É certo que a vida assemelha-se a um campo de batalha onde nem mesmo os soldados feridos podem descansar. Há dificuldades inerentes e artificiais, dor e enfermidades, angústia e perda, contingência e morte. Quem tenha saído daquela adolescência existencial – coisa nem sempre condizente com a idade -, sabe o suficiente para não mais cultivar ilusões sobre uma realidade que, em si mesma, é incompatível com delícias sem limites e clima de festa dionisíaca permanente. Portanto, assumida a perspectiva de que viver é mesmo um ato de fé no sentido último das lutas que aqui travamos, resta, a meu ver, encontrar a maneira possível de o fazê-lo sem que nos tornemos amargos, neuróticos ou pessimistas, incapazes de reconhecer neste mesmo lugar de desconcertos aquela parte – aquela pequena e imprescindível parte do mundo – em que uma fonte sacia nossa sede e abranda todo o sofrimento.

Eu acredito que existem pessoas que encontram essa fonte com mais facilidade do que outras. Tenho conhecido algumas, para minha felicidade. São homens e mulheres de presença leve, verdadeiros artífices na absorção das circunstâncias existenciais – sejam elas quais forem. Geralmente não resistem às imposições da vida, não maldizem a própria sorte e são incrivelmente maleáveis, o que lhes permite estar sem impor. Uma das características mais admiráveis, ainda, é sua ingenuidade, pois as pessoas leves fogem à tentação de Faetonte, que ao querer dirigir a carruagem do deus Hélio pôs fogo em toda a Terra. Em outras palavras, não corrompem nem pervertem aquilo que se lhes apresenta: tomam as coisas pelo que elas são e alegram-se pelos mínimos dons recebidos.

As pessoas de vida amarga, dura e pesada, acrescem camadas de escuridão ao já dramático ato de viver. Andam como se de mal com este mundo, inventando desculpas para manter seus ciclos viciados de melancolia e mágoa, desconfiadas de toda a gente e sem qualquer lirismo sobre a convivência e o próprio destino. Numa reunião de família ou de amigos, são aqueles sujeitos de quem devemos nos prevenir, cuidando com o que falamos para não ofender ou despertar seu ressentimento geral. Na sua presença, a vida se enche de regras e monotonia, e por estarem dentro dessas gaiolas a que um dia aceitaram como suas, não suportam a hipótese de um dia sucumbirem: daí sua insistência na atitude impermeável, às vezes grosseira e cansativa, que os protege enquanto estátuas.

O melhor que pode acontecer a alguém que golpeia a si mesmo no campo de batalha é ser ferido por outro: um tipo de ataque que ponha em risco seu mundo e questione suas bases; algo tão intimidador e verdadeiro que obrigue o pedido de socorro – a maca e o hospital em que às vezes deitamos para sobreviver. É a comunhão entre os homens, nas palavras de Roger Scruton, o rosto de Deus: a imagem a que cada um pode contemplar neste vale de lágrimas e, apenas por esta razão, provar algo de uma vida em abundância.

As pessoas leves conduzem suas existências como se tudo fosse realmente graça, e por isso não desperdiçam um encontro, um banquete, uma caridade – nem uma doença, um fracasso ou uma fome. Sabem que sua fortaleza nasce justamente de uma perspectiva mendicante e vadia: uma confissão diária (e jamais revoltada) de que esta batalha sempre esteve perdida.

 

 

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