A casa
O homem é um vadio à procura de casa. Nasce sem teto, desprotegido, com todas as fragilidades nuas e as fraturas expostas: é perecível, não sobrevive a frios e calores extremos, sofre as inúmeras ações do tempo e do espaço, morre por qualquer besteira microscópica que dele faça morada provisória.O homem cresce morrendo, inseguro, pouco a pouco mais perto do seu fim, num fado que todos inexoravelmente conheceremos.
Malária, resfriado, tuberculose, câncer, acidente de carro, hiv, infecção hospitalar, “o coitado tropeçou na rua e bateu a cabeça”, falta de comida, uma ferida na pele não tratada, “estava limpando o jardim quando foi picado”. Para morrer, basta estar vivo, dizemos. O homem transita, de lá para cá, tentando não cair, tentando não se contaminar, tentando sobreviver às bactéricas que o humilham, ou aos assaltantes do bairro, ou ainda à quebra da bolsa onde depositara quase tudo.

É a aventura do errante essa a de todos nós. Mudamos de cidade (quem sabe lá uma vida melhor), casamos, separamos e casamos novamente, apostamos os recursos num determinado curso, abrimos a loja no centro da cidade com as últimas economias. Fazemos amigos, nos decepcionamos, trocamos de amigos, perdoamos os anteriores, convidamos para um churrasco. Vamos à missa, ao culto, ao retiro com o guru. E erramos. Como se não houvesse amanhã para errar de novo, cometemos os nossos crimes e pecados diários no trabalho, na frente dos nossos pais, dos filhos, do cachorro. Do nascer ao pôr-do-sol andamos como quem porta uma meia-luz, sem a certeza do que vem à frente, apalpando com mãos inseguras a realidade que quase sempre nos escapa e assiste aos nossos dissabores e quedas, enquanto os anos correm e nos sentimos cansados de errar por aí, tomados cada vez mais de uma vergonha que parece constituir essa nossa andança .. vadia … para onde?
O trabalhador termina o seu turno, bate o cartão e espera o transporte público. Quer voltar para o lugar de onde mais cedo saiu. Um misto de sentimentos o acompanha pelo caminho: passou-se mais um dia de erros e insuficiências, mas ele pode repousar. Pode perdoar as próprias falhas enquanto toma seu banho e arranca do corpo os sinais de perda e as sujeiras de horas tão mal vividas. Ele imagina, durante o trajeto que faz para casa, que também irá se alimentar, encontrar alguns dos seus, deitar em frente à tv: todas essas cenas compõem uma espécie de paraíso pessoal, limitado tão somente pela infinitude que não o abarca: horas de sono depois, o relógio soará o tempo das responsabilidades, dos deveres e das causas que quase sempre não são suas, mas que precisam ser tocadas.
E outra vez o ciclo se perfaz, como acontece desde o dia de seu nascimento: expulso do útero, empurrado para fora de casa, porque a vida, dizem, está lá fora e tem de ser conquistada. E por isto veste seus trajes de guerra, põe suas mantas, gorros e botas, e sai em outra aventura fadada ao fracasso – porque nenhum lugar lá de fora será como aquele lá de dentro, de onde saíra, como todos os outros saem, diariamente, já que não podem permanecer (o feto que não irrompe, morre).
Porque neste mundo a permanência é transitória, e por isto cada um de nós quer chamar a um pedaço dele, um pequeno e simples pedaço deste mundo que seja, de casa. Quer poder se esticar sem meias ou gravatas, dispor os móveis como bem entender, forrar a parede com fotos, colecionar bonecas de porcelana, deixar tocar repetidamente a canção que mais agrada. Cada um de nós quer ser o rei ou o súdito de um castelo que conhecemos e com o qual nos identificamos a ponto de chamar familiar. Porque se lá fora podem haver estranhos costumes, irreconhecíveis práticas entre os seres, ali, dentro de casa, não somos estrangeiros: todas as nossas coisas falam uma única língua, e ela é maternal, acima da gramática seca que une aos diferentes na praça.
E se nos fosse permitido escolher a própria morte – e eis que existe uma “boa morte” segundo os crentes – pediríamos pela passagem tranquila dentro de casa. Aquela, das chamadas boas almas, que morrem dormindo, na própria cama, sem nenhuma dor. Naquele instante final a aventura do errante dá lugar ao sonho, e sendo moribundo em paz, vai de um vaso para outro maior, de uma origem aparente para outra essencial, e o sentimento predominante – se houver – é aquele do haver, enfim, chegado.
A porta
A mesma porta de casa separa e comunica: põe em lados opostos a rua e o espaço familiar, sendo a abertura pela qual tanto o mundo chega, quanto o que é de dentro da casa sai.
Tem sempre uma fechadura, porque guarda o que se considera um bem inexprimível, porque protege de invasores, de gente não convidada, do vento e do frio e até das notícias que em ondas infernais tentam entrar e agitar o que se considera o lar.
A porta, de fato, é uma passagem: o dono da casa a atravessa e tudo pode ser diferente: se para o lado de lá, em direção ao barulho, ao ziguezaguear de tantos outros errantes, à empresa e à festa depois das seis, mantém-se de gravata, respeita as etiquetas, obedece às regras que ordenam a todos publicamente. Aliás, é do lado de lá, para o qual a porta dá passagem como quem dá um bilhete de viagem para o exterior, que a vida se passa sob uma luz forte e por vezes intimidadora: a arena de todos os eus, o vasto campo, as largas avenidas onde se esconder é quase impossível – mas costumeiramente desejado pelos que transitam. O que a porta fecha para o lado de cá, onde o chão de carpete é macio, as flores são minhas tanto quanto as correspondências e as contas com o meu nome, as paredes coloridas ou os objetos desnecessários tornados significativos, é um mundo que só se ilumina para mim: para todos os que estão fora, ele é segredo, intimidade e propriedade minhas. Posso até me apegar a tudo que vai dentro de tal maneira que não deixo ninguém passar por aquela mesma porta – e meu mundo, meu pequeno e estreito mundo, não faz parte mais de tudo que se passa lá, longe da minha casa e que cada vez mais parece não me dizer respeito.
Voltemos à porta – geralmente de madeira, algumas de ferro -: essa porta, assim que fechada atrás de mim, depois de um dia estudando, encontrando pessoas ou trabalhando, tem no seu rangir poderes incríveis; de desatar o nó da gravata, fazer voar os sapatos, provocar um suspiro de alívio. Se a sensação se prolonga, tira até a minha roupa, deixa-me à vontade, devolve-me o pequeno mundo no controle remoto que seguro enquanto deito no sofá de um jeito que ninguém me vê – ninguém pode me ver assim.
De manhã, tomando o café, o homem olha para a porta enquanto segura a xícara: calcula que precisa sair, precisa vestir um personagem, deixar os problemas ali, junto do aparador da sala. Espia pela janela o tempo que faz lá fora – parece que chove. Todos os homens hesitam nessa hora. Seguram a maçaneta com mais ou menos automatismo – porque precisam, porque estão ansiosos, porque não têm tudo o que querem ali, do lado de dentro. E todos os homens são outros quando atravessam a porta.
A sala
Na Idade Média, este era, muitas vezes, o único grande cômodo de uma casa. As noções de privacidade ou intimidade, ainda imaturas, dispensavam quartos de portas fechadas ou arquiteturas mais elaboradas que separassem a moradia em duas partes: a familiar da pessoal. Foi a Modernidade – e as consequências atreladas ao aburguesamento das sociedades europeias- que trouxe, com fortes apelos às consciências individuais, a perspectiva do reino particular, ou da necessidade do recolhimento num quarto, de casal ou não, longe dos olhos de todos que residissem na mesma casa.
A partir de então, restou à sala a função de espaço de convivência: o lugar tanto de atravessamentos e impermanências individuais, quanto de conversa, troca, partilha. A sala, que antes confundia-se mesmo com a casa, passa a ser a “de estar”. O verbo em português, aqui, é dúbio, pois esse “estar” não significaria, a princípio, instalar-se ou permanecer numa situação, mas encontrar-se: a dimensão social se apresenta, e tal pedaço da casa onde se vê um sofá, um tapete para conforto dos pés, uma mesinha de centro para apoio da bebida e das revistas para distração, é oportunidade para “estar com”, nunca só (porque sozinhos ficamos nos nossos quartos ou no banheiro). Na sala, impera o chamado do nós: tão confortável quanto as poltronas, são os aconchegos das vozes conhecidas, do colo da mãe para o filho adormecido, do peito do homem para a mulher que narra os fatos do dia. Vindo de outro endereço, o amigo se encontra ali com a gente da casa, dá e recebe vida, é convidado para ficar.
A sala muda de tom conforme os espíritos presentes: pode ser lugar de silêncio, descanso merecido e apenas algumas sílabas de consentimento. Mas parece-me que ela realiza melhor o seu intento quando vê dançar pelos seus ares as dinâmicas das palavras: quando os dois ou três que ali estão conversam, porque seu estar é estar para o outro. E esses encontros, noturnos, vespertinos, não importa, se perfazem na fala que se interessa, comunica, recebe as dores e as alegrias do parente, do amor, da visita.
É como se a sala de estar fosse o lugar da atualização dos eus que vivem debaixo do mesmo teto, principalmente, como se, estando, expressassem uns aos outros quem têm sido lá fora e por que caminhos andado.
E como tudo numa casa, este cômodo também pode ser rebaixado e as suas funções diminuídas: não houve, na história recente da humanidade, realidade que destituísse tanto o valor da sala quanto a tv ou, mais recentemente, os celulares e afins. São estes produtos da nossa engenhosidade que criaram paradoxais particularismos no lugar em que predominava a unidade. De um espaço de encontro e diálogo, transformou-se, em tantos lares, num deserto de interesses egoístas, com cada indivíduo apartado dos outros pelos seduções que chegam pelas telas – e o desencontram.
Se é certo que a sala de estar não é o espaço mais adequado para a intimidade – esta, sim, desde há muito proporcionada pelos quartos reservados -, também é verdade que ela é um convite (entre, sente-se, quer um café?): nela começam os movimentos em direção ao outro que mantém vivas palavras como família, convivência, conversa. Dali, pode-se andar até os próprios aposentos com algo mais do que solidão.
E o que dizer, aliás, dos que moram sozinhos. A sala de estar, privada na maior parte do tempo de sua vocação, não é mais do que espaço para ficar: a ver tv, a pensar, a ouvir os sons da própria mastigação, sem outra melodia que venha de fora para o encontrar.
A cozinha
Quando criança, algumas vezes me peguei diante do fogão da casa, parado, olhando para um bolo que assava. Era curioso ver que um elemento líquido, depois de batido à mão e colocado no forno por quarenta minutos, não só crescia dentro da forma, como mudava de estado: fofinho, com aroma de fubá ou chocolate, aguçando meus sentidos de menino e pedindo ser comido.
– Espere esfriar, Tiago. Bolo quente dá dor de barriga.
Esta é uma, entre tantas, experiências do tipo. De memória, vou a à outra: durante alguns anos, morei com minha família numa casa em que a cozinha ficava do lado de fora, atrás da construção com os quartos, sala e banheiro, numa edícula junto à churrasqueira. Era uma grande e acolhedora cozinha, com uma mesa de granito pesada e bancos de madeira projetados (nos quais eu sentava para almoçar, depois da escola, ou para estudar). Lembro de ser um lugar querido por todos nós, que muitas vezes preferíamos ficar ali, mesmo que sem comer (o que, na minha família, é coisa mais rara). O único defeito, digamos, era justamente ela ser separada do resto da casa – e nos dias de chuva, quando batia a fome ou a sede, revezávamos a caminhada molhada até essa cozinha para trazer de lá, até a sala onde nos encontrávamos, o que algum de nós queria ou precisava.
Muitos amigos e visitas invejavam esse nosso espaço separado, tão bem montado, tão propício para sentar, conversar e comer. Quantas vezes passamos noites festivas entre a mesa de pedra e a churrasqueira ao lado, levando pratos de lá para cá, servindo carne, lasanha, macarrão, bolo prestígio, mousse de maracujá. A comida, sempre ela, unia, nutria, ensejava mais encontro.
Adolescente, muitas vezes cheguei em casa, atravessei o portão de metal e fui direto para a construção ao fundo, cheio de apetite. E lá, como uma graça que nunca deixava de ser ofertada, sempre, todos os dias, era me dado de comer. E a fome, que para tantos é quase condição da existência, para mim não passou de capricho: tudo me foi dado em abundância, das panelas, do fogo, da água fervente, das sacolas e mais sacolas de mercado que traziam chocolate, bolachas recheadas, os esforços de meus pais.
Fomos e somos uma família feliz em torno da mesa. Gente que se transforma quando abre a boca e experimenta; que fala do que come, que anuncia o cardápio de mais tarde. Se alguém me pergunta, digo que não sei o que é comer em silêncio (que me perdoem os monges).
O que acontece na cozinha de uma casa são pequenos milagres, sucessivos, café, almoço, café da tarde, janta. As mãos que preparam o alimento – que cortam, temperam, transformam, se queimam -, tiram do tomate, das castanhas e do ovo, o quanto de vida eles podem oferecer. “Dê seu nutriente para meu filho”, pede a mãe à batata que cozinha. Em outras palavras, que não morram os meus por falta dessa vida.
E o que acontece nas casas onde não se cozinha? Onde as panelas estão sempre frias, o fogão sempre limpo, a tábua de carne sem frisos de faca? O que entrega, para si e para os outros, essa mão que nunca se queima? As encomendas, os fast-foods, as marmitas compradas sem trégua: também comem, mas aí a casa vê sua cozinha com as luzes apagadas.
E na madrugada, desperto, com fome, o menino vai até ela e procura, nos armários e na geladeira, tal qual um bicho, o que sacie sua fome. Nada encontra. Volta para o quarto e permanece o vazio.
O quarto 
Qual o tamanho do mundo?
Abro os olhos pela manhã e logo sei, ainda que não o alcance todo, que lá fora é grande; que eu poderia caminhar por toda a minha vida sem que ao final dela tivesse pisado cada canto desta terra. Que se eu fosse o Pequeno Príncipe, planetas, reis e raposas ficariam por conhecer.
“O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.”
O mundo de fora tem mais pernas do que posso ver, mais mulheres do que posso amar, mais comida do que posso experimentar: meu coração se enche de ansiedade por tudo que não poderá tocar, mas meus olhos não: Drummond, homem sabido, não exigia dos olhos mais do que pudessem ver.
Mas o mesmo poeta, em uma de suas tantas faces, sustenta: Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Qual o tamanho do mundo de dentro?
Depende, ao que parece, do tamanho do coração. Que bate dentro, guardado, como guardadas nele estão todas as coisas que importam para mim, para você.
O corpo e o peito o protegem – há carne, ossos, uma caixa torácica como se um cofre: e bem dentro, batendo seus sinais de vida, o músculo que tem compasso e denuncia por que bate.
Numa casa, o quarto é o espaço de dentro do dentro; é a camada mais interna, mais afastada da rua, separada por um corredor, jamais apresentada à visita desconhecida.
Nele existe um mundo: quão vasto? Quão pequeno? O que diz Raimundo?
Quando você fecha os olhos – encosta a porta do seu quarto e diz não para o resto todo -, até onde pode ir? Se despe, se deita, se alonga sobre a cama, feito só horizonte (amanhã, ao despertar, de novo haverá verticalidade). Mas agora, na noite escura e íntima, sem os barulhos da sala e os cheiros da cozinha, que língua secreta você fala? E com quem?
Se um outro homem está ali, fechado com você, o que fazem nesse quarto? “Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é o seu coração?”
Ou, pequeno e angustiado, limitado desde fora, esse mundo de cama e lençóis é um silêncio constrangedor, uma repetição sem interesse, uma vergonha cheia de culpas?
Pois se uma casa tem um quarto, tem um dentro mais dentro; tem um chamado à comunhão secreta e à intimidade a dois, donde provém a vida que, nascida e crescida, enche toda a casa.
Mas eu você sabemos que o quarto pode ser tão pequeno quanto um sufoco constante, e lá fora, só o que existe lá fora, então é grande.
E se a casa está assim enferma, tudo que sai dela padece. Das bocas do fogão, das ausências no sofá da sala, da água do banho que não purifica: pela porta sai cada um, filho e filha, marido e mulher, e não há muita vida. Porque o que faz esse corpo crescer, são as batidas daquele coração tão perto e tão longe, selvagem e amoroso, bruto e delicado. A casa é vasta se vasto é o quarto.

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