A sociedade moderna, entre outras coisas, exige de seus participantes a observação de algumas regras. “Para a melhor convivência”, costuma-se dizer, é preciso respeitar os direitos do outro, as diferenças, os limites, etc, etc, etc. Não se pode, por exemplo, num dia de calor intenso, sair à rua nu; nem resolver escutar um cd de rock às 03h da manhã, morando em apartamento e tendo muitos vizinhos. Também não se deve gritar numa biblioteca, urinar na praia, furar fila no banco, jogar lixo no chão, estacionar em vagas reservadas a deficientes. Tudo isso, seja fruto de leis redigidas por políticos ou pelo decoro social, serve ao propósito da melhor interação possível. Sendo a sociedade moderna um agrupamento complexo, grande, com vigências e dramas próprios, faz-se necessário o mínimo de observação a este conjunto de regras que, se tudo estiver bem, condiz com a média de aspirações de seus indivíduos.

Portanto, respeito humano é uma necessidade social. Se não aplicarmos um pouco do princípio moral de Kant – faça aquilo que todos deveriam fazer em seu lugar – não suportaríamos conviver. Se eu agir a todo tempo do modo que eu quiser, como vier à minha cabeça, sem pensar um instante nas outras pessoas, isto será prova de minha inaptidão para a participação social. Um pouco de elegância, de altruísmo, de sensibilidade com as necessidades diluídas no corpo coletivo, são posturas pertinentes para a manutenção e saúde da sociedade. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra: Durkheim tinha sua cota de razão ao falar do “eu social”.

Pois bem. Como tudo na vida humana, este respeito também tem um limite. Na outra ponta está o famigerado politicamente correto: esta porca ideia de que é preciso ser uma máquina de repertórios previstos, sempre pronta a responder da melhor maneira possível ao que o outro espera de mim. Se dar de ombros para todas as convenções sociais é assumir uma postura de vida adolescente e insensível, atender a todos os apelos por elas impostos é tornar-se um chato insubstancial. Neste caso, sacrifica-se o eu radicalmente pessoal no altar do nós. Importa apenas aquilo que jamais ferirá a qualquer um do nosso grupo. Daí que mereçam respeito todos os homens e mulheres porque, afinal, são humanos.

É tênue e dramática a linha que separa o bronco do chato. Por isso, a fórmula do respeito humano não deve ser aplicada a todas as situações indistintamente, nem ser execrada completamente. Qual a solução?

São duas: amor e verdade. Para Santo Agostinho, a base da sociedade humana é o amor; só com esta disposição eu posso agir e promover os outros, realmente. A verdade é seu princípio e corolário: porque aspiro à verdade, amo para promovê-la em meu meio social (aliás, a verdade como conexão entre as pessoas numa sociedade sadia é objeto de estudos de Julián Marias em “Tratado da convivência”).

Daí que a tensão exposta nos parágrafos anteriores se resolve, novamente, no acesso ao núcleo pessoal: aquilo que reconheço como verdade na minha sociedade, deve ser promovido, amado, levado adiante. Aquilo que meu núcleo repele por identificar falsidade, ideologia, maquinação, eu implodo. Quer dizer: a dose de respeito será proporcional à dose de verdade reconhecida. À mentira, diria Julián Marias, é preciso ser intolerante.

Não me causa repulsa o gosto do brasileiro pelo carnaval, por exemplo. Enxergo nele algo nosso, histórico e tradicional (não em algumas de suas formas grotescas atuais). Por isso, não sou um dos que se inflama contra os blocos de rua e desfiles. Já a religiosidade enrijecida, fechada em um conjunto de mandamentos, repetições e excessos ritualísticos – que serve a qualquer povo mais velho e de alma condizente à forma enunciada – me causa, sim, repulsa. É certo que não podemos ser religiosos apenas no sentimento, mas também é certo que deve haver uma forma brasileira de viver a dimensão da fé – e que não ficará tosca, macaqueada, tal qual vemos nos arautos que publicam cartas apostólicas e criminalizam o samba no pé.

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