Hoje dei palestra numa fundação para meninos aqui da região de Curitiba. Lá vivem crianças e adolescentes que cometeram algum tipo de delito (ou vários) e que não têm outro lugar que os acolha. São sessenta assistidos que, além de ir para escola, têm de frequentar alguns cursos no contraturno; também recebem orientação psicológica e espiritual. Hoje era uma espécie de “dia da família” e fui convidado para falar não só para estes meninos como também para seus pais, irmãos etc.

Eu poderia escrever um texto sobre culpabilidade agora. Ou, quem sabe, alguma reflexão acerca da violência, da pobreza e dos elementos que levam meninos de nove anos a entrar para o tráfico. Mas, sinceramente, creio que saibamos dessas e de tantas outras realidades ditas sociais. Números estão por aí, em páginas oficiais, centros de pesquisa e trabalhos universitários. Ciente disso, não serei aquele a repetir os dados como um profeta do fato acontecido.

O que realmente salta aos olhos, e que condiz com a antropologia filosófica muito mais do que com a sociologia, é a gravidade da vida. Mais: a necessária consciência de destino e da estrutura fatalista da realidade. Pois, é preciso lembrar, aquilo que fazemos não desacontece. Por mais redimidos ou reeducados que estejamos – e que firmemente nos coloquemos contra aquilo que um dia praticamos e hoje reconhecemos como mal – nada, absolutamente nada, fará apagar do tempo nossas ações. A história pessoal é um fatalismo em relação ao passado, já que nenhum homem ou mulher pode reordenar as sucessões biográficas que o trouxeram até o presente. Se males foram cometidos, escritos eles estão.

Essa impossibilidade a que me referi – a de refazer a trajetória, apagando fatos como num transe hipnótico – é uma das características da vida humana que conferem gravidade, dor e inexorabilidade às nossas vidas. Basta você pensar um pouco, com certa profundidade, e notará que seu próximo ato irá se inscrever na sucessão de atos pessoais e, por conexão, na dos coletivos também, compondo o que chamamos de história (humana, brasileira, individual, etc). Assim, a prudência, reflexão e boa intenção destacam-se como práticas desejáveis entre aqueles que não querem fazer de suas vidas um lamento repetitivo, do tipo “eu não queria ter feito”

Cada um dos meninos que hoje conheci, e respeitadas suas individualidades, está exatamente no ponto de sua trajetória pessoal que poderia estar: suas ações o levaram até ali, neste lugar a que, com maior ou menor consciência, cada um quis chegar. É esta outra característica do tempo: a de “respeitar” nossas escolhas, sendo continente para nossos conteúdos eleitos. Talvez uma das piores constatações da infelicidade seja justamente esta: perceber-se no ponto biográfico que escolhera estar. O fatalismo não poupa aqueles meninos; nem a mim, nem a você.

Mas a mesma história – com toda essa carga de gravidade – é vivida em duas dimensões simultaneamente: na temporal, de que nos ocupamos até aqui, e na eterna. Na eternidade todos os fatos são integrados sob outra lógica – que não a fatalista apenas: a da sabedoria Divina, que governa o mundo desde o pré-tempo até o Juízo Final. É por confiarmos nesta outra lógica – que não exclui a primeira, mas a contém – que seguimos nossas vidas de maneira esperançosa: pedimos que todos os atos, mesmo os piores, sirvam a um propósito que não compreendemos completamente, mas que podemos intuir se nos propusermos a tal. A literatura, o cinema e a arte em geral já nos legaram milhares de exemplos desta bidimensionalidade vital, e pelo menos desde Santo Agostinho estamos um pouco mais conscientes de que nossas trajetórias não podem ser desfeitas em nada, mas que a graça e o sentido que operam desde “fora do tempo” nos reafirmam como personagens de uma história de salvação.

Contei abreviadamente àqueles meninos a vida de São Dimas, o “bom ladrão”. E disse que sua santidade só foi possível por dois motivos: porque o Senhor a concedeu, e porque aquele homem entregou toda a sua trajetória fatalmente vivida às forças de um novo tempo. Um tempo que não leve apenas o passado, mas principalmente o futuro em consideração.

 

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