“Antes de ser pensada, a saudade foi cantada e é filha e prisioneira do lirismo que primeiro lhe deu voz”

Eduardo Lourenço

Não poderia ser mais clichê. Passados dois meses e meio longe do Brasil, escrevo sobre saudade. Mas é aquela história: clichês existem para ser confirmados pessoalmente. Estou cá, afirmando que é verdade aquilo que dizem todos os que viajam, que se mudam, que alteram suas trajetórias a ponto de preterir sua origem. É verdade que entramos num movimento de revisitação da própria vida, à procura do que signifique instalação, morada, um destino enfim.

Como tudo no humano, a revisitação não é neutra, mas qualificada: ninguém pode inclinar-se sobre a biografia e expressá-la sem preferências, insinuações, conclusões emergentes. Em outras palavras, é impossível ao homem não interpretar. Gadamer, aliás, escreveu sobre isto exatamente, e sua obra é uma tentativa de tornar mais patente a condição histórica e interpretativa do homem moderno. E eu estou aqui para testemunhar a favor de Gadamer, autor do famoso Verdade e Método.

Quando me reporto ao meu passado não o faço sem perspectivas pré-selecionadas: a lanterna com a qual busco a mim mesmo nos atos de outrora é dirigida, de luz focada naquilo que me interessa no momento. Se são meus amores, então não são meus sucessos profissionais a que busco. Tal como a consciência (que é sempre consciência de algo especificamente), o olhar investigativo – ou mesmo nostálgico – tem endereço dentro do fluxo de imagens que interpelam-se no fundo mnemônico de cada um. Não posso lembrar-me de tudo, nem analisar a tudo: até mesmo o devaneio sobre si mesmo é fragmentado e interpretado. Estamos condenados a romancear a nós mesmos, e talvez seja este um dos sentidos do que afirmara Huxley: “toda história é ficção“.

A verdade sobre quem somos – que está ligado a quem temos sido, já que o presente é a conexão fugidia de toda a autobiografia como vivida e registrada pessoalmente – é por isso perspectivista (não relativista): é o que conseguimos concluir depois de somar o máximo de fatos narrados e interpretados de que conseguimos tomar posse. E assim esperamos que o conhecimento de nós mesmos seja minimamente íntimo ao conhecimento divino (que contém todas as perspectivas). Por isso, o romance que fazemos da nossa própria história não é pura ficção, nem pura objetividade: é aquilo que podemos e somos justamente chamados a fazer como intérpretes da vida – uma obra. (Uma filosofia da interpretação é algo que se anuncia para mim neste momento).

Portanto, e voltando ao tema da saudade, meu passado me pertence artisticamente; com seu conteúdo eu “crio”, interpretando e dando algum significado para o que me aconteceu e o que pode vir a acontecer. Toda investigação sobre a vida pretérita é isso. Mas o sentimento da saudade tem algo que lhe torna peculiar: é fruto de uma visão paradisíaca sobre si, sobre o tempo, sobre a pessoa, sobre as circunstâncias de que se lamenta não mais estar aqui, presentes. Saudade é um sentimento de interpretação qualificada (positivamente) de quem já fomos.

No ato de interpretar, projetamos mais luz sobre aquele período, reforçamos suas cores vivas, destacamos aquilo que facilmente identificamos como bens. Por isso ninguém sente saudade do que foi ruim ou destrutivo: a saudade é o que se conclui de uma interpretação benevolente do passado, tal como esperamos que Deus faça com toda a nossa realidade. Esperamos que Ele tenha o mesmo olhar “saudoso”, que lança ainda mais luz sobre o que nos dignifica e conta favoravelmente na eternidade pretendida. Dito de outra forma, o que fazemos com nosso passado e que funda o sentimento da saudade é o que, mutatis mutandis, desejamos com toda sinceridade que Deus faça conosco.

E isto não quer dizer que a saudade seja fruto de uma mentira ou distorção da realidade passada. Afinal, os fatos realmente aconteceram (estivemos mesmo lá, naquela altura, com aquelas pessoas, naquela cidade, fazendo aquela atividade). O que importa aqui, e que caracteriza o sentimento, é a interpretação que revela, ao fim e ao cabo, a pretensão de paraíso: fazemos com nossas histórias – ou melhor, com as porções saudosas dela – algum tipo de ensaio de perfeição. Deixamos de lado os problemas e dúvidas e dores daquele mesmo tempo ora sentido como bom, e vivenciamos a experiência da seleção amorosa, da ressignificação paradisíaca da vida. Não podemos deixar de o fazer, pois toda a nossa biografia é a matéria que temos para ensaiar a vida em abundância. E por isso mesmo a saudade excelente, modelar e desejável acima de qualquer outra, é aquela que sentimos do Paraíso.

Tenho sentido saudades imensas do Brasil, de algumas pessoas, do meu cotidiano, da minha casa. Viver este sentimento sem cair na melancolia (sentimento fruto da interpretação oposta à da saudade) tem sido meu novo desafio. Absolutamente compreensível, hão de convir. Mas o que se deve tentar, quando as coisas são vistas assim, de forma consciente, é não paralisar no sentimento, mas observar intimamente a inclinação natural de transformar toda a própria biografia numa nova analogia da história da salvação. É isto que no fundo a saudade tem a nos ensinar.

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