Nas últimas aulas do curso A Vida Humana pude falar de algumas das mais belas obras de filósofos que admiro e estudo: A perspectiva cristã e Persona (ambas de Julián Marias) e O sentimento trágico da vida (Miguel de Unamuno) são alguns exemplos. Depois de ter passado um ano inteiro ensinando sobre a realidade pessoal, suas dimensões e características, era necessário dar um “sentido último” para tudo aquilo. A pessoa – aquela substância única que faz a si mesmo – tem um destino; não é aniquilada pela morte. Mais: é chamada à vitória sobre a morte, como uma espécie de prova de si mesmo, de uma fiel e correta absorção da própria promessa que é e da trajetória posterior que pressente.

Uma vida humana verdadeiramente vivida, radicalmente sentida, é aquela que projeta sobre a morte; tem no destino último a esperança de sua instalação derradeira – já que no paraíso ninguém é estrangeiro.

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Mas como projetar sobre a morte? Como desejá-la? Como torná-la pessoal, atraente a ponto de mover a existência em sua direção? Pois ninguém pode ir a um lugar sem forma, cor ou chão. Todos somos atraídos por imagens que nos são oferecidas desde fora ou, pelo poder da imaginação, criadas internamente. Eu só desejo ir a Paris porque a conheço e retive, no fundo prazeroso de minha memória, uma imagem da cidade luz. É esta imagem que evoco quando falo sobre a cidade: por isso gostaria de voltar.

Portanto, é preciso ter algum conhecimento do objeto para desejá-lo. Alguma imagem é necessária para que a alma, num processo de abertura e inclinação, movimente-se em direção ao objeto antes de conquistar sua posse efetiva. Em outras palavras, ter alguma ideia do que é Paris para só então propor à vontade (junto a tantos outros elementos a serem considerados) seu conhecimento concreto. Por isso pergunto outra vez: como desejar o paraíso, que não conheço?

Confiamos que após a morte seguiremos sendo quem somos. Eu, Tiago, serei uma pessoa na outra vida. Não haverá uma mudança de realidade neste sentido, mas de circunstância. Minha vida continuará sendo humana; entretanto, na eternidade. Por essa razão, argumenta Julián Marias, não é outra coisa que tenho que conhecer quando se trata do paraíso: é a vida humana em sua plenitude. Requer-se, então, imaginação; minha vida sem as privações da terra. Amor, bondade, força, júbilo, paz: tudo o que é possível provar e sentir aqui, agora, como homem de carne e osso que sou, em máxima potência, desprovido dos limites que conhecemos nesta vida. Eu serei eu mesmo e a comunhão entre as almas uma verdadeira experiência de consolo. A realidade será vista sem os véus que a nublam hoje.

A JULIAN

É necessário, portanto, que eu conheça a vida humana – esta de que faço parte, que me toca intimamente e pela presença dos outros homens – para que eu conheça a vida humana na eternidade. Desejarei o paraíso porque, com auxílio da imaginação, anteverei a mesma vida em seu esplendor.

Disto resulta a seguinte conclusão: aos que não conhecem a vida humana aqui – de história, sofrimento, limite, dor, paixão, miséria, suor e sentido – não é possível uma imagem rica da imortalidade. Como projetar o amor eterno se minha experiência e conhecimento deste sentimento é pautado pelas letras de pagode e sertanejo ou uma abstração tirado de algum livro?

“O caminho para cima e para baixo é um só” (Heráclito). Tomar consciência disso é propor a si mesmo uma trajetória que leve ao paraíso pelas escadas que dirigem-se para baixo, para dentro. Foi por isso – este é o grande motivo – que comecei o Vida Humana: eu e você precisamos absorver nossas circunstâncias mais imediatas primeiro, admitir e restituir os verdadeiros valores, a real dignidade, o primeiro e último sentido de nossa realidade. Fazendo isto, e não sem o auxílio da graça divina, origem e fim se encontrarão. Roma será Jerusalém, cidadania será beatitude.

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