O autor deste título é um grande amigo meu – um dos sujeitos mais inteligentes que conheço. Quando nos encontramos é certo que, pelo menos uma vez, entre risos e goles de vinho, repita seu adágio: “cultura não tá com nada”. Quem o diz, no entanto, é alguém que passou a maior parte da vida estudando, mergulhado na densidade de algumas obras clássicas da filosofia e da literatura, absolutamente interessado em cultura.

Mas, então, que ironia é esta do meu amigo?

Auxiliado pelas circunstâncias pessoais e sociais em que ele afirma a nulidade da cultura, a perspectiva desde onde ele fala e que, como amigo e testemunha, reconheço, tento agora esclarecer o dito. Estamos aqui tratando de cultura como aprendizado, não como expressão coletiva de crenças, usos e costumes (este é o sentido etnológico de cultura). Cultos são os indivíduos que tomam para si a responsabilidade de saber o que, numa visão axiológica e hierárquica da vida humana, é necessário saber ou não há humanidade. Explico melhor.

Numa escala que não me parece difícil identificar, as obras de Shakespeare são mais necessárias que as de Nelson Rodrigues: ambas têm valor, mas as do dramaturgo inglês são conquistas incontornáveis do espírito humano, de grande valia para todos nós, independentemente do espaço e do tempo. É o que se chama “universal”, pois revela e educa constantes da alma humana, e não seus acidentes seculares ou de matiz nacional. Quando Akira Kurosawa faz releituras de peças shakesperianas, traduzindo-as para seu público japonês tão distante culturalmente dos europeus bretões, o faz na intenção de dar a conhecer em língua própria o que de comum sobre o homem disse um estrangeiro. O drama de Rei Lear é mesmo uma hipótese humana transversal.

Daí que os homens e mulheres que se pretendam cultos neste sentido, devem “gastar” a vida na apreensão dessas obras de maior envergadura, que vão de Shakespeare a Platão, de Virgílio a Balzac, de Simone Weil a Van Gogh. Apesar de todo esperneio relativista, são elas a espinha dorsal do cânone universal da cultura. Alguém que tenha passado a vida inteira lendo Paulo Coelho e ouvindo mpb não pode se dizer culto como outro alguém que tenha dominado, mesmo que parcialmente, os elementos formais e materiais do teatro grego antigo. Se o leitor quiser saber a diferença entre o tipo Vinícius de Moraes e o tipo George Steiner, aí está.

Mas por que o fazem, os verdadeiramente cultos? Por virtuosismo, pura e simplesmente? Porque alguns não nasceram para construir paredes ou trabalhar em escritórios contábeis? Qual a razão de um indivíduo passar a maior parte da sua vida sendo humilhado pela ignorância que confessa diariamente, tomado de referências vindas da grande arte, da filosofia e da ciência? O que deseja, profunda e sinceramente, um homem de cultura?

De forma simples, cultivar o melhor. Onde? Dentro de si, na própria alma que é agente de conhecimento e que não se furta às sucessivas alterações que os objetos amáveis – veja bem, amáveis em si mesmos, autodeterminados – geram na sua vida. Homens e mulheres cultos são, no fim das contas, tipos que precisam trazer para o foro da intimidade e da existência pessoal a ordem da realidade representada nas grandes obras a que destinam maior tempo de estudo, leitura e contemplação. São exigentes porque não se contentam com o diletantismo que os faria tergiversar sobre o aspecto comprometedor de ler A Divina Comédia, por exemplo, ou apreciar por horas a fio Guernica. Não se trata de simplesmente conhecer esta ou aquela representação artística, sua escola ou movimento de que faz parte, mas de ser novo, enquanto indivíduo, a cada novo olhar para elas. É a expressão radical desse processo a que me refiro: o diálogo incessante da alma que não descansa até que veja as coisas através dos objetos superiores a que aspira como meio, jamais como fim. Aquele que estuda as ideias de Eric Voegelin para poder debater política nas redes sociais ou no meio acadêmico, pode não alcançar o sentido último do verdadeiro processo de “aculturamento” pessoal – coisa que permite a alguém passar os melhores anos da própria vida lendo as obras de Voegelin sem jamais posicionar-se publicamente a respeito.

E se isto é coisa tão necessária à própria sobrevivência da espécie – dado que os homens cultos mantêm vivas, enquanto testemunhas indiretas, as conquistas do espírito humano ao longo do tempo – como é possível que meu amigo diga que isto não está com nada?

É que seu adágio é uma crítica, bastante sincera, à corrupção deste processo de natureza pessoal e intransferível, que leva muitos dos interessados por cultura a assumir posições de fundo falso sobre os mais graves e importantes temas, aspectos e objetos valorosos da vida humana. Via de regra, a multidão de opinadores que agora vemos por aí, a falar levianamente de Aristóteles ou de Chesterton, não têm o coração nas mãos quando falam. São, no sentido de Georges Bernanos, impostores. Arrogam para si um direito que, no fundo, não têm: aquele de falar em nome de grandes grupos, ou de ditar regras de conduta ou, pior ainda, planejar futuros civilizacionais. Porque não realizam o movimento de descida aos próprios infernos, não instalam-se na incômoda e comprometedora posição dos que “dão a vida por saber”. Ao invés disto, tagarelam, gritam suas frustrações pessoais; alguns, vendem suas limitações e falsificações como modelo de … cultura (!?). São geralmente sujeitos que não colocam a pele em jogo, como diria Nassim Taleb: discursam desde posições confortáveis e amparadas pela matilha de que fazem parte; vozes autênticas são raras, e a sua pretensa multiplicação neste nosso tempo é sinal de engano. “São guias cegos guiando cegos” (Mt 15, 14).

Walter Benjamin, em A vida dos estudantes, fez também uma crítica à impostura intelectual, tornando mais patente o abafamento da vida interior pelos imperativos sociais apelativos da época histórica que experimentava. Disse: “todo indivíduo atuante aspira à totalidade, e o valor de uma realização está justamente ali, no fato de que possa se expressar a essência total e indivisível de um ser humano. No entanto, o desempenho socialmente fundamentado, tal como o encontramos hoje em dia, não abrange a totalidade, mas é algo completamente fragmentário e postiço. Não raramente a comunidade social é o lugar onde se luta, sorrateiramente e em cumplicidade com outros, contra desejos mais elevados e metas próprias, e onde o desenvolvimento genuíno e mais profundo é encoberto. Na maioria dos casos, o desempenho social do homem comum serve para recalcar as aspirações originais e autênticas do homem interior”.

Eivada de um desenvolvimento genuíno e total, cultura não tá mesmo com nada. É com este espírito que recebo grande parte das demonstrações virtuosas de saberes que pululam aqui e acolá, no Brasil ou em Portugal, vindo dos mais incapazes e insuspeitos tolos que possam existir. Qualquer dona de casa que esteja alimentando seus filhos e mantendo a limpeza do lar, está fazendo muito mais pelo mundo do que os cultos sazonais, que prometem salvá-lo elegendo algum sujeito ou criticando Leandro Karnal.

É esta a verdade, caro leitor. Pouco importa, aliás, se você concorda ou se isso lhe ofende (suas convicções políticas ou ideológicas no momento). Se algo urge é justamente esta retomada de consciência, esta confissão que cada um de nós tem de fazer sobre seu próprio tamanho e lugar no mundo. É preciso, antes de tanta cultura, educar a nós mesmos, a nossos filhos em casa, também a forma como nos relacionamos ou partilhamos o alimento da mesa. Muito antes da cultura, há empregos a serem mantidos, venezuelanos a serem acolhidos, almas doentes a serem salvas; riqueza a ser criada, casas a serem construídas, ruas a serem limpas, uvas a darem vinho.

Diante de tanta realidade, essa “cultura” toda não tá com nada.

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