Entre as coisas que têm me chamado a atenção na convivência com os portugueses está seu aparente descaso com o efeito sentimental das palavras. Por aqui, dizer o que deve ser dito está acima das leis gerais do sentimento ofendido: perde-se o amigo, mas não se perde a questão em jogo, a “verdade” segundo seu interlocutor. À primeira vista, isto faria do português médio um sujeito arrogante, insensível ou inapto para a vida em sociedade. Entretanto, não se trata disso: estas pessoas são sensíveis, à sua maneira, mas intransigentes com o que consideram bom, preferível, desejável, etc.

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“Quien nunca hubiere sufrido, poco o mucho, no tendria conciencia de si”

Miguel de Unamuno

Será que existe algum tipo de atração pelo sofrimento? Por que não existem livros com histórias de alegria completa, realização do começo ao fim, encontros amorosos felizes, descritos ao longo de todos os gozosos capítulos? Por que é o revés, a dificuldade, a dor, a infidelidade, o motivo dos argumentos mais interessantes, das narrativas mais famosas? Então será a vida mesmo a “arte do encontro, embora haja tanto desencontro”?

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Antes que eu aborde o assunto específico que me traz aqui, é preciso recuperar outra vez a noção de condição sexuada como instalação do ser humano: só há duas formas de vida humana – a masculina e a feminina – e não existe um terceiro gênero. Vir ao mundo como homem ou como mulher faz com que a vida seja sentida, vista, tomada, desta ou daquela maneira. Sendo assim, a disjunção polar de que fala Julián Marias é a expressão de uma oposição referente a uma mesma instalação: numa ponta, a forma de vida feminina; na outra, a masculina. Como acontece com toda oposição, os elementos em questão crescem em especificidade quando confrontados. Quer dizer, diante da morte a vida salta aos olhos; torna-se mais patente, mais “viva” – e analogamente é o que acontece com mulheres e homens. Sou mais homem quando diante de uma mulher. “Um homem não é um homem até que ouça o seu nome da boca de uma mulher”, lembra-nos Antonio Machado.

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Lembremos da velha oposição entre artistas, escritores e intelectuais e os verdadeiros trabalhadores da sociedade (operários, engenheiros, médicos, etc): os últimos são os responsáveis por mantê-la funcionando, justamente por exercerem atividades importantes para a sobrevida da estrutura social. Não é possível uma cidade, especialmente nos dias de hoje, sem esta teia de relações produtivas desenhada pela atuação desses homens e mulheres ativos em seus respectivos campos profissionais.

O capitalismo deu sua contribuição para que isso fosse ainda mais evidente (não é apenas conversa de marxista ressentido): “produzir” tornou-se o meio pelo qual alguém alforria a si mesmo e conquista algum respeito social devido à sua inserção na máquina do mundo. Ter um emprego ou ser um advogado autônomo, ganhar salário, pagar impostos, consumir: de fato, o dinheiro conquistado com o suor do próprio trabalho é uma das garantias de liberdade na configuração predominante.

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“Antes de ser pensada, a saudade foi cantada e é filha e prisioneira do lirismo que primeiro lhe deu voz”

Eduardo Lourenço

Não poderia ser mais clichê. Passados dois meses e meio longe do Brasil, escrevo sobre saudade. Mas é aquela história: clichês existem para ser confirmados pessoalmente. Estou cá, afirmando que é verdade aquilo que dizem todos os que viajam, que se mudam, que alteram suas trajetórias a ponto de preterir sua origem. É verdade que entramos num movimento de revisitação da própria vida, à procura do que signifique instalação, morada, um destino enfim.

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Semana passada coloquei meus dois filhos em frente ao computador para que assistissem a um filme que fez parte da minha infância – e da de muitos, tenho certeza: História sem fim, de 1984, baseado no livro homônimo de Michael Ende. Ainda que os efeitos visuais e sonoros, a produção e a direção de arte, possam estar muito aquém daquilo com que as crianças de hoje estão habituadas, nos filmes e desenhos animados de alta tecnologia que acompanham, não foi surpresa para mim que ambos fossem absorvidos pelo narrativa apresentada. O mais novo, especialmente, assistiu duas vezes seguidas à aventura de Atreyu e Bastian.

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“Pedi e recebereis; procurai e encontrareis;
batei e vos será aberto.
Pois quem pede, recebe; quem procura, encontra;
e, para quem bate, se abrirá” (Lc 11, 9-10).

Assim como a inteligência humana tem uma raiz moral – os homens de bom coração são os que melhor compreendem a vida – a Realidade também é boa. Não poderia ser diferente: o mundo criado é bom em si mesmo e sabemos que o mal, a crueldade, ou coisa que o valha, são possibilidades nele encontradas e ressumam a liberdade humana (o pecado original ou o mito de Prometeu são símbolos-origem do que estou dizendo). O fato é que podemos escolher ou querer o mal, a infelicidade, o fracasso biográfico, mas não são estes os impulsos naturais da vida.

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Para mim é muito claro: a coisa mais importante, mais radical, mais inconsciente ou conscientemente desejada pela grande maioria de nós é a comunhão com os outros. São nestas experiências, com maior ou menor familiaridade, mais ou menos gente envolvida, no clube ou na igreja, que conquistamos o modo de ser mais perfeito, pois cada um se sente insuficiente na irrepetibilidade que testemunha com a própria presença limitada no mundo.

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Qual de nós ficaria em dúvida tendo de escolher entre o Céu e o inferno? Entre o júbilo e o fracasso completo? Ou entre o amor e o ódio?

Assim, conscientemente, ninguém teria grandes dificuldades para optar entre o bem e o mal. Estando estas realidades em  sua máxima clareza e sem qualquer vício de ilusão, nossa pretensão natural é sempre pelo melhor: é isto o que idealmente consideramos o destino humano – a concretização de uma espécie de plenitude prometida.

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Um dos livros que marcaram minha vida foi “As moradas do castelo interior”, de minha santa de devoção, Teresa d’Ávila. É claro que se você me perguntar as passagens do livro que tenho guardadas na memória, ou os capítulos que posso resumir de chofre, responderei que nada; nenhum. Não é esse o tipo de marca que a leitura daquela obra me causou: para mim, desde então, e sem lembrar uma frase específica do texto, eu sou chamado a ser senhor do meu castelo, aquele que conhece os cantos da minha própria morada e reserva, devidamente, a mais alta e digna a Quem de direito. Não por acaso, o curso A Vida Humana – e o livro sobre Felicidade que vem aí, pela Editora Simonsen – começam pelo mapa do mundo pessoal, tratam da posse de si mesmo, impelem à cartografia da vida interior.

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