A metafísica não é um tipo de conhecimento, como supõem alguns. É um modo de conhecer; uma perspectiva sobre a realidade que contamina tudo o que vejo. Dito de outra maneira, minha inclinação para o mundo, minha ânsia de tocar suas entranhas ou descobrir seus segredos, aquilo a que chamaríamos atos de cognição, podem ou não ser metafísicos. Assim como há quem olhe a história exclusivamente como um resultado da luta de classes, identificando-se como mais um dos elementos presentes na transitoriedade dos fatos, há quem assuma a postura desde a qual vê o que é invisível aos olhos mas não ao coração.

De forma bem simples, as pessoas dividem-se, a princípio, entre os dois modos de conhecer: ou agem como se tudo nascesse e acabasse no tempo, ou como se nada pertencesse apenas ao tempo. A folha de um limoeiro que vai ao chão é uma necessidade lógica e completamente explicada por leis como a da gravidade, ou é também a expressão sensível de uma outra ordem, que no fundo governa este mundo aparente, através de leis e sabedorias eternas às quais não escapam nem mesmo as folhas das árvores.

Miguel de Unamuno, grande pensador espanhol e autor de O sentimento trágico da vida, propôs esta mesma classificação de pessoas a que me refiro; mas o fez de outro modo, através de uma dúvida que põe seu leitor em contas com si mesmo, então provocado, pela suspeição da ideia, ao ensimesmamento. “Apenas uma coisa importa saber: se durarei para sempre ou não”. 

Note que a depender da resposta – ou sim ou não – tudo o mais que o indivíduo fizer passa a reverberar a força conclusiva de sua adesão. Contudo, se é a dúvida que alguém sustenta acima de qualquer certeza – uma opção preferencial pela “não resposta”-, é a hesitação que transpira na corrente dos seus dias; é seu modo de conhecer que vacilará entre o metafísico e aquilo que é o seu oposto, quer dizer, o que não perdura. Diante da questão unamuniana, os mornos – encaremos assim os duvidosos – são os que mais sofrem, pois não assumir radicalmente uma postura, por quaisquer que sejam os motivos, é como regurgitar a existência, que nunca encontra um terreno interior na qual possa fecundar como novidade ou repetição (e não seria este um sentido possível ao “serão vomitados”?).

Escrevo sobre estas coisas porque, de fato, são as que verdadeiramente importam. Ao mesmo tempo, confesso todo o meu humilhante vacilo entre o que permanece e o que se esvai na fugacidade, dado o tempo e energia que perco com as mais insuficientes questões, os mais imbecilizantes dilemas, as mais vãs preocupações. Sou eu um desses mornos que sente a vida descer pelo esôfago e, vez ou outra, a devolve, por que a recusa.

Não há tragédia maior para o homem do que esta: negar-se a considerar sinceramente a pergunta unamuniana e, em consequência disto, desviver. Perder o sal da terra em objetivos sem sentido, em lutas desnecessárias, em infernais círculos de status quo, donde nada pode ser diferente e mais pleno porque falta a superação da dúvida.

Todavia, essa tensão que se contorce na alma de cada um, revelada na necessidade contínua de ser quente ou frio, dizer sim ou não, é também, malgradas as desgraças de sua permanência, fonte de glória – a possível para nós que aderimos mesmo que sem a “indubitável” cartesiana. É da aventura humana lançar-se sem a segurança de que no final do mergulho haverá sempre o prazer e o consolo. É da nossa constituição, eu diria ainda, a força para o fazê-lo, sem prejuízo de nossas misérias e recorrentes hesitações na manhã seguinte à entrega que muito nos tenha custado.

Percebam que o jogo vale para os dois lados: Richard Dawkins ou Papa Francisco. Ambos, à sua maneira, deram um salto (ao que parece). Entretanto, o que mais me incomoda, e motiva a escrita deste texto, não é a existência dos tipos, de algum modo úteis e claros em suas adesões, mas o mar de mortos-vivos que, como eu, mordem e assopram, são e não são – como sói acontecer a tudo que não se ajusta aos contornos de uma tipificação.

A mim, e quem sabe a você, só uma coisa importa saber.

 

 

 

 

 

 

 

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