Lembremos da velha oposição entre artistas, escritores e intelectuais e os verdadeiros trabalhadores da sociedade (operários, engenheiros, médicos, etc): os últimos são os responsáveis por mantê-la funcionando, justamente por exercerem atividades importantes para a sobrevida da estrutura social. Não é possível uma cidade, especialmente nos dias de hoje, sem esta teia de relações produtivas desenhada pela atuação desses homens e mulheres ativos em seus respectivos campos profissionais.

O capitalismo deu sua contribuição para que isso fosse ainda mais evidente (não é apenas conversa de marxista ressentido): “produzir” tornou-se o meio pelo qual alguém alforria a si mesmo e conquista algum respeito social devido à sua inserção na máquina do mundo. Ter um emprego ou ser um advogado autônomo, ganhar salário, pagar impostos, consumir: de fato, o dinheiro conquistado com o suor do próprio trabalho é uma das garantias de liberdade na configuração predominante.

Mas sempre há os que não se reconhecem nesta teia organizacional e que, portanto, sofrem por não produzir. Têm pouco a apresentar praticamente para o mundo e, neste sentido, seu acerto de contas é sempre um tanto vergonhoso. A cantora de música popular, o pintor de inspiração clássica, o escritor auto-exigente, o intelectual sem departamento universitário: são todos outsiders, pois contribuem muito pouco para a manutenção da roda. E ela precisa girar.

A lista de poetas brasileiros, por exemplo, que morreram na amargura total por não serem reconhecidos como contribuintes e, portanto, jamais alcançando reconhecimento de seus contemporâneos trabalhadores, é grande. Os filósofos que optaram por lecionar e escrever desde suas casas ou pequenos centros culturais são outra fatia interessante de vadios nunca admitidos no seio dos produtores.

A palavra vadio não foi por acaso. Recordo uma das poucas gravações feitas da escritora Karen Blixen (Fazenda Africana, A festa de Babete, etc). Ao se apresentar para a câmera, ela dizia algo mais ou menos assim: sou parte de uma longa tradição de vadios contadores de história. Ao confessar isto, Blixen reafirmava seu pertencimento a uma casta de pessoas que não são produtivas perante os olhos do mundo, pois nada acrescentam à sua continuidade material.

São os vadios, em meio ao seu dolce fare niente, os únicos que podem nos dar algo que só adquire valor se assumida uma perspectiva transcendente ao mundo. Sua falta de ação material não significa inatividade interior (ou espiritual), e é precisamente esta que consola os homens no mundo (tal como a musa que acalma e inspira Boécio em sua agonia de cativo). É o labor de suas horas desempregadas que oferece a todos os outros homens – a depender da grandeza do que se está criando – o lirismo necessário à vida humana, que não suporta a si mesma se atolada em prosaica fabricação.

Mas as coisas não são simples: é antiga a tensão entre as vocações vadias e as eficazes. No Brasil, temos uma expressão disso num recorte tragicômico que é o livro de Orígenes Lessa (O feijão e o sonho). E talvez nem fosse preciso lembrar que muitos de nossos escritores sucumbiram à pressão da “roda” e tornaram-se funcionários que produziam ao longo do dia e vadiavam durante a noite.

Tem de ser assim? Talvez. Existem aqueles que conseguiram melhores soluções para o dilema, outros não.

Mas o que eu gostaria de destacar aqui era justamente a validade deste tempo que é vivido num ócio de tensão, não confundido com a passividade dos entediados ou amorfos. São as horas da madrugada sobre um livro ou uma ideia, os dias a ver paisagens pelas caminhadas no campo, as incontáveis tertúlias e conversas despretensiosas entre amigos, que dão aos que se inscrevem na tradição de vadios o espaço de criação. É a vida, em sua palpitação, correria, dramas e conflitos compartilhados, que dá o conteúdo de sua arte, ciência ou filosofia; mas é o tempo vadio que dá a forma.

Foi Bruno Tolentino quem disse que a poesia não serve para nada. Ele, que era poeta, sabia disso. Serventia é uma qualidade aplicada às coisas do mundo (isto me serve, isto não). Na vida espiritual, temos uma economia bem diferente. E talvez por isso, aqueles que trabalham numa atividade interior profunda, sempre à busca de impressões autênticas sobre si mesmo e o mundo do qual compartilham, tenham também alguma chance de paraíso. O que me conforta, de alguma maneira, é antever que na porta do Céu não haverá um relógio-ponto.

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