“Poderia contar muitas coisas belas, delicadas e amáveis de minha infância; falar da aprazível segurança paterna, do cainho infantil, da vida simples e fácil no ambiente caseiro luminoso e caro. Todavia, só me interessam os passos que tive de dar na vida para chegar a mim mesmo. Deixo resplandecer na distância todos os pontos de repouso, ilhas encantadas e paraísos, cujo sortilégio provei e aos quais não desejo voltar”. (Pág. 48)

Demian
Clube do Livro – junho de 2015

Uma vida é marcada por experiências fundantes, que são aquelas mais radicais e que configuram nosso modo de estar no mundo e nossa perspectiva, compondo nosso sistema de crenças naquilo que de mais radicalmente pessoal ele tem. Para além do que herdamos culturalmente, no acúmulo deste tipo peculiar de experiência moldamos a nós mesmos, integramos novas realidades à substância que somos. Experiência fundante é o resultado de um encontro – com outra pessoa, com a sociedade, consigo, com Deus – que gera, através do movimento desencadeado, o novo ser que nos tornamos sucessivamente, na dramaticidade que nos define.


São as experiências que identificamos em nossa própria história quando desejamos compreendê-la por meio do argumento. Toda vez que recontamos nossa biografia – ou a de alguém – procuramos narrar estas experiências que, acima de tudo, foram decisivas para dar a forma de vida que assumimos e estamos testemunhando agora. Eu sou esta pessoa porque experimentei isto, aquilo etc. Obviamente, as experiências fundantes não me definem por inteiro; a elas escapam os acessórios dos dias que preenchem a vida. Seria mais correto dizer que elas inauguram amplas trajetórias biográficas por serem incisivas na fundação do modo de ser. A partir desta fundação – refeita a cada nova experiência deste tipo – escolhemos, decidimos e compomos nossas vidas com todos os elementos, toda a complexidade que lhe é característica.
A infância, por sua abertura, sua quase ausência de limites e fragmentações comuns na vida adulta, é um tempo fértil para experiências fundantes. O menino é o pai do homem, diria Freud. Isto se aplica neste caso: no terreno propício da primeira idade acontecem muitos fatos inesquecíveis, irrepetíveis, traumatizantes e, por que não, incríveis. Seu reino de possibilidades é um oásis para estas experiências que marcam a vida e inclinam um destino. Tente imaginar o que significou para Hermann Hesse ter vivido na Índia, com seus pais missionários, quando ainda era pequeno. Quando maduro, escreveu sobre filosofia oriental, além de um dos seus romances mais famosos (Sidarta).
Cada um de nós poderia narrar duas ou três experiências pessoais determinantes neste sentido. E a maior clareza a respeito delas – destas vividas na infância – se dá justamente pelo fato de que naquele tempo não havia rachaduras, divisões ou antagonismos: o mundo era um só, marcado pelo vértice da ingenuidade. Crianças são boas, e têm a invejável característica de querer uma coisa só. São verdadeiros anúncios do Paraíso, onde só entra quem tiver coração igual ao delas. No rosto de um menino não vemos a distinção da gravidade presente no homem consciente de sua origem e destino, preocupado com sua realização. Vemos apenas a realidade como promessa, pretendida por Deus e percebida como graça.
Por todos estes motivos, podemos reconhecer que a perda deste universo infantil – a expulsão do paraíso de nossas histórias – é uma das mais radicais experiências que vivemos. Com Sinclair, protagonista do livro que nos traz aqui, não foi diferente. Era maravilhoso que ali em casa houvesse paz, ordem, repouso, deveres cumpridos e consciência tranquila, perdão e amor; mas era também admirável também que existisse aquilo tudo mais: o estrepitoso e o agudo, o sombrio e o violento, de que se podia escapar imediatamente, refugiando-se quase de um salto no regaço maternal” (pág 10). O ambiente doméstico é apresentado logo nas primeiras páginas da obra de Hesse como um refúgio, um resistente lugar de paz e repouso – garantia mínima de felicidade. O menino que começa a contar sua história vivia imerso nesse único mundo que conhecia. “Quando pensava no Diabo, podia imaginá-lo a andar pelas ruas, mascarado ou com a face descoberta, nos mercados e nas tabernas, mas nunca em nossa casa” (pág 11). Da porta para dentro, o mal não tinha vez. Era tudo símbolo do indivisível Bem, como se percebe também das memórias de Julián Marias, que resume sua infância em uma palavra: amor.
Mas o paraíso é perdido, não só metafisicamente – como no pecado original – mas existencialmente. Sinclair começou a mentir. Arranjou um problema, entrou num novo mundo do qual sua família não poderia participar. Nele, a culpa estreava sua atividade divisória fragmentando o menino, arrancando-o do útero em que crescera. A aceitação destes novos elementos, o reconhecimento de dois mundos, é a experiência fundante que expulsa Demian de seu paraíso. “Aqueles objetos exalavam para mim o doce aroma do lar. Meu coração saudou-os humilde e agradecido, como filho prodigo saúda o aspecto e o perfume dos velhos aposentos da casa paterna. No entanto, tudo aquilo deixara de pertencer-me; fazia parte do claro mundo familiar, e eu havia naufragado de maneira culpável nas águas do mundo sombrio {…} Tudo aquilo deixara de ser meu; já não me era possível participar de sua paz serena” (pág 19).
Franz Kromer aparece como o catalisador do processo que, cedo ou tarde, aconteceria com Sinclair. É o surgimento da desesperança, do medo de que não haja consolo e de que os males possam vencer-nos. O rapazinho corpulento e grosseiro de treze anos, filho de um beberrão, funciona como símbolo do elemento estranho ao paraíso, e que provoca um novo movimento em Sinclair. “Chegara, talvez, a uma encruzilhada decisiva e talvez desde aquele mesmo instante teria que pertencer para sempre à facção dos maus; teria que compartilhar de seus segredos, estar subordinado a eles, obedecer-lhes e tornar-me seu igual” (pág 20). Quem lembra da primeira vez que desconfiou das promessas divinas? Quem consegue recuperar na própria memória o diálogo interior que promoveu a divisão do mundo pessoal em dois? Quando o paraíso pessoal foi perdido em nome de um silogismo ou de uma vergonha descoberta? Quando a frase “todo homem é bom” deixou de parecer tão certa?
É compreensível que Sinclair tenha sido atraído por Demian. Este amigo exerceu uma influência determinante – também uma experiência fundante – ao oferecer as “respostas” apropriadas para o novo mundo que nosso jovem protagonista recém-descobrira. A fé não é bem isto, os ladrões crucificados não são bem aquilo. Antigo e Novo Testamento podem ser reinterpretados; a vida não é um arco-íris com final feliz e a humanidade tem de aceitar que não há sentido conhecido. “Para eles, a humanidade – que amavam tanto quanto nós – era algo completo que devia ser conservado e protegido. Para nós, a humanidade era um futuro distante para o qual todos caminhávamos, sem que ninguém conhecesse sua imagem e sem que se encontrassem escritas suas leis em parte alguma” (pág 136), esclarece aquele Sinclair já “convertido”, experiente membro do grupo de dona Eva. Aliás, como bem dissera Demian, ninguém pronuncia o nome de Eva sem se apaixonar.
Entretanto, mesmo apaixonado pela explicação de mundo de Demian e sua mãe, Sinclair – como cada um de nós – continua informado em seu coração a respeito da gênese da vida. Nem a devassidão e a perda temporária de sentido nos estudos apagou a verdade que mora no interior do homem: “Assim, enquanto divertia meus amigos e, às vezes, os assustava com meu incrível cinismo, entre risos bêbados, diante das mesas sujas dos cafés de baixa categoria, conservava em meu coração um respeito oculto por tudo aquilo que conspurcava com meus ditos, e em meu interior permanecia ajoelhado e chorando diante de minha alma, diante do passado, diante de minha mãe e diante de Deus” (pág 73). Gustavo Corção explicou de outra forma: o homem sofre porque sabe de sua grandeza. É por intui-la que sente-se angustiado; por prever seu destino eterno e saber do chamado à magnanimidade (do qual não pode escapar).
E de destino trata a história. Sinclair, ao sair do paraíso pessoal e entrar no outro mundo apresentado por Demian, tem de confiar em algo. Pois que seja em sua realização; a mais nobre tarefa do homem, segundo eles, é cumprir um destino – não no sentido metafísico – mas existencial. “Sua missão era encontrar o próprio destino, e não qualquer um, e vivê-lo inteiramente até o fim. Tudo o mais era ficar a meio caminho, era retroceder para refugiar-se no ideal da coletividade, era adaptação e medo da própria individualidade interior”. (Pág 121). O ideal máximo é ter um projeto pessoal e realizá-lo. Só assim a divisão do mundo seria suportada. O grito de liberdade viria, portanto, desta rebeldia interior que não permite a submissão aos mandos sociais: “Todo homem, por mais bondoso que seja, tem que vulnerar uma ou várias vezes em sua vida as belas virtudes da piedade filial e da gratidão. Tem que dar aquele passo que o desliga de seus pais e de seus mestres e sentir um pouco a aspereza da solidão, embora em sua maioria não a possam suportar por muito tempo e voltem para a submissão” (pág 116). “Vulnerar as virtudes”; “dar o passo que desliga de seus pais e mestres”: esta é a substância dos ensinamentos de Demian a Sinclair, o meio de vida encontrado para suportar a divisão. A tarefa é difícil porque, como descobre o protagonista expulso, “nada na vida repugna tanto ao homem do que seguir pelo caminho que o conduz a si mesmo” (pág 47).
Desprovido de auxílio divino, lançado como cidadão de dois mundos divididos pela entrada do mal, da dúvida e da desesperança, ao homem resta destruir o mundo. Uma experiência fundante na medida em que configura toda a existência adulta, que passa a ser a imagem da ave que sai do ovo; que precisa quebrá-lo, desfazendo-se das premissas paradisíacas. O lema é: “A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir um mundo” (pág 88). E de destruição tratam as últimas páginas do romance, que anuncia a Grande Guerra e nela insere os dois principais personagens. Sinclair e Demian se tornam soldados e são feridos pela luta. Provam fisicamente da experiência da divisão, da dor e do rompimento. O mundo explode em batalhas, morte e loucura.
Em meio a tudo isso, apenas uma coisa garantiria a verdadeira instalação na realidade. Ela não é a imagem do amigo que está guardada na memória do pobre Sinclair, como pensa o personagem. Ele mesmo diz que a cura causou-lhe mal. A segurança que temos, a única que nos consola, é a admissão de que dentro de nós há alguém que tudo sabe (pág 84); de que o Paraíso pode ser reconquistado. Todos os estilhaços então reunidos na forma final do destino.

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