Entre as coisas que têm me chamado a atenção na convivência com os portugueses está seu aparente descaso com o efeito sentimental das palavras. Por aqui, dizer o que deve ser dito está acima das leis gerais do sentimento ofendido: perde-se o amigo, mas não se perde a questão em jogo, a “verdade” segundo seu interlocutor. À primeira vista, isto faria do português médio um sujeito arrogante, insensível ou inapto para a vida em sociedade. Entretanto, não se trata disso: estas pessoas são sensíveis, à sua maneira, mas intransigentes com o que consideram bom, preferível, desejável, etc.

Numa roda de colegas de trabalho ou de velhos amigos é perfeitamente possível, aos lusitanos, dizer qualquer acidez sem pedir licença. Já presenciei cenas calorosas de discordância e debate que, logo que terminem, nada mais são do que discordâncias e debates: os envolvidos não precisam “voltar a si” porque nunca saíram do lugar onde estavam quando começaram o confronto. Isto é um delicado aspecto deste povo: jamais saem do ponto de origem, senão por um movimento justificável que sirva aos propósitos de uma travessia de oceano ou a defesa de sua família. Portugueses também gritam, soltam palavrões, fazem piada; mas nada rouba-lhes o centro, e a prova disso é que sentem-se surpresos diante de gente como nós, os brasileiros – o povo mais afetado do mundo.

Um homem português de 50 anos, via de regra, é um bloco: é quase palpável sua substância, sua falta de dramas psicológicos, seu perfeito estado de ser (o mesmo não se aplica às novas gerações, na casa dos 20 e 30 anos, já bastante induzidas e corrompidas pela comunicação de massa, as ideologias, as novelas brasileiras e por aí afora). Um brasileiro maduro, com idade equivalente à do “português-bloco”, salvo exceções, tem aquela marca do comprometimento psicológico que torna sua imagem um tanto estranha. Se o cinquentão português é grave, o brasileiro é ressentido: tem questões mal resolvidas, trajetórias biográficas a lamentar, tentativas de fuga a expiar, melancolia ou humor pueril a oferecer. E isto, tal como percebo hoje, se deve à forma como ambos lidam com os próprios sentimentos.

Sempre digo em meus cursos que sentimentos são importantes à medida que revelam nosso estado de espírito; são indicadores de nossa atividade anímica, pequenos e evanescentes movimentos interiores, aquém e antes da emoção. É óbvio que “não sentir” é uma espécie de morte que, levadas às últimas consequências, se traduzirá na existência infernal de um psicopata. Ter sentimentos é absolutamente humano e seu conjunto um indicador de quem estamos sendo, pelo que estamos nos afetando (ou por quem) etc. A grande questão é: nenhuma vida interior pode terminar nestes mesmos sentimentos. Eles são a porta de entrada, como são os sentidos para a realidade a ser conhecida: não se prescinde deles, mas não se instala neles.

(assista à cena de “A Dama de Ferro”, exemplar do que escrevi até aqui)

Apegar-se aos próprios sentimentos, confundindo-os por vezes com a realidade mesma (que inclui tudo que está além dos sentimentos e é também “meu mundo” como diria Ortega y Gasset) é um erro comum a adolescentes, imperdoável num adulto português, brasileiro ou indiano: viver é eleger, e nenhuma eleição se faz com base na tristeza momentânea ou na euforia passageira. Reforço: adultos não agem assim.

Voltando à questão de foro nacional, é dificílimo para nós brasileiros transcendermos a primeira etapa: paramos logo nos sentimentos evocados pela discussão, pela notícia de TV ou mesmo pela leitura do bom livro. Temos sérias limitações – corrigíveis somente com uma autoeducação persistente – no que tange a objetividade dos dramas, dos debates ou das ideias. Somos capazes de nos ofender com o tom de voz e a piada contada. Somos até mesmo capazes de achar ruim o outro ser o outro: alguém que não gosta do que gostamos ou que reprova nosso gasto de tempo ou dinheiro. Somos mestres da desculpa esfarrapada – não dizemos que não gostamos da comida ou que não vamos à festa; preferimos tergiversar, adocicando o não com saídas do tipo “eu não estava com fome” ou “acho que vou sim, mas confirmo mais tarde com você”.

Não estou falando a favor do racionalismo exacerbado, pretensão também desmedida de controlar todo e qualquer movimento de alma como se o psiquê fosse um plano cartesiano. Estou apenas sendo um pouco aristotélico no sentido de que a consciência destes movimentos podem ordenar um pouco a vida interior, a ponto de sentimentos ocuparem seu lugar natural (antes das emoções ou das virtudes da inteligência). Os portugueses, em geral, parecem estar mais perto desta condução raciovitalista a que me refiro. Como brasileiros ainda precisamos resolver uma série de coisas dentro de nós, preferencialmente sem tanto apego ao “respeito humano”, às convenções sociais, ao politicamente correto e a tantas outras armadilhas que põem a vida a perder.

Não é a primeira vez que escrevo sobre isto – talvez seja eu mesmo a dar cabo do meu sentimentalismo, pouco a pouco, usando meus leitores como confessores ou pelo menos testemunhas desta trajetória sobre a qual lanço mais luz agora. O fato é que eu realmente acredito que a saída para nós seja esta estreita porta pela qual nos despimos desse artifício para gozar da nudez paradisíaca – nudez presente desde a nossa descoberta, como se símbolo fosse do dever-ser brasileiro. Nudez que, não sendo experiência mais recorrente, impede ultrapassar os sentimentos, rezar verdadeiramente o credo, comunicar algo, falar em próprio nome.

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