As palavras são como partes de um trajeto que conduz uma realidade de um terreno original e singular para um espaço de convivência e confronto. São nossos instrumentos artificiais de revelação daquilo que nos acomete, nos acontece em alguma profundidade, nos ajudam a compor um testemunho da própria vida. Pela ação das palavras o mundo nos conhece em ritmo e som, ao passo que nós mesmos nos ordenamos em figura e cor. Um diário, uma autobiografia, uma confissão dita ou escrita, são maneiras de configurarmos uma imagem de eu que passa a ser nossa representação no mundo que nos capta como ressonância.

Pois a palavra sempre tem som. Sempre reverbera, ainda que na mente de um leitor que a reproduz interiormente enquanto a torna sua. Disto decorre a apreensão que as palavras permitem que os outros tenham de nós seja uma música, uma canção mais ou menos direta, mais ou menos melódica. As cordas que vibram com a emissão que o outro faz de si mesmo através das palavras são sua entrega, seu modo de apresentação, sua expressão de autenticidade ou repetição; de verdade ou falsificação. A analogia com um instrumento musical bem afinado não poderia ser melhor: cada um sabe da angústia que cultiva em si a fim de soar harmônico ou não.

Mas toda palavra é também uma imagem, objetarão alguns. De fato: a palavra casa remete a uma representação que o ouvinte tem dentro de si e que permite a compreensão do que está em tela. Mas o que não se pode negar, a meu ver, é que som precede a imagem; a junção dos fonemas, subjugada às formas da língua, é que torna possível a realização da imagem a que reconhecemos mais ou menos familiar, conforme nossa extensão de vocabulário. Até poucos dias atrás, “cardar” não me dizia nada: era apenas um som compreensível, que projetou-se como representação visual no momento em que consultei seu significado no dicionário.

A aprendizagem de uma língua, em seus rudimentos gramaticais, acontece primeiramente pelo reconhecimento dos fonemas (é assim que crianças aprendem verdadeiramente as letras do alfabeto designadas por aqueles sinais desenhados no quadro, ou que passam a fazer separação silábica). A apresentação inicial da língua-mãe nos é oferecida enquanto bebês pelos sons que aqueles que falam conosco emitem. Dos sons passamos à representação imagética e, então, ao significado pessoal (a intransponível subjetivização das palavras).

É inegável que estamos com sérias dificuldades para nos entendermos atualmente. O falatório é constante, a internet deu mesmo voz aos imbecis (como dizia Umberto Eco) e nunca se provou tão factível a torre de Babel. Diante do que disse até aqui, parece claro que sofremos de uma surdez coletiva que afeta nossa apreensão do mundo e de nós mesmos – já não conseguimos escutar aquilo que ecoa desde nosso mais recôndito ser, nem perceber aquilo que se proclama em meio às praças públicas da discussão. O mal do nosso tempo não é a falta de inteligência ou a escassez de gênios: é antes disto a insensibilidade auditiva.

Queremos falar. Queremos expressar a todo instante o que se passa no nosso pobre ego, na nossa confusa mente de interesses vãos, no trepidar dos nossos corações apaixonados por política, por religião, por tudo que somos capazes de tratar com a gravidade característica do homem-massa. Harold Bloom, parafraseando Nietzsche, diz que “nós encontramos palavras unicamente para aquilo que já está morto nos nossos corações”. Tomemos essa frase e pensemos no vilipêndio que muitos fazem ao falar de Deus, divino, sagrado, milagre, amor, espírito, etc: só nos restará o sentimento de horror diante de tanta mortandade.

Um dos sinais mais sensíveis da falta de atividade interior é justamente o barulho: os sons desordenados e gritantes que se sobrepõem grosseiramente ao silêncio da natureza, que contínua e incansavelmente faz o seu trabalho. Os espaços de convivência, reais ou virtuais, têm se tornado arenas de competição em que é preciso falar mais e mais alto para sentir-se um vencedor. E uma fina ironia perpassa essa miscelânea: a de que tudo soa como mais do mesmo, numa infernal repetição que abafa toda possibilidade de escuta e criação.

Daí que afastar-se, tal como o eremita faz ao querer mergulhar nos insondáveis mistérios que lhe atraem, torne-se uma apetecível resolução. Mas ao mesmo tempo, o outsider reconhece aquilo que Payot disse acerca da verdade: que se revela na comunhão dos homens. E esta tensão, entre o ausentar-se e o fazer-se presente no meio de todos que estão na praça, que configura sobremaneira o homem maduro, o intelectual, o escritor.

Este último, ainda carrega vocacionalmente o fardo de ter de dizer sem que ainda esteja morto o que necessita ser dito. Tendo a afirmação de Nietzsche como uma navalha em sua consciência, todo escritor percorre a longa e solitária marcha da recuperação do que está quase perdido em meio à gritaria. É seu ofício um meio de salvar do esquecimento aquilo que corre o risco de não ter mais voz entre os falantes. É seu dever projetar os sons que devolvem aos ouvintes atentos a possibilidade de harmonia que lhes restaurará o caminho sempre vivificador entre a realidade e sua pronúncia pela boca ou pelas mãos.

Por isso a literatura é, segundo Fernando Pessoa, um esforço para tornar a vida real. É nosso artifício para a arquitetura do necessário para a própria sobrevivência, para a garantia de que aquilo que nos constitui e clama por um modo de expressão no mundo tenha meios de realização. Sem ela, sem a poesia que se revela a guardiã da memória, sem vida humana verdadeiramente.

verbo de Deus se fez carne: há no irrompimento deste som todo o segredo da vida em abundância.

Deixar um comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar os seguintes marcadores e atributos HTML:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>