Se quiséssemos compreender algumas das mudanças sofridas pela humanidade, em especial as dos últimos cem anos, uma história do amor talvez viesse a calhar. A maneira como amamos, como pensamos o amor e como tropeçamos ou não em seus caminhos, diz muito sobre quem somos e, ao longo do tempo, homens e mulheres foram amantes de diferentes matizes.

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Escrevo sob o impacto do documentário feito pela BBC com Ingmar Bergman – uma entrevista que o famoso cineasta concedeu em 2004, já com 88 anos, em sua casa na ilha de Fårö, Suécia. Entre reminiscências sobre seu passado familiar, sua trajetória como diretor e suas maiores influências na sétima arte, nos é dado conhecer um pouco da rotina do autor de Persona, Sonata de Outono etc. Logo no início do filme, Bergman revela começar seus dias com longas caminhadas, seguidas de horas de escrita e meditação – para só depois trabalhar, efetivamente, no seu estúdio caseiro. A primeira frase de impacto dita pelo cineasta dá título a este texto: “os demônios não gostam de ar fresco”.

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Aqui fala um prisioneiro à espera de algum tipo de absolvição. Escrevo, antes de mais nada, para mim mesmo. E confesso, no ato de contrição doloroso que segue a epifania do eu que atravessei recentemente, como é que a incompletude de ser que aleija todo homem também limita de não-ser a minha vida.

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O autor deste título é um grande amigo meu – um dos sujeitos mais inteligentes que conheço. Quando nos encontramos é certo que, pelo menos uma vez, entre risos e goles de vinho, repita seu adágio: “cultura não tá com nada”. Quem o diz, no entanto, é alguém que passou a maior parte da vida estudando, mergulhado na densidade de algumas obras clássicas da filosofia e da literatura, absolutamente interessado em cultura.

Mas, então, que ironia é esta do meu amigo?

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Fugitiva, de Alice Munro, é uma ótima imagem daquilo que podemos chamar “medo da verdade”. O conto tem como protagonista Carla, uma jovem esposa que vive com um homem mais velho e responsável por convencê-la de alguns pequenos desvios biográficos – como a fuga da casa dos pais, empreendida ainda no final da adolescência – e de tratá-la de modo frio, sem qualquer concessão às suas necessidades e vontades (além de demonstrar, numa questão específica da história que a narradora vai nos contando, um quê de perversão). Carla, pelo que passamos a saber logo nas primeiras páginas, está numa circunstância de vida infeliz, daí que, enquanto leitores, esperemos por algum acontecimento que a evada disso.

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No século XIV, os otomanos – povo de origem turca que, àquela altura, formava um império transcontinental – invadiram a península balcânica. Dominaram, a partir de 1354, aquilo que hoje identificamos como sendo os Estados da Albânia, Macedônia, Bósnia, Sérvia e outros da região. Ainda no mesmo período, um sérvio destacou-se como líder da resistência nativa, tornando-se um grande libertador e, por isto mesmo, reconhecidamente herói. Chamava-se Marko (Марко Мрњавчевић, para atender aos mais exigentes), e sua história atravessou colinas e fronteiras, persistindo no tempo como forma de testemunho da bravura e engenho sérvios. Para além de todo o estudo feito de sua vida, através das fontes preservadas desde a Idade Média, suas realizações assumiram, no teatro do povo, as feições de um mito, cultivado a partir das lendas, cânticos e invenções que desde então lhe são dedicadas. Isto tudo para dizer que há Marko, de fato, e Marko, o mitificado, não menos real.

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Oprah Winfrey, em seu discurso de agradecimento pelo prêmio Cecil B. DeMille, recebido na cerimônia dos Globos de Ouro 2018, disse, entre outras coisas e num tom inflamado, que a era dos homens poderosos chegou ao fim. Aplaudida fervorosamente por uma plateia de homens e mulheres da indústria do cinema e da televisão, suas palavras foram amplamente difundidas pelos dias seguintes, tomadas como exemplo de empoderamento feminino e de um golpe em cheio contra o machismo e as velhas normas sociais que, a seu ver, constrangem há muito as mulheres e outras minorias. 

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O Natal se aproxima e, com ele, os delírios da nossa fraqueza: inconfessável, nutrimos no íntimo de nossas almas uma esperança de cariz revolucionário, já que agarrada por fios de angústia a uma mudança de vida que, se olhada mais de perto, deveria ter sido feita pouco a pouco durante todo o ano em que nada fizemos. As canções de costume, com seus sinos a reverberarem agudamente em nossas consciências, servem à ansiedade do tempo; caímos, semana após semana do advento, numa espiral de fuga dos próprios pensamentos acusatórios, surda aos gritos do coração que teimam – como os sinos das canções – tilintar dentro de nós.

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Um sensível abatimento do processo de individuação está em curso; uma diminuição do espaço de autopoiese em que cada um desenvolve a própria vida e, em termos quase literais, faz a si mesmo. É a perda ou substituição desta zona de criação pessoal que, por caminhos diferentes, encerra a pessoalidade num corredor estreito de trajetórias genéricas e imputação alheia de responsabilidades. Em outras palavras, esse lugar onde reina o mimetismo e a voz passiva é a fábrica de milhões de “algos”, processo metaforicamente industrial a partir do qual o eu, expressão inconfundível de alguém, imiscui-se num terreno baldio.

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