O rio Whanganui, na Nova Zelândia, foi reconhecido como pessoa (jurídica). No Brasil, a Justiça de Santa Catarina reconheceu os direitos das lagartixas e até arriscou alguns apontamentos acerca de sua psicologia. A Sociedade Portuguesa de Filosofia premiou um ensaio de dois doutorandos intitulado “Como Não Devemos Discriminar com Base na Espécie”. Entre louvores ao referido texto, a entidade afirma que os autores “distinguem cuidadosamente três versões de antropocentrismo e, desenvolvendo uma argumentação rigorosa, colocam objecções fortes a cada uma delas. Defendem assim que a discriminação com base na espécie humana é moralmente inaceitável” (o grifo é meu).

Eu poderia continuar a lista de exemplos, bastante atuais, do que tem sido uma longa e convicta marcha liderada por intelectuais, artistas e ambientalistas. A intenção que confessam ter com suas campanhas, teses acadêmicas e discursos midiáticos é esta: dar dignidade às “pessoas não humanas”, partindo do que consideram o justo questionamento da primazia da humanidade sobre os demais seres. Em Antropologia, o trabalho de Tim Ingold e outros de reconhecido prestígio entre os cientistas da área tem conseguido, como resultado provisório, a suspensão da diferença ontológica; já é possível ler artigos publicados em revistas especializadas em que “a alma das pedras” é uma ideia defensável – sem que isto cause qualquer rubor facial em seus advogados.

Como se vê, o cenário não é dos mais promissores para quem não teve a percepção subvertida pelo ataque incessante dos inimigos do homem. O que começou, após a Segunda Guerra, como uma depressão existencial, uma perda sensível da alegria de viver e um profundo descontentamento consigo, com a “maldade de que se provou capaz”, desenvolveu-se até o estágio atual, descrito parcialmente a partir dos exemplos acima: o homem deixou de estar descontente com a própria vida e passou a odiar a própria realidade. Aquela grandeza a que tantos poetas e filósofos deram voz e imagem – Mas somente o homem/ Pode o impossível:/ Só ele distingue,/ Escolhe e julga;/ E pode ao instante/ Dar duração (Goethe) – improvável para os homens de agora, de corações aviltados pelos passos duros da modernidade, gerou uma nova necessidade de identificação: era preciso estar próximo de algo, e aquilo a que o Ser representou ao longo da história revelou-se demasiado alto e imerecido. Os vasos, neste caso, foram concluídos como “não comunicantes”. Daí que as criaturas inferiores, semelhantes em instinto e outras faculdades do corpo e da mente, passaram a figurar como atraentes imagens de consolo. Se o acesso às moradas do alto é folclórico, a projeção em relação aos inocentes animais e plantas é não só possível como dócil aos manejos do homem.

Dar nomes aos cães, festejar o aniversário dos gatos e enxergar relações de parentesco e afetividade entre as árvores de um bosque são consequência da ação humanizadora: damos status humano a tudo que tocamos (inclusive aos aparelhos eletrônicos, diga-se de passagem). Portanto, não foi difícil fazer com que ursos e jequitibás fossem transfigurados à nossa imagem e semelhança. Casamento, tradição, cultura e alma individual não são realidades nossas apenas: são modos de ser e conviver também dos peixes, dos leões e das palmeiras (os desenhos animados dos últimos vinte anos dão mostras do quanto a humanização das outras espécies pode atingir a deformidade, o que não deixa de ser – oh, ironia – um desamor dos homens para com as realidades viventes).

O que estou tentando dizer é que em algum momento da nossa recente história o homem fez uma opção aparentemente confortável: assemelhar-se aos seres pelos quais deveria exercer, na verdade, um senhorio responsável. Essa escolha esteve calcada na frustração com a sua espécie, numa ocultação estratégica do dever-ser e, como consequência dos dois primeiros pontos, no ódio da própria tensional grandeza. Daí que falar em moral dos animais (como se fosse possível a eles fazer opção pelo mal, por exemplo), absurdos do especismo ou direitos e psicologia das lagartixas, seja algo aceitável para aquela parte da sociedade humana que simplesmente preferiu não ser; e como a distinção ontológica entre os homens e as outras criaturas se dá, em parte, pela trajetória livre e atualização dos graus a que lhe é possível aceder por meio do esforço, da educação e da cultura, sobram pouquíssimos elementos visíveis que façam saltar as diferenças intransponíveis entre o Lula e a calopsita do vizinho.

Poucos se aperceberam do que estou buscando fazer com meu trabalho (livros, cursos, aulas). Mas posso dizer que uma considerável porção daquilo que torno público tem relação direta com o que abordei neste texto: é preciso restituir nos homens e mulheres deste século as noções básicas de humanidade; não teoricamente, mas de maneira radicalmente vivaz, pessoal, de modo que a teoria seja resultado, e não ponto de partida, do processo de reinstalação no mundo – como um epílogo concordante com a verdade sentida e vivida ao longo do processo de ascese existencial.

Para mim, esse método tem íntima relação com a soberania da realidade em relação à linguagem. Nas palavras – como num ensaio filosófico premiado por instituição especializada – toda igualdade entre os seres é possível. Na radicalidade da vida, naquele centro a que podemos chamar o coração do mundo, todos reconhecemos os limites intransponíveis que vigoram desde o início e seguirão até o fim dos tempos. Planeta dos Macacos é possível nas telas do cinema, linguagem visual delirante. Esquecer disso é como ficar de joelhos, abanar o traseiro e grunhir nomes de ONGs.

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Um clube para quem quer ser “mais gente”

O que fazíamos no Brasil, presencialmente, faremos agora pela internet: os encontros mensais do Clube do Livro voltaram!

Todos os meses, de março a dezembro, leremos um clássico da literatura. Nos dias e horários marcados, eu farei uma exposição daquilo que considero indispensável à compreensão da obra do mês (uma análise filosófica, existencialista, jamais com pretensões de crítica literária profissional). O que busco com este trabalho – e que está no meu primeiro livro, Abertura da Alma – são modelos de vida: na leitura de uma história, encontrar, seja pela via positiva, seja pela negativa, formas do acontecer humano; possibilidades, meios, ações excelentes, etc. Em resumo, descobrir como aquela narrativa pode me ajudar a ser “mais gente”. Continuar lendo

Depois de um feriado prolongado, é comum escutarmos uns dos outros que “agora é preciso voltar à realidade”. A pergunta que não quer calar é: e quando é que saímos dela?

Já sabemos: nunca. É simplesmente impossível. O irreal, ou aquilo que é desprovido de realidade, por óbvio não reúne as condições para existir. A existência é uma qualidade daquilo que está na realidade, dela é parte, por ela é influenciada e com ela tem intimidade. É como pensar numa rede de pescaria, em que tudo está de alguma forma ligado pelos fios e nós que compõem aquela estrutura: cada uma de suas partes é real; todas as partes – aparentes ou não – são a realidade (inclusive todas as possibilidades da estrutura são parte da sua realidade). E o feriado, veja só, também.

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Esses dias fui com uma amiga a um evento promovido pela Real Associação de Lisboa. Era o lançamento da nova edição de Razões reais, de Mário Saraiva (um clássico entre os monarquistas ibéricos). Estava entre os convidados de honra o Sr. Jaime Saraiva, filho do falecido intelectual a quem o encontro visava homenagear. Foi-lhe concedida a palavra para que falasse do próprio pai, numa espécie de biografia sentimental que eu e tantos outros ali presentes tivemos a alegria de ouvir. Desta experiência retiro o tema do texto de hoje, que não tem relação direta com monarquia, sistemas políticos ou coisas do gênero: é sobre a marca que deixamos uns nos outros e, mais especificamente, a que pais deixam em seus filhos.

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Entre as coisas que têm me chamado a atenção na convivência com os portugueses está seu aparente descaso com o efeito sentimental das palavras. Por aqui, dizer o que deve ser dito está acima das leis gerais do sentimento ofendido: perde-se o amigo, mas não se perde a questão em jogo, a “verdade” segundo seu interlocutor. À primeira vista, isto faria do português médio um sujeito arrogante, insensível ou inapto para a vida em sociedade. Entretanto, não se trata disso: estas pessoas são sensíveis, à sua maneira, mas intransigentes com o que consideram bom, preferível, desejável, etc.

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“Quien nunca hubiere sufrido, poco o mucho, no tendria conciencia de si”

Miguel de Unamuno

Será que existe algum tipo de atração pelo sofrimento? Por que não existem livros com histórias de alegria completa, realização do começo ao fim, encontros amorosos felizes, descritos ao longo de todos os gozosos capítulos? Por que é o revés, a dificuldade, a dor, a infidelidade, o motivo dos argumentos mais interessantes, das narrativas mais famosas? Então será a vida mesmo a “arte do encontro, embora haja tanto desencontro”?

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Antes que eu aborde o assunto específico que me traz aqui, é preciso recuperar outra vez a noção de condição sexuada como instalação do ser humano: só há duas formas de vida humana – a masculina e a feminina – e não existe um terceiro gênero. Vir ao mundo como homem ou como mulher faz com que a vida seja sentida, vista, tomada, desta ou daquela maneira. Sendo assim, a disjunção polar de que fala Julián Marias é a expressão de uma oposição referente a uma mesma instalação: numa ponta, a forma de vida feminina; na outra, a masculina. Como acontece com toda oposição, os elementos em questão crescem em especificidade quando confrontados. Quer dizer, diante da morte a vida salta aos olhos; torna-se mais patente, mais “viva” – e analogamente é o que acontece com mulheres e homens. Sou mais homem quando diante de uma mulher. “Um homem não é um homem até que ouça o seu nome da boca de uma mulher”, lembra-nos Antonio Machado.

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Lembremos da velha oposição entre artistas, escritores e intelectuais e os verdadeiros trabalhadores da sociedade (operários, engenheiros, médicos, etc): os últimos são os responsáveis por mantê-la funcionando, justamente por exercerem atividades importantes para a sobrevida da estrutura social. Não é possível uma cidade, especialmente nos dias de hoje, sem esta teia de relações produtivas desenhada pela atuação desses homens e mulheres ativos em seus respectivos campos profissionais.

O capitalismo deu sua contribuição para que isso fosse ainda mais evidente (não é apenas conversa de marxista ressentido): “produzir” tornou-se o meio pelo qual alguém alforria a si mesmo e conquista algum respeito social devido à sua inserção na máquina do mundo. Ter um emprego ou ser um advogado autônomo, ganhar salário, pagar impostos, consumir: de fato, o dinheiro conquistado com o suor do próprio trabalho é uma das garantias de liberdade na configuração predominante.

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“Antes de ser pensada, a saudade foi cantada e é filha e prisioneira do lirismo que primeiro lhe deu voz”

Eduardo Lourenço

Não poderia ser mais clichê. Passados dois meses e meio longe do Brasil, escrevo sobre saudade. Mas é aquela história: clichês existem para ser confirmados pessoalmente. Estou cá, afirmando que é verdade aquilo que dizem todos os que viajam, que se mudam, que alteram suas trajetórias a ponto de preterir sua origem. É verdade que entramos num movimento de revisitação da própria vida, à procura do que signifique instalação, morada, um destino enfim.

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Semana passada coloquei meus dois filhos em frente ao computador para que assistissem a um filme que fez parte da minha infância – e da de muitos, tenho certeza: História sem fim, de 1984, baseado no livro homônimo de Michael Ende. Ainda que os efeitos visuais e sonoros, a produção e a direção de arte, possam estar muito aquém daquilo com que as crianças de hoje estão habituadas, nos filmes e desenhos animados de alta tecnologia que acompanham, não foi surpresa para mim que ambos fossem absorvidos pelo narrativa apresentada. O mais novo, especialmente, assistiu duas vezes seguidas à aventura de Atreyu e Bastian.

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