Ainda quero escrever uma história em que um rapaz conhece uma garota. Isto e mais nada: dois jovens, a boa e velha paixão, algumas dificuldades, e finalmente a felicidade dos amantes. Tenho para mim que será um romance difícil de ser escrito e, talvez por esta razão, mantenha-o como possibilidade futura – dentre as ilusórias imagens de realização artística que cultivo sobre o amanhã; e sobre o depois de amanhã.

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Um voo pela obra de Antoine de Saint-Exupery.
Neste segundo semestre, nos dedicaremos à leitura e estudo da obra de Exupery, mundialmente conhecido pela escrita de O pequeno príncipe. Como este, seus outros livros são igualmente tocantes, sensíveis e justificam um “tour literário” como o nosso – uma viagem reflexiva sobre como esse grande homem, aviador e escritor, enxergava o mundo e retinha suas experiências.

Então existe o ser e não o nada. Lá fora, aqui dentro, lados de uma mesma moeda: uma presença magna, ubíqua e permanente está em todas as coisas e além delas, e de alguma maneira sempre o soubemos. Nenhum dos homens contou verdadeiramente com a possibilidade contrária. A experiência do vazio existencial ou a incerteza sobre um logos que tudo signifique e a tudo dê coesão, não deixam de ser sofrimentos a posteriori: se deles temos padecido é porque estamos num mesmo dramático palco de luz e sombras – eu e o poeta português suicida, você e aquela antiga camponesa de tempos idos. Todos que ja perguntamos ou não pela existência e seus contornos, seus segredos ou aldrabices, existimos; mais: sentimos, mesmo quando resistentes, que não deve haver aniquilação daquilo que julgamos ser. É inconcebível para o eu, diria Julián Marías, a sua extinção pós-morte. Disso decorre o meu ponto de partida neste argumento: a pergunta pelo ser ou pelo sentido de ser é, em palavras diretas, um tipo de canalhice. Só pergunta aquele que é. Descartes estava sentado numa cadeira, provavelmente vestido e alimentado, quando duvidou de um fundamento comum e irrestrito que não fosse ele mesmo.

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Algo da religiosidade humana tem me provocado algumas questões pontuais ultimamente. Uma delas é esta: qual é a medida ponderada, harmônica, da repetição das palavras dirigidas a Deus? Quando nos dispomos a chamar o Seu nome, falar em Sua realidade e manifestações no tempo, culpar, responsabilizar ou perdoar em Seu lugar, atravessamos ou não uma linha imaginária do sentido, aquela que garantiria que cada uma dessas palavras sagradas fossem proferidas ainda sincera e reverencialmente? Dito de outra maneira: até que ponto podemos ir no uso do nome de Deus e de suas supostas ações antes que desrespeitemos o segundo mandamento e tudo se torne vão?

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O leitor imagine a seguinte cena: um homem é convidado por uma mulher para jantar em sua casa. Os dois se viram duas ou três vezes antes disso. Ela é casada, mas o marido está viajando no dia. Confirmando as suas suspeitas, o visitante se vê, logo após a refeição, numa situação de flerte e prevê um bom fim de noite assim que se fecham no quarto do casal.

Entretanto, ela morre. Assim, mal haviam começado a se despir. Não dera tempo de perguntar o que se passava, de saber com mais detalhes os sintomas do seu mal-estar, nem que ajuda chamar. Aquela jovem esposa, praticamente desconhecida e potencialmente amante, falecera nos seus braços, e Victor – assim se chama o nosso protagonista – vê-se num dilema que irá lhe consumir algumas horas da madrugada até que decida o que fazer a respeito.

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Esses dias, assistindo a uma reportagem sobre a tragédia humanitária venezuelana, me peguei pensando: “a quais dessas pessoas interessaria, nesse momento, ler o meu livro sobre felicidade?”. A resposta, por óbvio, foi “a ninguém”. Nossos vizinhos estão desesperadamente lutando pela própria sobrevivência, tentando passar por essa enorme crise econômica e, não tenho dúvidas, ignorando quase por completo questões que, em outras condições de vida, todo homem coloca para si mesmo em maior ou menor medida (sobre a própria felicidade, propósito de existência etc.).

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Há uma pergunta recorrente nas minhas aulas sobre literatura: “Tiago, como faço para perceber as nuances da história ou o tema do livro?”. Num geral, são alunos dedicados, interessados na obra em questão, e que desejam sinceramente ter um melhor aproveitamento daquilo que leem ou, em última instância, uma experiência estética mais fecunda. Afinal, que razão é mais legítima, para todas as horas gastas com as realizações da grande arte, do que o confessável desejo pessoal de mais vida?

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(Esta é a introdução da tese de mestrado em Antropologia que apresentarei em breve, no Instituto Universitário de Lisboa. Transcrevo-a por considerá-la parte comunicante dos meus interesses intelectuais e artísticos, e por isso merecedora de registro entre minhas outras publicações neste blog – que no fundo é um testemunho do “para onde” estou olhando.)

Esta tese parte de um pressuposto que considero evidente, do qual decorre a argumentação aqui apresentada: a experiência concreta é indizível. Dito isto, a premissa maior é a de que, confessada a incomunicabilidade daquilo que alguém testemunha, faz ou sofre, resta à linguagem oferecer caminhos de aproximação entre o sujeito que experimenta e o que recebe o seu relato articulado, mediado não só pela língua e sua estrutura, como por todos os outros elementos de cultura que tornam significantes o acontecimento transmitido. É essa tensão entre o que de fato aconteceu e o que se consegue traduzir com a narrativa, que subjaz a todos os tipos de conhecimento humano partilhado. E ao longo da história, o homem teve a presciência dessa condição limitadora, reconhecendo, de diferentes maneiras, que a base da conversação era, em última instância, a fé no testemunho do outro, que poderia ou não os conduzir a um lugar comum a que anuíam como verdadeiro.

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Georges Simenon confessava que, terminado um novo livro, procedia à revisão a fim de excluir todas as “frases bonitas” que houvessem ficado pelo texto por descuido seu. O escritor belga fazia coro a um tipo de minimalismo formal perseguido por tantos outros autores – como Hemingway ou Bukowski -, que tem como característica justamente a “ausência de adornos”, quer dizer, escrever apenas o estritamente necessário para que a história seja contada. Os acréscimos para efeito de gozo estético ou impressão positiva do leitor não eram, deste modo, bem vistos pelo criador do personagem Maigret, nem pelas outras vozes a que se juntava na realização de uma literatura clara e sem floreios.

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Recentemente a pedofilia voltou ao tropel de expressões que configura nossa grande mídia, as redes sociais e uma parte da conversação diária. É verdade que no fundo o assunto sempre esteve presente aqui e acolá, em projetos de lei, programas de televisão, revistas e jornais, debates político-partidários. Mas é inegável que nas últimas semanas o tema dos “direitos sexuais” das crianças e a relativização do ato criminoso – então passivo de compreensão em virtude da doença que acometeria o pedófilo enquanto vítima -, tomou a dianteira das preocupações coletivas nessa sociedade brasileira já bastante cumulada de problemas.

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