A recente celeuma em torno de uma decisão judicial que permitia, aos psicólogos que assim se propusessem, o acompanhamento terapêutico de pessoas infelizes ou angustiadas com a sua homossexualidade, com vistas a uma alternativa de comportamento sexual, pouco me interessa pelo seu aspecto político: as manifestações mais ou menos histéricas e entrincheiradas ideologicamente, de todos os lados do campo dos partidos, são matéria para outras reflexões. O que a conjuntura revela – e sobre o que tenho pensado recentemente -, é o componente dramático que parece inerente à condição sexuada humana, capaz de fazer sofrer, de gerar os mais tortuosos dilemas psíquicos e existenciais, além de servir de tábua aos jogos do poder e engenharia social – coisa a que já vamos nos acostumando neste tempo de açambarcamento da vida em cada um de seus componentes, seja pelo Estado, seja pela mídia, seja por qualquer outro agente decidido a esquadrinhar o mundo pessoal.

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As notícias nos arrastam, para lá e para cá, como se ventos fortes e incontornáveis. Quanto mais conectados às redes sociais ou mais atentos aos canais que veiculam os acontecimentos do dia, mais tumultuados ficamos, sem perceber que a instalação no mundo não tem raízes no passageiro, mas no solo firme do que permanece.

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Herbert Marcuse publicou, em 1964, um pequeno livro sobre os supostos efeitos da industrialização e das armadilhas modernas – leia-se, capitalistas – no ser humano. “A ideologia da sociedade industrial”, como foi publicado no Brasil, é um interessante texto sobre aquilo a que Marcuse chamou de homem unidimensional: o indivíduo que, açambarcado pela lógica da racionalização dos contrários, crente nas promessas alvissareiras da tecnologia, carece de tensões e vive como se não houvessem verdadeiros mistérios e dramas insolúveis. A vida humana, para este novo tipo social, é uma equação bastante simples, e os elementos indesejáveis que teimosamente emergirem, sugerindo algum pequeno caos à ordem tão comezinha por ele cultuada, têm de ser resolvidos pelos engenheiros da paz em que acredita sem pestanejar. Trata-se de um crente, sem dúvida.

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É certo que a vida assemelha-se a um campo de batalha onde nem mesmo os soldados feridos podem descansar. Há dificuldades inerentes e artificiais, dor e enfermidades, angústia e perda, contingência e morte. Quem tenha saído daquela adolescência existencial – coisa nem sempre condizente com a idade -, sabe o suficiente para não mais cultivar ilusões sobre uma realidade que, em si mesma, é incompatível com delícias sem limites e clima de festa dionisíaca permanente. Portanto, assumida a perspectiva de que viver é mesmo um ato de fé no sentido último das lutas que aqui travamos, resta, a meu ver, encontrar a maneira possível de o fazê-lo sem que nos tornemos amargos, neuróticos ou pessimistas, incapazes de reconhecer neste mesmo lugar de desconcertos aquela parte – aquela pequena e imprescindível parte do mundo – em que uma fonte sacia nossa sede e abranda todo o sofrimento.

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PREÂMBULO DE ESCLARECIMENTO

As cenas aqui narradas são fictícias. Qualquer semelhança com a realidade não é mais do que uma irônica coincidência.

Nosso narrador é oculto, estava e não estava no ambiente dos fatos; participara atentamente sem que palavra alguma dissesse. Seu relato é preciso, bem feito, de quem olha com interesse os fenômenos humanos que vão do louvável ao ridículo. Sua história apareceu em meu computador sem maior explicação, entre uma conferida e outra das redes sociais, fofocas mais quentes e imagens mais perturbadoras. Em posse do enredo, transcrevo-o tal como se me revelou.

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A série Black Mirror, depois de produzidas três temporadas, talvez figure como uma das mais agudas e sombrias imagens de nossa vida moderna. Aguda, porque não condescende com os possíveis espectadores sensíveis à forma nua e crua de se revelar uma verdade; sombria, pois opta por tratar de realidades humanas quase não alcançadas
pela luz ofegante do debate público vigente; por ser ofensiva ao bom mocismo dominante na linguagem, à discriminação que não podemos sentir, ao palavrão que não podemos mais soltar, ao desejo que a decência não nos outorga experimentar.
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Cada episódio é como um soco no estômago do politicamente correto – em alguma medida análogo aos golpes dados por Zeus em seu pai Cronos e que faziam o titã regurgitar toda a vida devorada até ali. Nisto a série não é tão inovadora assim. Afinal, outras produções já o fizeram à sua maneira, e o teatro e a literatura se encarregaram ao longo dos séculos em ser instrumentos de mergulho na condição humana, ao mesmo tempo em que expunham, como num espelho e segundo seus critérios artísticos específicos, o reflexo daquilo que tocavam e que ajudava seu público e seus leitores a perceberem melhor a si mesmos. Quando Sófocles encenou sua mais famosa tragédia pela primeira vez, cada grego presente naquele festival deve ter reconhecido algum nível de cegueira e impotência pessoal quando assistido o drama de Édipo. Desde que François Mauriac publicara seu Nó de Víboras – diário e testamento de um personagem-narrador a caminho da morte – seus leitores têm naquelas páginas uma forma do arrependimento biográfico, da constatação dolorosa e sincera do ninho de sujeiras e maldades que cada um possui e
que leva a um autoconhecimento salvador nalgum sentido.
Mas nosso tempo, as crenças vigentes encarnadas nos homens de agora, não parece simpático aos espelhos negros apresentados pelos grandes mestres da literatura, do teatro, do cinema e das artes em geral (e até mesmo da filosofia e das ciências humanas, muitas vezes também elas grandes objetos de reflexão do obscuro). Podemos dizer que vivemos uma época de antissepsia, de ocultação sistemática dos cadáveres que sepultamos negligentemente ao longo de nossas trajetórias e que contêm sempre um pouco de nós, ainda que para nossa vergonha e dissabor existencial. Que nenhum homem ou mulher goste de tocar as próprias misérias e fracassos é óbvio; que esses conteúdos tenham se tornado inconfessáveis para si mesmo, penso ser recente em nossa história.

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Quando menino, brincava muito sozinho. Filho único até meus nove anos, passei tardes inteiras dentro do meu quarto a promover batalhas entre meus bonecos, criar histórias para entreter minha mente, vaguear pelo silêncio da casa com uma nave na mão esquerda e uma espada na direita. Apenas eu testemunhei a salvação do mundo tantas vezes ali realizada, e preenchi de novas imagens minha provinciana existência numa cidade pequena do interior do Paraná. Os limites exteriores não tinham ressonância dentro mim: no foro íntimo tudo era possível, e nessa infância de aparência solitária, foi-me concedido pela vida provar dos conteúdos imaginários que dão à existência humana líricos contornos. Quem, como eu, sinta saudades do tempo de menino, deseja aquele consolo que abranda o prosaísmo adulto e cotidiano, gozado novamente por uma espécie de habitação provisória na Nárnia de nossos próprios contos de fadas.

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Um fenômeno interessante tem se arvorado: os filmes e desenhos animados classificados como infantis estão seduzindo mesmo os adultos, que vêm lotando salas de cinema e consumindo em outras circunstâncias os produtos dirigidos supostamente às crianças. Também é de se notar a crescente qualidade técnica que estes mesmos produtos demonstram, oferecendo ao espectador – seja ele de que idade for – universos de cores e encantamentos bastante impressionantes.

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O SONHO

Na noite passada sonhei com o Olavo de Carvalho. Estávamos nalgum bar, sentados à mesa num canto onde víamos todas as pessoas sem que elas nos vissem. Não consigo lembrar de outros detalhes além destes: eu o aguardava ansioso porque tinha em mente um pedido de conselho. Quando logo se sentou à minha frente, com expressão grave, cigarro à mão e mudo como se me pedisse um motivo, disse-lhe sem rodeios:

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Desde quando algum decreto oculto e não rastreável obrigou os seres humanos a opinarem sobre todas as coisas, vivemos tempos estranhos em que as coisas todas lançadas no mesmo espaço de realidades públicas já não diferem em importância. Ao assumir a postura legalista de ter de dizer algo sobre absolutamente tudo, perde-se a reserva de intenções com a qual projetamos sobre partes do mundo nossa luz de compreensão e nosso desejo de intimidade particular. É porque preferimos umas coisas a outras e nos detemos em certos aspectos da vida enquanto ignoramos o resto, que somos capazes de verdadeiramente saber algo, dar um tom aos movimentos da nossa existência que não se confundiria com o falatório das praças. A estrutura mesma de nosso aprendizado é muito bem representada no simbolismo natural da noite e do dia, ou das luzes e das trevas: vivemos a correr de um ponto claro para outro escuro que necessita nossa inteligência, e enquanto este mesmo ponto se esclarece pouco a pouco – por obra do estudo, da atenção, da vontade de conhecer ou da contemplação – outros milhares ficam à sombra, no limbo da ignorância que ressumará sempre sua presença.

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