(Texto integral da Introdução do livro lançado pela Editora Danúbio em março de 2015)

A primeira obra literária que li, depois das escolares obrigatórias, foi Tonio Kroeger, de Thomas Mann. Contava eu vinte e três anos. Do final do Ensino Médio até aquela data, passei por uma faculdade de Direito sem ler um livro sequer, apoiado apenas em resumos de textos técnicos exigidos pelos professores. O meu caso, para piorar o cenário, era apenas mais um dentre vários: meus colegas, na maior parte, destinavam as pouquíssimas horas de estudo aos códigos legais, tomados pela iminência das avaliações bimestrais. Não recordo de um só professor, durante os cinco anos do bacharelado, que tenha citado algum clássico da literatura em aula ou nos indicado algum título para realização de debates ou seminários. 

Antes de me casar, em 2008, aos 25 anos, dois amigos deram-me uma grande caixa de livros como presente. Quando abri, ávido de encontrar uma variedade de títulos de Filosofia e História, não foi pouca minha surpresa quando dei de cara com um amontoado de obras literárias; obras que – lembro-me bem – não me causaram boa impressão, muito pelo contrário. Pensei em desperdício de dinheiro, pensei que poderiam ter comprado muitas coisas mais interessantes…Antes da experiência de leitura do romance de Mann, no entanto, é preciso que eu volte à época da escola, para que o leitor entenda o que direi em seguida. Consegui chegar à conclusão do ensino básico tendo lido, na sexta série, as primeiras e últimas páginas de Pollyana, de Eleanor Porter. Nada mais. Nem Machado, nem Lima Barreto, muito menos Senhora, de José de Alencar (exigido pela professora de língua portuguesa certa vez). A exceção fora a adaptação infanto-juvenil de Robinson Crusoé, lida ainda no Ensino Fundamental, e que despertara em mim um desejo de aventuras e algum tipo de atração pela escrita (lembro-me que, terminada aquela leitura, comecei a redigir a “minha versão” da história, com novas paisagens e viagens para o protagonista). Por isso, salvo por este episódio, posso dizer que até os meus vinte e três anos eu não havia realmente despertado para o universo literário; sendo eu, até então, completamente avesso ao tempo perdido com esta arte.

Mas talvez eu não fosse um completo idiota aos vinte e três anos, talvez algo já me salvasse. Eu já lia Santo Agostinho, Olavo de Carvalho e Titus Burckhardt; já havia começado um processo de acompanhamento vocacional e até mesmo me julgava, confesso, uma espécie de “promessa” intelectual.

Por isso o leitor não deve se enganar quanto à minha ignorância a respeito da literatura. Já tinha escutado dos meus mestres – Olavo de Carvalho e Luciane Amato – sobre a importância dos clássicos para a educação pessoal. Ouvi muitas aulas e li muitos textos nos quais, reiteradamente, era feita a mesma advertência. Não se tratava, portanto, de ignorância. Eu sabia, intelectualmente, que aquilo era o certo. Porém, alguma coisa em mim resistia, legando para depois – sempre o depois – a abertura daqueles livros na estante. Tonio Kroeger, O Eterno Marido, O Vôo Noturno, Os Noivos e tantos outros títulos continuavam me espiando, à espera de alguma abertura.

Abertura: era exatamente o que me faltava. A literatura – e a arte em geral – comunica-se com aqueles que têm alma aberta, já diria Bergson. Se eu padecia de alguma coisa até meus vinte e poucos anos, era de um fechamento interior ou, como ensina Olavo de Carvalho, de uma espécie de apeirokalia (falta de amor pela beleza). As raízes deste erro existencial, deste empobrecimento tão caro à dignidade humana, encontravam origens na história nacional, familiar e biográfica. A cura, desta forma, só seria possível pelo processo inverso: da vida individual para a cultura brasileira. Por isto, admitida minha mediocridade – tanto herdada quanto escolhida – era preciso recontar a minha história pessoal com a ajuda dos clássicos, buscando neles o auxílio para despertar uma alma insensível.

O que aconteceu comigo, no que diz respeito à literatura, foi o desenvolvimento de um amor. Toda a minha trajetória, desde as primeiras páginas de Tonio Kroeger, foi no sentido de cultivar algo inédito, muitas vezes apegado à única certeza de que aquilo, com o passar dos anos, faria algum bem. Li, desde então, vários romances, contos e novelas. Algumas vezes, devo ser sincero, nada ou pouco entendia. Sentia, durante a leitura, a dor de um burro que tem nas costas uma carga que quase não suporta. Foi assim com alguns livros de Dostoievski ou James Joyce, por exemplo. Certos autores fizeram-me tocar a miséria do embrutecimento, da falta de educação e da insensibilidade. Outros mostraram minha afeição pelo feio e vulgar. Todos, como num processo silencioso de confirmação real, paulatinamente me resgataram de um estado de torpor, abrindo pequenos espaços para possibilidades imaginárias antes desconhecidas.

Com algum tempo, as leituras ficaram menos “pesadas”. Acabei descobrindo um prazer na atividade e fazendo da minha biblioteca pessoal um nicho literário. A Filosofia, a Sociologia e a História – áreas de contínuo interesse – passaram a ocupar os espaços deixados pelos clássicos, que agora, somam maior número. Se verdade conhecida é verdade obedecida, nisto eu me fiz testemunha: a arte salva, como disse Fernando Pessoa ao justificar sua vocação para a escrita.

E a salvação que a arte possibilita, em especial a literatura, veio ao encontro de uma série de inteligibilidades que, pela leitura de obras filosóficas e sociológicas, eu tinha vivido. Títulos como O homem medíocre, de José Ingenieros, A Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset, “Os homens contra o humano”, de Gabriel Marcel e “A abolição do homem”, de C.S. Lewis, já haviam me despertado para o aviltamento do ser humano que, em última análise, se expressa no fechamento para tudo o que é superior à sua contingência existencial. Com a ajuda destes e tantos outros pensadores, o cenário cultural e existencial do homem me parecia claro: a modernidade da massificação havia nos tornado medíocres por nosso próprio desejo. Foram pessoas de carne e osso, para aludir a Unamuno, que engendraram os piores projetos sociais que nos trouxeram até aqui.

Do mundo para o Brasil. Se minha consciência do estado de coisas, ampla e universalmente falando, era relativamente aguda aos vinte e poucos anos pelos motivos expostos, o drama nacional aos poucos também se esclarecia para mim. Neste ponto, as inúmeras aulas a que assisti de Olavo de Carvalho, além de leituras recomendadas por ele (Gilberto Freyre, Ângelo Monteiro e seu Tratado da Lavação da Burra, Sergio Buarque de Holanda, Oliveira Viana, Paulo Prado e outros) serviram para me instalar, de maneira mais radical, na realidade brasileira.

Mas no nosso caso, o caso brasileiro, percebi que lidar com todo o fechamento e pobreza cultural que conhecemos em maior ou menor profundidade se tratava de, ao fim e ao cabo, olhar para mim mesmo. Eu era um homem moderno brasileiro, pensei. Carregava dentro de mim, portanto, todos os elementos necessários para compor, não sem alguma tristeza, a forma típica do ignorante. E foi um momento de lucidez sobre minha própria realidade que me fez aderir à literatura como quem precisa realmente salvar a vida e a circunstância. Afinal, como eu já disse outras vezes, em meus cursos e em meu blog, falar do Brasil é falar de si mesmo. O abismo cultural em que nos lançamos, sejam quais forem as explicações, só pode ser redimido por um laborioso e sincero processo interior, individual, no núcleo pessoal de cada brasileiro consciente do estado de coisas em que está imerso. Este reconhecimento – ou confissão – foi para mim o mote para uma espécie de reordenação dos meus estudos, aliando às leituras já citadas, as investigações sobre a alma nacional e tudo o que toca minha realidade radical. Também por isto, e a convite de alguns amigos, tenho proferido cursos de História do Brasil há alguns anos, como o de História Colonial e Imperial (2010) e posteriormente o de História da República (2014), ambos no Centro Landmark de Estudos, em Curitiba.

A abertura operada pela literatura deu origem, em 2012, ao Clube do Livro. Para um grupo que variava de 10 e 15 alunos, passei a promover encontros que tivessem a característica essencial de incentivar cada participante a tomar posse de si mesmo com ajuda das grandes obras literárias. Todos os meses indico um livro que deve ser lido pelos integrantes do grupo. Profiro uma aula inspirada na história da vez e indico a obra seguinte. Foi assim com Crime e Castigo, Retrato de um artista quando jovem, Memórias póstumas de Brás Cubas, A estrela sobre, O pai Goriot e Os noivos. A cada nova leitura, compartilhamos sentimentos, impressões, dúvidas e problemas que temos com a obra da vez. Esforçamo-nos, com ajuda de mestres como Otto Maria Carpeaux, Rodrigo Gurgel e Olavo de Carvalho, para apreender o tema central da narrativa e, com isso, fazer as analogias possíveis com a nossa vida individual, numa espécie de lance de luz sobre quem somos. A idéia, repetida tantas vezes em nossos encontros, é crescer, crescer, crescer sobre os ombros dos artistas.

Não sou um crítico literário; idéias como esta, a de crescer, crescer, crescer são por mim empregadas com base em uma série de aulas e leituras que fiz: aprendi com F. R. Leavis, Susanne Langer, Massaud Moisés, Afrânio Coutinho, mas também com amigos professores, especialmente Luciane Amato e Eduardo Dipp, colegas do Centro Landmark. A estes e a tantos outros mestres consagrados devo meus conhecimentos de Literatura. Mas, não; não sou um crítico. Sou um professor que ardentemente deseja uma forma melhor para si mesmo e para os alunos que fielmente me acompanham em aulas, cursos e palestras. Comigo e com os que vêm se aproximando, tento aplicar a mesma metodologia de abertura da alma contra o aviltamento, o torpor e a escuridão em que a grande maioria de nós vive. Em virtude do meu trabalho, tenho comprovado que o inferno é a admissão pessoal de uma existência inferior, indigna da espécie a que pertencemos. É por lutar contra isto, e por promover um tipo de atualização da condição humana, que tenho trabalhado e usado a Literatura.

Assim, os ensaios que fazem parte desta publicação – que foram lidos nas respectivas aulas do Clube do Livro, com poucas diferenças – não são sobre as obras literárias, mas sobre a vida que emana de suas leituras. Distingo, aliás, leitura de leitura viva. Como aprendi com D. H. Lawrence, é preciso na vida comprometer-se intimamente, avalizando tudo o que fazemos com a baliza do sangue, ou seja, o conjunto genuíno das emoções. Entendida como um movimento da alma, a emoção é sinal de entrega e passividade fecunda; um processo que sempre desperta para mais vida. Neste sentido, os textos aqui reunidos foram concebidos para ajudar o leitor a enxergar a vida que da obra jorra e que sacia, em alguma medida, uma sede interior. As novas possibilidades de existência, que a partir da experiência da leitura chegam ao quem do leitor, é o que considero o radical fruto da devoção literária. Não sendo especialista em qualquer fase, movimento ou autor, o que ofereço são análises feitas nestes termos e com vistas a este objetivo.

Ao longo dos ensaios, alguns nomes se repetirão: Julián Marias, Ortega y Gasset, Olavo de Carvalho, Louis Lavelle. Nada mais normal. Eles são os meus mestres e deles herdei as grandes perspectivas pelas quais tenho lidado com o mundo.

 Por fim, esclareço que o critério de conhecimento do livro é seu, leitor. Você pode ler as obras que inspiraram os ensaios primeiro, depois os respectivos ensaios. Ou, fazer o trajeto contrário, indo em direção dos romances já com o conteúdo dos ensaios. Se me permite opinar, a primeira opção talvez seja mais interessante. Seria uma forma de, analogamente, viver a experiência dos alunos que integram o grupo que deu origem a este livro.

O autor.

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