Oprah Winfrey, em seu discurso de agradecimento pelo prêmio Cecil B. DeMille, recebido na cerimônia dos Globos de Ouro 2018, disse, entre outras coisas e num tom inflamado, que a era dos homens poderosos chegou ao fim. Aplaudida fervorosamente por uma plateia de homens e mulheres da indústria do cinema e da televisão, suas palavras foram amplamente difundidas pelos dias seguintes, tomadas como exemplo de empoderamento feminino e de um golpe em cheio contra o machismo e as velhas normas sociais que, a seu ver, constrangem há muito as mulheres e outras minorias. 

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O Natal se aproxima e, com ele, os delírios da nossa fraqueza: inconfessável, nutrimos no íntimo de nossas almas uma esperança de cariz revolucionário, já que agarrada por fios de angústia a uma mudança de vida que, se olhada mais de perto, deveria ter sido feita pouco a pouco durante todo o ano em que nada fizemos. As canções de costume, com seus sinos a reverberarem agudamente em nossas consciências, servem à ansiedade do tempo; caímos, semana após semana do advento, numa espiral de fuga dos próprios pensamentos acusatórios, surda aos gritos do coração que teimam – como os sinos das canções – tilintar dentro de nós.

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Um sensível abatimento do processo de individuação está em curso; uma diminuição do espaço de autopoiese em que cada um desenvolve a própria vida e, em termos quase literais, faz a si mesmo. É a perda ou substituição desta zona de criação pessoal que, por caminhos diferentes, encerra a pessoalidade num corredor estreito de trajetórias genéricas e imputação alheia de responsabilidades. Em outras palavras, esse lugar onde reina o mimetismo e a voz passiva é a fábrica de milhões de “algos”, processo metaforicamente industrial a partir do qual o eu, expressão inconfundível de alguém, imiscui-se num terreno baldio.

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A metafísica não é um tipo de conhecimento, como supõem alguns. É um modo de conhecer; uma perspectiva sobre a realidade que contamina tudo o que vejo. Dito de outra maneira, minha inclinação para o mundo, minha ânsia de tocar suas entranhas ou descobrir seus segredos, aquilo a que chamaríamos atos de cognição, podem ou não ser metafísicos. Assim como há quem olhe a história exclusivamente como um resultado da luta de classes, identificando-se como mais um dos elementos presentes na transitoriedade dos fatos, há quem assuma a postura desde a qual vê o que é invisível aos olhos mas não ao coração.

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Corre-se sempre o risco de fazer do mal um fetiche: torná-lo o assunto primeiro dos nossos dias, devotar grande tempo à resistência de suas investidas, atabalhoar a vida interior pela atenção teimosa às suas vis seduções. Como acontece a todas as realidades humanamente tocadas, o mal também pede comedimento: não na oposição que lhe fazemos, mas no modo febril com que muitas vezes, por negá-lo, o neurotizamos. O combate, como travado por Perseu na sua vitória sobre Medusa, nunca deve se dar no campo aberto e frontal: vencer o mal requer estratégia e proteção, e por isto nenhum de nós deveria encará-lo insistentemente sem um escudo que nos salvaguarde de seu poder.

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A recente celeuma em torno de uma decisão judicial que permitia, aos psicólogos que assim se propusessem, o acompanhamento terapêutico de pessoas infelizes ou angustiadas com a sua homossexualidade, com vistas a uma alternativa de comportamento sexual, pouco me interessa pelo seu aspecto político: as manifestações mais ou menos histéricas e entrincheiradas ideologicamente, de todos os lados do campo dos partidos, são matéria para outras reflexões. O que a conjuntura revela – e sobre o que tenho pensado recentemente -, é o componente dramático que parece inerente à condição sexuada humana, capaz de fazer sofrer, de gerar os mais tortuosos dilemas psíquicos e existenciais, além de servir de tábua aos jogos do poder e engenharia social – coisa a que já vamos nos acostumando neste tempo de açambarcamento da vida em cada um de seus componentes, seja pelo Estado, seja pela mídia, seja por qualquer outro agente decidido a esquadrinhar o mundo pessoal.

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As notícias nos arrastam, para lá e para cá, como se ventos fortes e incontornáveis. Quanto mais conectados às redes sociais ou mais atentos aos canais que veiculam os acontecimentos do dia, mais tumultuados ficamos, sem perceber que a instalação no mundo não tem raízes no passageiro, mas no solo firme do que permanece.

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Herbert Marcuse publicou, em 1964, um pequeno livro sobre os supostos efeitos da industrialização e das armadilhas modernas – leia-se, capitalistas – no ser humano. “A ideologia da sociedade industrial”, como foi publicado no Brasil, é um interessante texto sobre aquilo a que Marcuse chamou de homem unidimensional: o indivíduo que, açambarcado pela lógica da racionalização dos contrários, crente nas promessas alvissareiras da tecnologia, carece de tensões e vive como se não houvessem verdadeiros mistérios e dramas insolúveis. A vida humana, para este novo tipo social, é uma equação bastante simples, e os elementos indesejáveis que teimosamente emergirem, sugerindo algum pequeno caos à ordem tão comezinha por ele cultuada, têm de ser resolvidos pelos engenheiros da paz em que acredita sem pestanejar. Trata-se de um crente, sem dúvida.

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É certo que a vida assemelha-se a um campo de batalha onde nem mesmo os soldados feridos podem descansar. Há dificuldades inerentes e artificiais, dor e enfermidades, angústia e perda, contingência e morte. Quem tenha saído daquela adolescência existencial – coisa nem sempre condizente com a idade -, sabe o suficiente para não mais cultivar ilusões sobre uma realidade que, em si mesma, é incompatível com delícias sem limites e clima de festa dionisíaca permanente. Portanto, assumida a perspectiva de que viver é mesmo um ato de fé no sentido último das lutas que aqui travamos, resta, a meu ver, encontrar a maneira possível de o fazê-lo sem que nos tornemos amargos, neuróticos ou pessimistas, incapazes de reconhecer neste mesmo lugar de desconcertos aquela parte – aquela pequena e imprescindível parte do mundo – em que uma fonte sacia nossa sede e abranda todo o sofrimento.

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PREÂMBULO DE ESCLARECIMENTO

As cenas aqui narradas são fictícias. Qualquer semelhança com a realidade não é mais do que uma irônica coincidência.

Nosso narrador é oculto, estava e não estava no ambiente dos fatos; participara atentamente sem que palavra alguma dissesse. Seu relato é preciso, bem feito, de quem olha com interesse os fenômenos humanos que vão do louvável ao ridículo. Sua história apareceu em meu computador sem maior explicação, entre uma conferida e outra das redes sociais, fofocas mais quentes e imagens mais perturbadoras. Em posse do enredo, transcrevo-o tal como se me revelou.

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