, “nunca conheci alguém tão cruel”.

Talvez um dos erros que nós brasileiros mais cometemos em relação às nossas interpretações do Brasil seja justamente este: exaltados, tornamo-nos incapazes de ver as coisas em seus devidos tamanhos, qualidades, gravidade, etc. Aquilo que aplicamos às discussões sobre futebol, aplicamos a quase tudo: “é o técnico mais burro que já tivemos”. Tudo é levado a um extremo que não condiz com o real. E isto parece ser um dos nossos pecados típicos: não nos encontramos com as substâncias, mas com suas aparências tal como as compomos em nossos fantasmas interiores.

É preciso o mínimo de cuidado para se falar de um país – especialmente o nosso, de dimensões continentais, riquezas e complexidades ímpares no mundo. É fato que somos um dos povos que menos lê; que agimos com imprevidência; que temos preguiça para um série de coisas valorosas; que somos ignorantes em relação à nossa história e que, como expusera Ângelo Monteiro, grande parte das vezes pensaremos apenas em lavar a própria égua. Entretanto, também é verdade que somos um dos povos mais acolhedores do mundo; que dificilmente nos superem em criatividade na condução da vida cotidiana e trato dos problemas; que tivemos políticos, intelectuais e artistas de fazer inveja a qualquer nação européia; que nossa música popular – Noel Rosa, Cartola, Pixinguinha, Gonzaga Pai e Filho, Chico Buarque, Ivan Lins, Tom Jobim e Vinícius, etc – é insuperável em ritmo, melodia e força emotiva; que conseguimos fazer um país com uma área de mais de 8 milhões de quilômetros quadrados sem grandes guerras (apenas breves batalhas pontuais).

A atitude madura diante da pátria e sua respectiva realidade social não é a do adolescente histérico que “macaqueia”, com a mesma intensidade que sua, os lugares-comuns tirados das aulas de História ou dos artigos exaltados de jornalistas frustrados por não viverem nos EUA. Eu aspiro à  mesma maturidade de um Gilberto Freyre: o homem que viu nas nossas danças uma expressão única de beleza; nas receitas feitas na Senzala uma inovação culinária relevante; na relação dos brasileiros com os santos e a Igreja uma nova forma de viver a fé sem negar a sensualidade dos corpos; na miscigenação das raças um fruto admirável. Sem dispensar as críticas ou ignorar as falhas históricas ou estruturais do povo, Freyre é o modelo de nacional que, a meu ver, deveríamos seguir.

A exaltação imaginativa nos impede de projetar verdadeiramente. É este complexo de vira-lata que nos acusa o tempo todo de fazer o mal que jamais cometemos, que ofusca nossa visão do passado e consequentemente deturpa as antecipações: não temos como sonhar algo diferente daquilo que acreditamos ser a nossa sina. Uma vida tal como é narrada é vivida. Enquanto repetirmos que somos os piores do mundo, seguiremos sendo.

Mas qualquer mudança na apreensão dessa realidade coletiva, que passa necessariamente pela narrativa histórica dos fatos e conjunturas como se deram verdadeiramente, terá que começar em cada um de nós. Sou eu quem precisa possuir a própria história, que está inserida na nacional e com ela “dialoga” constantemente. Sou eu o exaltado; tenho a preguiça, indisposição, mediocridade, corrupção e todos os outros deméritos que confiro ao povo de maneira inflada. Assim, acontece no Brasil a famosa “projeção” psicológica, acrescida da exaltação de que falara Paul Diel: lançamos na realidade social as responsabilidades e limites pessoais, exagerando em seus tamanhos e conclusões decorrentes.

Todo 7 de setembro é um convite tímido, como nossa vontade de melhorar; ao resgate de si e consequente alcance da única independência que torna qualquer um verdadeiramente livre: aquela que informa a identidade (do latim identitas, que quer dizer “o mesmo”). Se o inferno começa na comparação é por uma simples razão: ela cria a ilusão da alteridade existencial, como se fosse possível sermos outros que não nós mesmos.

Uma das coisas mais irritantes no Brasil é sua burocracia (bem sabemos). Então que deixemos de lado o modo rígido e vazio de ver as coisas. Contra a burrice estéril dos carimbos, a confissão da vida como ela é. O reconhecimento que apenas o sangue é capaz de oferecer e a experiência confirmar.

“Longe vá … temor servil.”

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