Uma das coisas mais emblemáticas da vida humana é estar cara a cara com alguém. Apenas você e o outro. Sem terceiros. Sem grupo. Sem aglomerações.

Em todas as outras formas de convivência existem mil maneiras de fugir da intimidade. O olhar pode se perder na multidão, o diálogo pode ser dissolvido numa roda, a mentira pode passar despercebida. Três pessoas reunidas num bar ou numa sala de estar já têm a possibilidade de desviar as respectivas atenções.

Encontro, radicalmente falando, só é possível entre duas pessoas. Expostas, impedidas de fuga e de negligência com a presença do outro, cada uma é impelida a ver e ser vista. A distração é menor – não há outros com quem dividir – e a inclinação da intimidade tem apenas um vetor a ser percorrido: ou vai-se em direção àquele Tu que está à frente do Eu, ou foge-se. Ou expõe-se, ou fecha-se. Ou interessa-se ou despreza-se. Em face do outro atualizamos nossos graus de humanidade ou recusamos o chamado a ser.

E assim como a presença, a fala humana é sempre dirigida. Quando falamos a um grupo, literalmente “espalhamos” a mensagem: diluímos a fim de que todos possam captá-la. Olhamos em volta e distribuímos as palavras e intenções entre os ouvintes no intuito de fazê-las chegar a todos (ou à maioria). Estando a dois, a capacidade de comunicar só pode ter um sentido e por isso mesmo sai do emissário com muito mais força; no receptor, tem maiores chances de achar terreno fecundo. Uma conversa pessoal é uma conversa a dois. Sempre. Sem exceção.

Os melhores livros e os melhores discursos são aqueles que aparentemente falam comigo: o autor queria que eu soubesse daquilo. A ilusão de intimidade, nestes casos, é intenção de quem escreve justamente por saber que diálogo verdadeiro dá-se entre dois. Os vetores – direções de mensagens – vão de um para um.

E toda a comunhão entre os homens, todo o gozo da convivência, solidariedade e efetivo consolo entre nós é possível apenas a partir dos encontros íntimos entre as pessoas. É isto que sustenta nossa comunidade. Amizade, amor, discipulado: dois a dois, verdadeiramente interessados um no outro e confessos de suas misérias, vergonhas e centelha divina. Todos estes elementos devem naturalmente estar presentes num encontro e nenhum deles é conquistado na homogeneidade das massas, na identidade de grupo ou no exibicionismo das redes sociais.

É preciso voltar a percorrer o longo caminho que extrai da minha realidade radical e leva à do outro. É preciso recuperar aquele atrevimento que me faz tocar alguém com a mesma intensidade de quem não deseja a solidão infernal. Sim, porque existe uma solidão paradisíaca: é a que sentiremos na hora da morte e no derradeiro encontro entre nosso eu e o Tu absoluto, como diria Gabriel Marcel.

Para que este encontro derradeiro aconteça – e para que eu esteja preparado para tal – é necessário que eu prove muitas vezes da insegura e transcendente relação a dois. Sem armas, estratégias ou falseamentos, devo me inclinar a pessoas de carne e osso; procurá-las e identificá-las individualmente, respondendo com minha própria vida o lugar que nela ocupam, o continente biográfico em que habitam. Cada uma das minhas relações tem uma história e nenhuma delas deve ser tomada em abstrato (o que, praticamente, seria traí-la).

Contudo, é emblemático e doloroso, no mínimo. Todo aquele que experimenta a intimidade a dois sai alterado e nenhuma alteração é absolutamente indolor. Por isso muitos fogem dos encontros pessoais como quem foge do fogo do inferno. Não percebem que, agindo assim, dele se aproximam, pois nada acelera mais a descida ao inferno do que a solidão neurótica e ilusória; a impostura que confunde individualidade com suficiência.

A solidão e o grupo têm seus motivos de ser. Mas só a comunhão a dois tem a possibilidade de salvar.

 

 

  1. Essa foto seria do filme A hora do lobo de Ingmarr Bergman? Sou fã deste cineasta. Gostei muito da sua proposta de conteúdo filosófico do qual, aliás, também sou fã.

Deixar um comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar os seguintes marcadores e atributos HTML:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>