O homem é formalmente invariante. Toda e qualquer mutação ou transformação não acontece na forma, mas dela emerge, confirmando a forma. Assim em toda a natureza: as mudanças numa macieira podem levá-la a secar, a dar mais frutos, a crescer ou curvar, mas em nenhuma hipótese a dar pêssegos.

No nosso caso as variações são nos níveis físico e psíquico (somados a outros fatores, existencial). As mutações, diria Mário Ferreira dos Santos, “se dão no âmbito da forma”. Do contrário – se fosse a forma também passível de mudança, haveria corrupção da forma anterior e uma nova seria informada ao ser em questão. O homem, se sofresse alteração na sua hominalidade seria outra coisa, não mais um homem. Portanto, e para tornar o mais claro possível, todas aquelas mudanças a que me refiro são possíveis, apenas, dentro de um quadro de possibilidades que a forma contém.

“Ação segue-se ao agente”, ou, do nada, nada vem. Guarde isto. De verdade.

Quando aplicados os conceitos expostos à antropologia filosófica temos isto: nenhum de nós pode fazer ou ser aquilo a que não está, de alguma maneira, destinado a fazer e ser. Dentro da forma de Tiago existem muitas possibilidades, mas não aquela de gerar um filho; noutro sentido, também é impossível ao Tiago trabalhar na Bolsa de Valores, fazer contas complexas (as simples já me atormentam), ser Presidente dos EUA (sem trapacear, claro), e por aí afora. A minha forma, invariável na perspectiva aristotélica (explicada por Mário Ferreira) tem a sina de me dizer o “até onde”: qual o limite da minha vida e, consequentemente, realizações e variações existenciais a que posso me submeter e ser submetido.

Volto a dizer: a ação segue-se ao agente. Aquilo que não posso, que não tenho, que não trago comigo, não emerge nem se concretiza em minha vida. Toda tentativa de forçar a natureza – portanto, deformar a mesma natureza – terá a consequência da farsa, do conto mal contado, da ilusão biográfica (a depender do grau de comprometimento e deformidade).

Vivemos um tempo de soberba no qual todos “podem tudo”; cada um quer ser “todos”. Sem perceber os limites inerentes à condição humana e as fronteiras intransponíveis da individualidade, os homens de agora não têm forma: pelo menos não existencialmente. Há coisas que não são minhas, não me dizem respeito e quando as faço sou caricato, insuficiente, quiçá ridículo. Como Duvivier “sendo” filósofo, Dilma “sendo” estadista”, Paulo Coelho “sendo” escritor, aquele sujeito chato e ignorante “sendo” analista facebookiano.

 Essas pessoas, insistentes, não percebem que “do nada, nada vem”. Constroem castelinhos de areia e investem tempo, dinheiro e energia naquilo que extrapola suas formas (invariáveis, para seu desespero). Pretendem alterar o triângulo para um quadrado e ainda parecer o mesmo. E por isso suas ações são tão estranhas, por vezes bizarras: porque deformadas, corruptas, infiéis.

Você sabe quando está diante de alguém assim (ou, se for o caso, de si mesmo): tem aquele cheiro de “hummm, sei não”. Talvez não fosse esta a instalação do sujeito (ou sua).

“Torna-te aquilo que és”. Toda mudança e alteração, desejáveis na realidade dramática que somos, deve servir apenas para confirmar a forma, a origem, o destino biográfico que, fielmente vivido, revelará o fim.

O fim que não angustia. Aquele, do nascimento – donde algo provém.

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