Esses dias fui com uma amiga a um evento promovido pela Real Associação de Lisboa. Era o lançamento da nova edição de Razões reais, de Mário Saraiva (um clássico entre os monarquistas ibéricos). Estava entre os convidados de honra o Sr. Jaime Saraiva, filho do falecido intelectual a quem o encontro visava homenagear. Foi-lhe concedida a palavra para que falasse do próprio pai, numa espécie de biografia sentimental que eu e tantos outros ali presentes tivemos a alegria de ouvir. Desta experiência retiro o tema do texto de hoje, que não tem relação direta com monarquia, sistemas políticos ou coisas do gênero: é sobre a marca que deixamos uns nos outros e, mais especificamente, a que pais deixam em seus filhos.

Naquela tarde na livraria Ferin, o Sr. Saraiva, com voz embargada, mãos a tremer segurando o discurso escrito à caneta, não nos disse quem fora Mário Saraiva, pensador e médico português; nos quinze ou vinte minutos que preencheu com sua fala emocionada, nos contou quem foi seu pai – coisa muito diferente. Para ele, era impossível tratar do intelectual sem enxergar a figura paterna e pessoal de sua história. Para qualquer um de nós, ouvintes, era tudo sobre o tal Mário Saraiva; para Jaime, era sobre o homem a quem chamou de pai, por quem cultivava vários sentimentos, retinha uma série de imagens e confessava alguma intimidade. “Papai então decidiu fazer isto”, “papai me dissera para nunca aquilo …”.

As cenas eram todas interessantíssimas e com a narração do filho se tornavam um verdadeiro deleite. Entretanto, enquanto prestava atenção no testemunho do Sr. Jaime Saraiva, fui tomado pela seguinte pergunta: como serei lembrado pelos meus filhos?

Pensei nisto durante os últimos dias. Hoje, enquanto imaginava este texto, veio à minha consciência o célebre artigo de Javier Marías sobre seu pai, meu mestre filosófico, Julián Marias. No jornal El País, em junho de 1994 – quando o autor de Antropologia Metafísica celebrava 80 anos – o filho romancista escreveu: “No está bien que sea yo quien escriba este artículo. Es poco elegante que el padre hable del hijo o el hijo del padre. Pero el padre cumple 80 años el 17 de junio y el hijo ha tenido que oír en su vida demasiadas sandeces en boca de imbéciles o de malvados. En este país casi nadie recuerda nada; de los que recuerdan, muchos falsean; y los que no tienen edad, simplemente no saben. Además, en la literatura y el cine hay tradición de hijos justicieros, o vengativos, o rencorosos. No me importa hacer por una vez ese papel”.

Estava clara a intenção de Javier: salvar do esquecimento o Julián Marias a quem amava. A autoridade da escrita provinha da intimidade pressuposta, da imagem filial cultivada, do apreço objetivo e sincero que desenvolveu pela vida e obra de seu pai. De uma forma como eu jamais poderei falar – por ser eu, na melhor das hipóteses, apenas um discípulo – Javier Marías dá-nos um testemunho, análogo ao de Jaime Saraiva, de quem era seu pai. Revisita capítulos da história espanhola na qual estivera envolvido, menciona fatos políticos e culturais importantes (sempre ligados à biografia de Julián), cita ressentidamente a ausência de prêmios e outros reconhecimentos da parte do público e do Estado espanhóis.

Para além dos defeitos que o grande seguidor de Ortega y Gasset devia ter – e que provavelmente estão no fundo mnemônico de seus filhos – Javier Marías não deve esquecer do ressentimento a que alude no referido artigo: talvez seja esta a realidade a ser lembrada sobre seu pai, intelectual injustiçado em seu próprio país, falsamente admirado  e estudado para fins de teses de mestrado e doutoramento (pobre é o nosso tempo, não?).

Este exemplo serviu apenas para ilustrar o meu ponto: pais, independente da vocação e tipo de vida, deixam marcas em seus filhos. Estas marcas têm caráter radicalmente pessoal, pois o pai é uma das presenças de maior relevância na formação do mundo pessoal do filho (seja pela via positiva, seja pela negativa, quando se faz ausente ou distante). E pelas características mesmas desta relação – pai e filho – as memórias salvas por um e por outro revelam aspectos importantes do núcleo pessoal do pai, que não é absorvido como “o médico”, “o engenheiro” ou “o professor” pelo seu descendente. A paternidade não é uma profissão ou um caminho de vida, mas uma vocação que altera existencialmente o sujeito que a confirma. Por isso, os relatos e testemunhos de um filho, quando feitos com sinceridade, são verdadeiras obras de acesso à intimidade do quem – muito além do que – do homem/pai.

Se as biografias individuais têm história e sentido, as relações também. Têm trajetórias, destino, argumento e, por que não, imagem final, conclusão temporal. Quando morto um dos lados da relação, é mister uma espécie de balanço e salvaguarda “daquilo que fica” no fundo da memória. Fruto de interpretação, de convivência e de espelhismo (aquilo que o outro reflete sobre ele e sobre mim), projetamos pessoalmente um pai que chamamos de nosso. E isto diz muito, não só sobre o pai de que é reflexo imperfeito, mas também do filho que seleciona e compõe para salvar.

Na presença do Bernardo e do João Pedro, tão pequenos ainda, tenho me perguntado o que haverão de salvar do vazio deste pai que lhes foi ofertado. Não será uma invenção, eu sei; mas uma interpretação do que intimamente reconhecerem ao longo da vida, numa realização análoga à da eternidade, imagem imutável do que tem de ser lembrado.  É esta, para mim, uma das maiores glórias da paternidade: eu jamais serei esquecido.

Só não sei dizer pelo que.

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