Quando estudante de História na Universidade Federal do Paraná, frequentei um curso optativo chamado História da Alimentação. O professor era Carlos Roberto Antunes dos Santos e sua proposta era destacar a importância da mesa (sua presença quase ininterrupta) nas grandes decisões da história. Mais: numa ênfase antropológica, resgatar para os ouvintes o componente cultural e ritualístico do ato de comer e conviver: os alimentos e as receitas – seus modos de preparo, os temperos mais utilizados, o ponto de cozimento – são também memória e, por isso mesmo, passíveis de história.Um simples almoço em família tem muito a dizer sobre nós; guarda alguma tradição, revela hábitos e valores. Se nada na vida humana é totalmente desprovido de sentido, o que dizer da culinária e da vivência em torno da mesa – algo pleno de sentimento, reciprocidade, oferta e acolhimento, aprovação e desaprovação, gosto e rejeição? Animais podem passar gerações comendo as mesmas coisas encontradas na natureza e, por isso mesmo, não cabe conferir-lhes esta dimensão cultural que estou destacando na culinária. Já o homem, diriam alguns cientistas atuais, difere-se de todos os outros seres justamente no momento em que passa a cozinhar (o que implica domínio do fogo, por exemplo). Como tudo o que diz respeito a nós, também a prática culinária tem trajetória e, se olhada de perto, pode servir à compreensão de nossa espécie. 

Antropólogos, etnólogos, sociólogos sabem disso; Gilberto Freyre dedicou várias páginas de Casa-grande e Senzala às receitas das negras dos tempos coloniais. A minha pergunta é: por que eu e você não sabemos? Por que nós deixamos de reconhecer a importância de sentar-se à mesa e desfrutar de boa comida e boa companhia? Por que esquecemos que estar em torno de uma mesa é uma das mais naturalmente humanas formas de conviver, na qual nossas resistências e artificialidades – comuns em outras situações – caem por terra no momento em que compartilhamos um frango assado ou uma torta de maçã?

Em que circunstância social é mais fácil “manter as aparências”: num jantar ou num congresso? Num churrasco ou numa visita a um museu? A mesa – e especialmente o ato de comer juntos – é um elemento que nos aproxima e nos convida à intimidade (e quanto a isto nem mesmo a etiqueta burguesa pôde fazer muito a respeito). Preparar um alimento, servi-lo e comê-lo em grupo é uma das grandes riquezas da vida humana, premiada por aquilo a que qualquer alma viva jamais deixa de dar valor: sabor.

Quando você passa a comer o mesmo que qualquer outra pessoa no mundo come e não enxerga mais a diferença entre microondas e panela de barro, você não se tornou um sujeito acima destas trivialidades: você está insensível às nuances dos gostos (ao melhor e ao pior). E, se me permite o trocadilho óbvio, a vida sem gosto não vale a pena.

Assistam à série Cooked, produzida pelo Netflix, e entendam o que estou falando: uma parte dos “desvios” que percebemos no homem contemporâneo, nas perdas claras de sentido e direção, podem ser facilmente compreendidas a partir da sua relação com a culinária e com o ato de comer em grupo. O desinteresse pela cozinha não prova superioridade intelectual, mas redução de repertório vital.

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