Algo da religiosidade humana tem me provocado algumas questões pontuais ultimamente. Uma delas é esta: qual é a medida ponderada, harmônica, da repetição das palavras dirigidas a Deus? Quando nos dispomos a chamar o Seu nome, falar em Sua realidade e manifestações no tempo, culpar, responsabilizar ou perdoar em Seu lugar, atravessamos ou não uma linha imaginária do sentido, aquela que garantiria que cada uma dessas palavras sagradas fossem proferidas ainda sincera e reverencialmente? Dito de outra maneira: até que ponto podemos ir no uso do nome de Deus e de suas supostas ações antes que desrespeitemos o segundo mandamento e tudo se torne vão?

Aludi a um tipo especial de palavras, que chamei de sagradas. Não são bem estes sinais gráficos que são sagrados, como se sabe, mas as realidades que designam. Daí que que seja desejável não proferi-las em qualquer situação, sob qualquer pretexto, pois assim como a matéria da vida, seus sinais também desgastam pelo uso contínuo. Lá se vão alguns anos desde que li pela primeira vez O abandono dos ideais, de Olavo de Carvalho, e percebi o óbvio bem dito: as palavras podem ser manuseadas de tal maneira, com tal exasperação e violência que levam a perder, pela extrapolação usual na boca dos falantes, o sentido único que a princípio designavam. Segundo o referido texto, era o caso da palavra ideal, que hoje aparece na conversação humana sob o melancólico resultado de significar tudo e coisa alguma.

Perdido, assim, o sentido mais exato de um termo, é a realidade mesma apontada por esse termo que fica anuviada para nós, como se escondida sob a confusão poeirenta do falatório irresponsável – repita a palavra dignidade vezes sem conta, em contextos diferentes, e logo perceberá que ela cabe em tudo, ao gosto do usuário, e já não se sentirá o peso, quando ouvido em discurso, daquilo que é digno. Amor, cidadão, felicidade, paz, fascismo: todos exemplos de signos que perderam suas forças e já não esticam seus vetores em direção às realidades primeiras que lhes forjaram nascimento na linguagem. Já muito poucos entre nós sabe o que é amor ou fascismo.

Se isto é assim com aspectos patentes e cotidianos da vida, o que dizer daquilo que tomamos por eterno ou espiritual? Se a repetição desmedida das palavras levam-me a perder de vista as realidades por elas respectivamente designadas, o que acontece se os termos em causa são Deus, graça, santidade, Céu, milagre? Se, como caixas ressonantes a emitir os mesmos ruídos, já nem pensamos Nele quando do nome Dele fazemos uso?

Elias Canetti, num dos textos reunidos em A consciência das palavras, escreve sobre Confúcio: o famoso mestre oriental recusava-se a ser eloquente e, segundo ensina a tradição chinesa, raras vezes pronunciava-se sobre realidades maiores como a morte ou o sentido último da existência. Qualquer dos seus discípulos, de ontem ou de hoje, que seja bom orador, não compreendeu seu mestre.

Falar, ainda que menos do que escrever, tem algo de ritualístico: o emissor que se faz entender é aquele que encadeia termos com precisão, segundo sua gravidade e função, deixando ao seu receptor promessas de realidades mais pungentes, próximas porque bem sinalizadas. Falar ou escrever, portanto, são compromissos de antecipação em que sopramos os primeiros bafos daquilo que em seguida pode ser a revelação mesma do corpo pretendido.

E os corpos têm exigências diferentes, como se pode notar naquilo que designam, respectivamente, fascismo Deus. Se esta é tomada por palavra sagrada, e aquela por sociológica, política ou histórica, fica evidente o abismo entre ambas e as consequências de seu obscurecimento: perder de vista a ideologia fascista não é o mesmo que já não ver a presença divina, “corpo” que se toca pela via dos ritos sacramentais, da sinceridade do coração, da reverência consciente quase dolorosa em virtude de seu “peso”.

Termino com isto: há diferentes speakers entre nós (e eu mesmo, quando professor, corro sempre o risco de ser um deles). Há aqueles que falam sobre os objetos da fé com tanta naturalidade, e numa quantidade tão vexatória, que penso ser-lhes quase impossível perceber a presença real daquilo que exprimem como uma criança que faz vários rabiscos jurando desenhar muitas casas. E existem também os oradores das massas, que falam a toda hora, todos os dias, sobre um mundo de importâncias humanas que, pela repetição, tornam-se para ele mesmo desimportantes. São os profissionais do discurso que precisam manter a plateia motivada, a audiência garantida pela promessa de benesses incontáveis. “Hoje é sobre felicidade, amanhá sobre o amor, semana que vem sobre fidelidade, depois sobre vida religiosa …”.

Penso que o alerta motivado pelas questões iniciais seja válido: sem os vazios e os silêncios que tornam possíveis o significado do discurso, resta a eloquência. Confúcio e Santo Tomás de Aquino (chamado na sua época de “boi mudo” pelos colegas de universidade) devem ter reconhecido esta mesma coisa.

 

 

 

Deixar um comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar os seguintes marcadores e atributos HTML:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>