Quando eu digo que é preciso recuperar a radicalidade existencial, não estou me referindo a extremismos, abstracionismos ou rigidez moral: minha perspectiva é a da intensidade, um dos fatores determinantes, segundo os filósofos espanhóis da Escola de Madri, na realização de uma vida plena e sem os riscos do minimalismo vital (postura de uma boa parte das pessoas que não arriscam, não decidem por uma coisa e buscam desesperadamente a “economia de vida”).

Intensos são aqueles que empregam forças, energia, tempo e dinheiro numa trajetória que os define; conscientes do destino que pretendem viver, não se eximem das responsabilidades decorrentes e escrevem suas biografias com a mais admirável moral que existe: a de ser fiel a si mesmo, realizando no plano geral da própria vida aquilo que entendem por vocação pessoal. Erram nos detalhes – que podem vir a ser imorais -, mas acertam na adesão sincera ao sistema vital que reconhecem, assumindo a complexidade da vida humana, sua altura e profundidade. Como diria Julián Marias, os homens e mulheres moralmente felizes são aqueles que percebem e aceitam a dramaticidade da realidade que os cerca e compõe, tendo um horizonte de consciência digno da espécie a que pertencem.

Por isso, é imoral tratar a vida humana de forma genérica; não existem homens em abstrato, mas Exupéry, Tony Ramos ou Getúlio Vargas. São homens de carne e osso, e se quisermos julgá-los, precisaremos primeiro compreender a trajetória radical a que estavam destinados e que viveram com maior ou menor liberdade. Grandes homens são os que absorvem maiores “porções” da realidade humana, dando a elas uma expressão única com a vida que levaram. “Bondade”, que ninguém pode negar se tratar de uma virtude, não tem o mesmo matiz nas vidas de Madre Teresa de Calcutá e Gandhi. “Inteligência” é uma força que assume feições bem diferentes na vida de um filósofo como Aristóteles e na de um inventor e empresário como Steve Jobs.

De que se trata tudo isso? Da riqueza e complexidade da vida humana; e do perigo – um verdadeiro desamor – dos julgamentos prévios, mesmo que ancorados na Bíblia (o que se torna ainda mais lamentável). Usar do Antigo ou do Novo Testamento para apontar aos outros o que têm de fazer é, a meu ver, um risco. Se as leis gerais, universais e eternas existem – como é o caso dos 10 mandamentos, por exemplo – elas requerem do vivente uma aplicação concreta e individual (como ensina São Tomás). Respondam: o que fazer com Viktor Frankl, que fez o suicídio assistido do próprio pai? Ou com Alan Turing, o matemático britânico que, desvendando o código nazista durante a Segunda Guerra, literalmente escolhia quem devia viver ou morrer, a fim de não permitir que os alemães percebessem que seus comandos de ataque haviam sido descobertos (assistam ao excelente “O jogo da imitação”). Detalhe: Turing era homossexual, algo ainda mais escandalizante para os moralistas das redes sociais.

Em seu livro “Tratado do melhor”, Julián Marias expõe sua perspectiva desta realidade intrínseca do homem (a moralidade): justamente por ser livre, o homem pode escolher entre o bom e o mau, o pior e o melhor, etc. E a vida torna-se admirável à medida que o indivíduo, radical em sua trajetória principal de vida, consegue seguí-la sem corrompê-la, diminuí-la ou falseá-la. Entretanto, durante sua vida, obviamente incorre numa série de erros, tropeços e pecados; mas o determinante, aquela parte do mundo na qual deposita seu coração e encontramos seu tesouro, segue observado. Fiel à promessa de realizar a si mesmo, o homem moral não é um legalista rígido, mas um testemunho amoroso.

Confesso que cada vez que leio ou escuto certas prescrições de vida (nunca leia isso, tenha tantos filhos, não fume, só gaste tempo com rezas e orações, jamais permita que seus filhos assistam àquilo, etc) dou um sorriso de canto (maroto, bem maroto) e penso: “ah, que inveja de você, que enxerga a vida como um quadradinho, e que se sente muito afinado porque nunca pisa fora das linhas”.

Termino com a famosa frase de Chesterton, no livro Ortodoxia: “meus pais eram respeitáveis, porém, honestos”.

Todo cuidado com os respeitáveis, senhores.

 

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