Diz Ortega y Gasset que o filósofo tem apenas uma teoria. Todo o esforço ao longo da vida de estudos visa expandir, criticar, rever, comprovar aquele sistema pessoal de ideias, maior ou menor conforme a envergadura intelectual do próprio filósofo. É como se todas as suas questões e temas – expostos em livros e aulas – tivesse uma única raiz, mais profunda e frutífera quanto mais pessoal e verdadeira. Conhecer a obra de um Tomás de Aquino, de um Leibniz, de um Voegelin, é reconhecer a origem daquilo que, em forma de teoria ou proposição, tomamos posse enquanto leitores e alunos. O caminho entre o frêmito inicial e as conquistas partilhadas com um pequeno ou grande público é o que se pode chamar trajetória intelectual e que, no caso do filósofo, torna-se a mais radical de sua biografia. E assim como acontece no conhecimento de qualquer alma humana, também em relação à do filósofo é preciso lembrar dos segredos não revelados, das perguntas não respondidas e, portanto, do movimento interior desprovido de testemunhas externas.

Quando li Mapa do mundo pessoal, do Julián Marias, tive a sensação – perigosa, frágil – de ter captado sua teoria na primeira leitura que fazia de sua obra: antes de qualquer mergulho em seus livros e vídeos, antes mesmo de compreender sua situação histórica, sua herança e circunstância, eu parecia tocar aquele segredo que ultrapassa a análise e precede a palavra. Foi o primeiro texto de Marias que li, e naquela leitura eu soube, de alguma forma, qual era a “teoria” do mestre de Valladolid.

Posso dizer que vi, e que esta mesma visão era um tipo de reconhecimento: havia algo meu naquilo – não simplesmente uma projeção individual -; era como se finalmente alguém falasse meu idioma, se comunicasse comigo e dissesse de modo autoral como ele enxergava as mesmas coisas que eu passaria a ver com maior clareza no passar do tempo. Aliás, estando com apenas 33 anos, sei que esta é uma trajetória que não cansará de me surpreender e causar o espanto a que Platão se referia.

Mas eu falava da teoria única de todo filósofo. A de Marias – corro o risco de dizer -, é sobre a substância pessoal; aquilo que não se define como coisa, mas como um quem. Sua obra, extensa e variada, revela este denominador comum se lida com atenção merecida. Na verdade, é mais do que um elemento comum: é perspectiva, no sentido orteguiano (revela radicalmente como Julián Marias olhava a realidade desde seu ponto irrepetível na história do mundo). Um de seus últimos livros, Persona, é a prova oferecida aos que só acreditam vendo.

O mais impressionante no caso do autor de Antropologia Metafísica é a correspondência fiel, sincera ao ponto da humilhação deste leitor-aluno, entre o que ensinava e o que vivia (pois como lembra Ortega novamente, enquanto se vive, não se filosofa): Marias era um amante, tal como chamado pela avó desde muito pequeno, e prestava atenção genuína naqueles que amava (como em sua Lolita e filhos). Sua teoria nascia de sua vida e jamais fugia à anuência desta. Tanto que, para as questões mais dramáticas de seu sistema de pensamentos e ideias, foi da vida (como a sentia) que retirou solução: amor. O homem é criatura amorosa, e é isso que o define em sua altura e profundidade, protegendo-o da despersonalização.

Em suas Memórias, deixa claro que no seu caso o amor não foi um conteúdo, mas realidade natural: da infância à velhice, sua biografia foi uma espécie de testemunho daquilo que, nos livros e aulas, tentava dar expressão consciente. Mesmo quando era a Espanha o assunto principal, não o abordava de maneira imparcial ou acadêmica: era o amor pela pátria que o conectava com a terra natal de Unamuno, Baroja, Suarez, São João da Cruz etc.

Seu próprio mestre, Ortega, havia usado a expressão criatura amorosa antes dele. Mas não se trata de saber quem é o autor de uma ideia, mas o homem que encarna a realidade pretendida intelectualmente. E disto, perdoem-me os orteguianos, não resta dúvida: Ortega é o filósofo do amor, mas Marias é o filósofo enamorado.

Talvez seja aí que minha vida encontre ressonância na de Julián: não em sua integridade admirável (distante para mim), mas na teoria pessoal que parte da dele. Sendo brasileiro, do século XXI, não respondo à questão da substância pessoal que somos, mas ao drama contemporâneo de ter como resgatá-la.

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